Na minha infância, a chuva não era motivo para recolhimento dentro de casa.
Era convite para a rua.
Bastava o céu escurecer e os primeiros pingos baterem no chão quente para que as crianças se agitassem.
O cheiro da terra molhada subia como um perfume forte, anunciando que a tarde seria diferente.
As ruas de Cuiabá ainda eram de terra batida.
Quando chovia, formavam-se pequenas poças que pareciam lagos para nossa imaginação.
Minha mãe reclamava.
Dizia que eu voltaria todo sujo.
Voltava mesmo.
Mas voltava feliz.
A chuva lavava o calor da cidade e também a pressa da infância.
Corríamos descalços pela rua.
Alguns improvisavam barquinhos de papel.
Outros apenas pisavam nas poças, espalhando água para todos os lados.
Ninguém pensava em gripe ou resfriado.
A preocupação das crianças era apenas aproveitar aquele momento raro em que o céu participava da brincadeira.
As casas tinham quintais grandes.
As mangueiras e goiabeiras recebiam a água da chuva como uma bênção.
A enxurrada corria pela sarjeta levando folhas, gravetos e pequenas aventuras.
A chuva terminava quase sempre do mesmo jeito.
O sol voltava de repente.
O chão começava a secar.
E as mães apareciam nos portões chamando os filhos.
Voltávamos para casa com a roupa molhada e os pés sujos de barro.
Mas com o coração leve.
Hoje as crianças quase não conhecem esse tipo de liberdade.
As ruas são asfaltadas.
Os carros passam depressa.
E a chuva virou apenas um transtorno para o trânsito.
Quando sinto o cheiro da terra molhada, ainda me lembro daquelas tardes.
E penso que algumas das melhores alegrias da vida vieram simplesmente de um banho de chuva.
Gabriel Novis Neves
05-03-2026
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