terça-feira, 26 de maio de 2026

ROUPAS NOVAS


Ganhar roupa nova antigamente era um acontecimento importante.

 

Muitas crianças recebiam peças apenas em aniversários, Natais ou festas especiais.

 

Havia recomendações rigorosas para não rasgar, não manchar e não brincar demais.

 

A roupa nova carregava certo orgulho familiar.

 

Algumas crianças até dormiam pensando no dia seguinte, ansiosas para estrear o presente.

 

Hoje o consumo tornou tudo mais rápido e abundante.

 

Talvez por isso certas roupas tenham perdido o valor afetivo que antes possuíam.

 

Quando criança gostava de ganhar roupas novas, mas muito mais brinquedos.

 

A criança nasce sem roupa e logo começa a brincar com o mamilo da mãe e as chupetas.

 

Com o passar do tempo, os brinquedos ficam mais sofisticados.

 

O interesse pela roupa nova surge mais tarde, já na fase escolar, quando começa a usar o uniforme do jardim da infância ou do pré-escolar.

 

Nessa fase aparecem também as recomendações de cuidado, principalmente quando as roupas eram presentes de aniversários, datas especiais ou Natais.

 

Meu bisneto completou cinco anos e ganhou mais brinquedos do que roupas.

 

Nessa idade já aparece certa vaidade: prefere camisetas sem gola.

 

As roupas que ganhávamos antigamente eram feitas por costureiras, abundantes na cidade, quando não pelas próprias mães.

 

Ganhar roupa nova vinha acompanhado de uma série de recomendações:

 

— Só usar na missa de domingo.

 

— Cuidado para não rasgar.

 

— Não vá sujar a roupa brincando.

 

Só tive uma roupa feita por alfaiate em mil novecentos e quarenta e seis: o uniforme branco do colégio dos padres, onde cursei o ginásio.

 

Minha mãe costurou os uniformes do Grupo Escolar e do Colégio Estadual.

 

O alfaiate era o seo Pedroso, que tinha seu ateliê na rua Candido Mariano, quase esquina com a rua do Meio, nos fundos da Casa Rosa, na rua de Baixo.

 

Costumava tomar cerveja, de pé, na área de serviço do bar do meu pai, até seu fechamento, em mil novecentos e setenta.

 

Papai trabalhava sempre de terno e gravata. Naquele tempo ainda não existiam ternos prontos em Cuiabá.

 

Hoje a profissão de alfaiate quase desapareceu com a industrialização das roupas.

 

O terno já vem pronto, aguardando apenas pequenos ajustes.

 

Comprei meu primeiro terno na loja Ducal, no Rio de Janeiro, que também desapareceu com o tempo.

 

Hoje encontro ternos com facilidade, prontos para vestir.

 

Mas nenhum deles traz o mesmo orgulho silencioso das roupas da minha infância.

 

Gabriel Novis Neves

21-05-2026




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