quarta-feira, 24 de abril de 2013

Vacina


Procurei o posto de saúde do bairro em que trabalho para me vacinar contra a gripe.
Oportuno lembrar que essa vacina foi fabricada com os vírus que nos atacaram há dois anos.
Esses vírus sofrem constantes mutações e, por essa razão, entre outras, uma pessoa vacinada poderá contrair essa chata doença, que não tem tratamento específico.
No postinho - nome carinhoso para as Unidades de Atenção Primária de Saúde, - chamou a minha atenção a ausência de pacientes para consultas de rotina e somente dois para a vacinação.
Aproveitei a tranquilidade do ambiente para conversar com o médico responsável. O seu companheiro (médico residente) tinha se ausentado por estar com a tarefa concluída, imagino.
Recebi uma verdadeira aula prática, atualizada e real da situação precária da nossa saúde pública, que não é diferente do resto do país.
Muitos dos atuais prefeitos têm conhecimento de que o SUS funciona em três grandes níveis de atendimento, com complexidade crescente.
O primeiro, mais amplo e mais importante, é o da Atenção Primária de Saúde, onde estão distribuídos os PSF com a sua ação preventiva.
Também fortalece esse trabalho os Centros de Saúde.
Recentemente o governo federal criou o PROVAB (Programa de Valorização de Atenção Básica), com dois objetivos.
Preencher as vagas existentes com os médicos recém-formados e oferecer créditos para o ingresso em um curso de Residência Médica. Recebem uma bolsa cuja duração é de um ano, podendo ser prorrogada por mais um.
A carga horária dos médicos do PROVAB é de trinta e duas horas semanais, para que tenham tempo de se prepararem para as provas da residência médica.
O valor da bolsa é de oito mil reais mensais.
Nosso município possui três PSFs (Programa Saúde da Família) para atender a zona rural (Guia, Rio dos Peixes e Aguaçu). Cuiabá tem sessenta e cinco PSFs, sem autonomia para realizarem um atendimento com terminalidade.
Seus médicos possuem perfis, cargas horárias e vencimentos diferenciados.
As equipes da atenção primária de saúde só encontram dificuldades para desempenharem com eficiência as suas tarefas.
A estrutura física é inadequada: faltam biombos, lençóis, as torneiras estão enferrujadas, os telhados arrebentados, falta espaço para o trabalho e até material para simples exames e medicamentos.
As mulheres que dependem do PSF para um exame de prevenção do câncer de colo uterino, fogem do posto, pois os mesmos, na sua maioria, não lhes oferecem condições de dignidade para a coleta do material.
É triste saber que isso acontece na cidade da Copa.
Os recursos nunca são suficientes ao ponto cruciante, que é a atenção primária.
O segundo nível de atendimento é a Atenção Secundária de Saúde, destinada a resolver os problemas de média complexidade. Para auxiliar nessa tarefa, recentemente foram criados as UPAS, que são unidades de Pronto Atendimento, não atendendo a alta complexidade. Muitos não trazem resolutividade para a baixa complexidade.
Nós temos uma UPAS ainda em construção, e outra em discussão. Programada pelo governo federal mais duas.
As policlínicas deveriam dar terminalidade aos problemas básicos da saúde, encaminhando ao Pronto Socorro apenas os casos de alta complexidade.
Temos seis policlínicas, todas desfalcadas de recursos humanos e materiais. Funcionam quase como passagem para o Pronto Socorro.
O terceiro nível atende a saúde terciária. É o pico da pirâmide, onde temos o hospital do Pronto Socorro.
Já os médicos das policlínicas e do hospital do Pronto Socorro têm salários e cargas horárias de acordo com a sua especialidade.
Eles já perceberam que sem uma priorização da rede básica, pouco resolverá a construção de um novo Pronto Socorro.
Casa de taipa com cobertura de vidro não transmite segurança ao seu usuário.

Gabriel Novis Neves
16-04-2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

MENTIRINHA


Quando um político está descontente com o partido que o elegeu procura o mais rápido possível deixá-lo por outro que lhe ofereça melhores prendas.
Sem a menor cerimônia faz uma consulta prévia ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para ter certeza que não perderá o seu mandato.
Por si só, essa conduta é uma ofensa aos bons princípios, pois o mandato pertence aos partidos, e não, aos eleitos.
Enfim, essa lei da fidelidade partidária veio para frear um pouco a sem-vergonhice de pula-pula de partidos, tudo por vantagens pessoais.
Muitos políticos, em várias eleições, nunca se reelegeram pela mesma agremiação partidária.
Na verdade, a política é uma grande empresa de negócios, onde existem inúmeros produtos.
Falar em ideologia, ideal, vocação para a vida pública, é piada das boas nesse mundo de interesses pessoais e negócios inexplicáveis.
Quando as portas mais confortáveis estão fechadas para determinadas ovelhas, elas criam os seus próprios partidos.
Neste momento, estamos assistindo ao nascimento de um novo rebento, embora o governo faça tudo para abortá-lo.
É um conglomerado de gente rodada pelos mais diversos partidos existentes no mercado, e que procura o seu ponto de sucesso.
“Arca de Noé” fica como sugestão para ajuntamento de descontentes, que sempre existirão em todos os desestruturados partidos existentes na praça.
O que menos preocupa aos trânsfugas é como ficarão os seus correligionários, aqueles militantes que enfrentaram o bom debate com o adversário, e hoje, prováveis aliados.
Por favor, não venham me justificar tais atitudes com essa história de que os meios justificam os fins.
Pureza ideológica nós encontramos nos torcedores de futebol, onde jamais um flamenguista mudará para vascaíno.
Um país sem ideias é um país estéril, onde só vigorará seres produtos de inseminação artificial, quando a fisiologia é substituída pela mentirinha.
Diante desse quadro de imaturidade política, resta-nos o silêncio covarde e reprovador.
O pior é que temos que dizer que tudo vai bem no país da mentirinha.
Para ser popular, que é o caso do político, “tem que ser medíocre”.

Gabriel Novis Neves
27-03-2013

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Blindagem


O termo em si nos arremete, prioritariamente, a armamento pesado e guerra. Isso até há algum tempo atrás.
Atualmente, de imediato, associamos o termo à política escusa vigente em nosso país.
Práticas políticas pouco transparentes, e a perda cada vez maior de posturas éticas, vêm fazendo com que seus praticantes, aliás, em grande número, se preocupem com a blindagem no tocante à opinião pública.
Com relação aos sentimentos, a blindagem progressiva que vem ocorrendo nada mais é do que um aprofundamento do embotamento afetivo ocorrido no mundo pós-moderno.
Imagino que o termo sofrimento, que tanto inspirou nossos poetas em eras não tão distantes, esteja sendo proscrito do nosso dia a dia.
Não só drogas poderosas são usadas como antídoto, mas também a propalada atitude de alegria perene vinculada nas diversas mídias. Ambas igualmente perigosas.
É impressionante a tentativa subliminar, e atualmente nem tanto, de impedir que nos entreguemos aos nossos verdadeiros sentimentos.
O sofrimento é válido na medida em que nos permite, através dele, exorcizar todas as nossas mágoas e assim metabolizar todas as enzimas prejudiciais por ele geradas.
Impossível querer impedir o livre escoamento das emoções, e muito menos blindá-las.
Como se já não bastasse, “arrebentar”, “detonar”, “arrasar”, “bombar”, símbolos atuais de sucesso, também agora estamos nos acostumando a tudo “blindar”, inclusive a nós mesmos.
Que tristeza, não?
Será essa a solução para um mundo melhor?
Tudo leva a crer que não, uma vez que as doenças só fazem aumentar, apesar do grande desenvolvimento tecnológico.
As drogas inundaram as grandes cidades, a fome continua dizimando países e a guerra é uma ameaça constante para a humanidade.
Altas potências se preocupam no momento em “blindar” os seus territórios.
Círculo vicioso de difícil desmonte.

Gabriel Novis Neves
01-04-2013

domingo, 21 de abril de 2013

MANEQUIM


De uns anos para cá, na dificuldade de utilizar cadáveres humanos para as aulas práticas de anatomia, a academia vem recorrendo ao uso de manequins.
Hoje, grande parte do material dos laboratórios anatômicos é produzido com impressionante perfeição pela indústria.
Com relação às práticas com pacientes vivos nos Hospitais Universitários, os professores realizam os procedimentos ambulatoriais, de enfermaria e no Centro Cirúrgico sempre orientando seus alunos e depois lhes auxiliando.
Há muito cuidado com a segurança desses pacientes, que em ato de extrema generosidade, muitas vezes nem percebem o benefício que estão prestando à humanidade.
Geralmente são os pobres os mais sensíveis a esse ato de doação.
Durante a minha longa vida profissional esse foi o cenário do meu trabalho.
Impressionava-me o despojamento do paciente na formação de nossos futuros médicos, sempre atentos à solidariedade na sua aprendizagem.
Recentemente tive o privilégio de ser sondado para participar de uma aula prática para profissionais na área de saúde. Eu seria o objeto de estudo.
Aceitei o convite. Após duas horas de aula desta experiência primeira, sugiro a todos que tiverem esta oportunidade de socializar conhecimento, que não se neguem a esse chamamento.
É indescritível a sensação vivida pelo manequim humano. Impossível não se emocionar diante de uma classe de alunos ávidos pelo saber da cura, entregar-lhes a sua patologia e corpo para ser transformado em terapêutica para muitos.
Aquele silêncio diante da descrição do professor para os problemas a serem corrigidos e a atenção transmitida pelos olhares fixos e umedecidos dos jovens, me fez rever muitos pontos esquecidos na relação ensino-aprendizagem.
Nasce nesse momento o tão reclamado humanismo no atendimento aos pacientes, especialmente aos portadores de lesões.
Deixei o local da aula prática pensando nos benefícios que um sofrimento traz de alívio a tanta gente.
Esqueci completamente as penosas e dolorosas aulas de fisioterapia.
Não há maneira mais gratificante, mesmo na doença, saber que estamos ajudando alguém a aprender, com manobras em seu corpo, técnicas modernas de reabilitação motora.
É chegada a hora de passarmos do discurso para a prática, ajudando o nosso próximo.
Só a solidariedade poderá nos colocar em condições de seres humanos.

Gabriel Novis Neves
04-04-2013

sábado, 20 de abril de 2013

Apostila


Certos fatos que acontecem neste Estado só mesmo uma inteligência superior para decifrá-los.
O assunto polêmico do momento são as cartilhas encomendadas pelo governo estadual a uma empresa privada e pertencente ao programa de capacitação “Qualifica Mato Grosso”.
Essa cartilha ou apostila foi feita com o objetivo de “instruir” a população sobre elementos da história de Mato Grosso.
Desprezo e despreparo são as marcas desse trabalho.
Povoam as suas páginas citações preconceituosas, agressivas, debochadas, verdadeiras ofensas intoleráveis e inaceitáveis aos municípios de Santo Antonio do Leverger, Poconé, Barão de Melgaço e Cáceres.
Palavrões são usados para denegrir a nossa história.
O complicado é entender porque um governo que possui uma excelente universidade (UNEMAT) recorra aos préstimos de uma empresa privada para a elaboração do documento feito para “instruir”.
Mato Grosso possui profissionais de competência reconhecida nessa área e que poderiam perfeitamente ser convocados para essa tarefa.
O governo do Estado não aprova as nossas instituições.
Qual o currículo dos empresários que detonaram, com sua sabedoria e eficiência, o saber das universidades, do Instituto Histórico, dos membros da Academia de Letras e tantos estudiosos do nosso passado?
Por isonomia fica esclarecida a privatização da nossa saúde pública. 
Por trás dessas linhas da apostila para “instruir” existe a intenção de privatizar a nossa cambaleante educação.
Triste constatação da nossa realidade.
Mais importante que descobrir o autor ou autores desse crime, é saber o critério usado para a escolha da empresa para a realização de um trabalho acadêmico.
Está claro que, além da grosseria com nossos municípios, o governo demonstrou que não confia em nossa educação.
Aguardemos as desculpas esfarrapadas que virão.

Gabriel Novis Neves
17-04-2014

sexta-feira, 19 de abril de 2013

CORRETO


Tudo está saindo como planejado nas obras da Copa do Mundo em Cuiabá.
Nesta terra todos sabiam, desde que a nossa cidade foi escolhida como uma das subsedes, que na reta final o cronograma das obras estaria inviabilizando as entregas em prazo útil para o mega evento.
Com precisão cirúrgica a execução foi correta.
As trincheiras principais, após quase dois meses sem nenhum operário trabalhando, motivaram o tão esperado chamamento de novas construtoras, que prometem cumprir os prazos apertadíssimos para a sua entrega. Tudo isso sem licitação.
Evidente que o valor das obras aumentou, oficialmente, 10% daquele licitado. Ninguém por aqui ficou surpreso, pois o fato de há muito era esperado.
Outro grande legado modal, que é o moderníssimo VLT, o Ministro dos Esportes, no programa Roda Viva da TV Cultura de São Paulo, explicou que essa obra não é para a Copa do Mundo.
Nossos dirigentes insistem em contrariar o Ministro, garantindo que nos primeiros dias do próximo ano o novo sistema de transporte coletivo estará em teste.
O Verdão precisa urgentemente de aditivos em suas obras, pois o presidente da FIFA estará por aqui no início do próximo mês dando uma de São Tomé – ver para crer.
O Secretario Geral da entidade máxima do futebol mundial foi veemente na Suíça, afirmando que o prazo último da entrega da Arena Pantanal para os jogos da Copa será no dia 31 de dezembro deste ano.
“Bejô, bejô, quem não bejô, não beja mais”, cutuca o cuiabano.
Nada abala a opinião pública, porque o atraso que estamos assistindo em relação ao legado da Copa estava previsto há dois séculos, como diria Nelson Rodrigues.
Enfim, não acredito nos profetas do atraso e naquilo que os meus olhos veem.
Todas as obras e obrigações do caderno da FIFA estarão concluídas e entregues nos prazos previstos.
Com relação à majoração dos preços das obras, é outro assunto.

Gabriel Novis Neves
10-04-2013

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Queria entender


Quando havia programas humorísticos na televisão, lembro-me de um quadro que terminava sempre com o seguinte bordão: “Eu só queria entender”.
Essa é a minha situação no momento, e acredito ser também a de milhões de brasileiros.
O país está paralisado discutindo dois assuntos: o novo casamento da Daniela Mercury com uma jornalista e apresentadora de TV e o caso do pastor Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
A cantora está na curva descendente da sua carreira, precisando de forte mídia para não ser esquecida.
O tal do pastor foi eleito por seus colegas para a dita Comissão, e chegou ao Congresso Nacional montado em mais de duzentos mil votos.
Enquadra-se perfeitamente no perfil dos seus colegas e pertence à base de sustentação política do governo de trinta e nove ministérios, por enquanto.
Sua eleição para a Comissão foi visando tempo de televisão do seu partido e, principalmente, a captura dos votos dos seus crentes.
Tudo feito e combinado tendo em mira a reeleição da presidente, que para atingir seu objetivo de permanecer mais uma temporada no Alvorada, já declarou que faz negócio até com o demônio, inimigo do pastor.
Quando tenho tempo, antes de dormir, não deixo de dar um passeio pelos inúmeros canais de TV que transmitem os cultos religiosos.
Como é fácil abrir uma igreja no Brasil! Mais simples ainda é arranjar os dízimos para comprar uma estação de TV ou  horas de programação em horários nobres, e naqueles nem tão nobres assim.
Em todas as religiões os dogmas estão presentes. “Os princípios dogmáticos são crenças básicas pregadas pelas religiões, que devem ser seguidas e respeitadas pelos seus membros sem nenhuma dúvida”.
Entretanto a proliferação dessas crenças chega a assustar - o que é um sinal evidente que há um enorme mercado consumidor para a aquisição da fé.
O cenário dos programas e os conteúdos colocados à disposição do público são sempre os mesmos:
O pregador à frente do público falando aos gritos e enfaticamente, com a intenção clara de emocionar os fiéis. Além disso, os pregadores se utilizam de ingredientes que fogem do normal: milagres, sinais, prodígios, exorcismos e curas.
Todos esses benefícios são possíveis pela generosa doação dos dízimos.
Inúmeros obreiros são treinados no recebimento “espontâneo” dessas doações, cobradas repetidas vezes durante o culto.
O pastor Feliciano repete exatamente aquilo que outros colegas de igrejas, de nomes diferentes, pregam, e não são incomodados.
É um pai caridoso que alerta os seus milhares de seguidores para cumprirem em dia com os seus deveres religiosos para o bem deles.
Um atraso no pagamento poderá anular uma graça recebida.
Lembra que na sua igreja há muita gente que deu calote em Deus e arcou com as consequências.
Diante dos inúmeros protestos, com movimentos de rua, manifestação de artistas e intelectuais contrários a sua presença na Comissão da Câmara dos Deputados - em um país tão injusto socialmente, onde a educação e a saúde de péssima qualidade oferecida pelo governo aos pobres não sensibiliza ninguém - e, diante da insignificância do pastor agora famoso, fico a lembrar do bordão.
E como ficam os outros presidentes de Comissões condenados por crimes contra o patrimônio público e condenados pelo Supremo Tribunal Federal?

Deixo claro que jamais votaria no pastor, para deputado federal e muito menos para a presidência de qualquer comissão.

Também nada a censurar sobre o casamento da cantora baiana.
Eu só queria entender o que está acontecendo no Brasil.

 “É fácil defender a liberdade de expressão quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas." (Walter Willians).


Gabriel Novis Neves
08-04-2013