domingo, 17 de maio de 2026

BANHO DE CHUVA NAS RUAS DE CUIABÁ


Na minha infância, a chuva não era motivo para recolhimento dentro de casa.

 

Era convite para a rua.

 

Bastava o céu escurecer e os primeiros pingos baterem no chão quente para que as crianças se agitassem.

 

O cheiro da terra molhada subia como um perfume forte, anunciando que a tarde seria diferente.

 

As ruas de Cuiabá ainda eram de terra batida.

 

Quando chovia, formavam-se pequenas poças que pareciam lagos para nossa imaginação.

 

Minha mãe reclamava.

 

Dizia que eu voltaria todo sujo.

 

Voltava mesmo.

 

Mas voltava feliz.

 

A chuva lavava o calor da cidade e também a pressa da infância.

 

Corríamos descalços pela rua.

 

Alguns improvisavam barquinhos de papel.

 

Outros apenas pisavam nas poças, espalhando água para todos os lados.

 

Ninguém pensava em gripe ou resfriado.

 

A preocupação das crianças era apenas aproveitar aquele momento raro em que o céu participava da brincadeira.

 

As casas tinham quintais grandes.

 

As mangueiras e goiabeiras recebiam a água da chuva como uma bênção.

 

A enxurrada corria pela sarjeta levando folhas, gravetos e pequenas aventuras.

 

A chuva terminava quase sempre do mesmo jeito.

 

O sol voltava de repente.

 

O chão começava a secar.

 

E as mães apareciam nos portões chamando os filhos.

 

Voltávamos para casa com a roupa molhada e os pés sujos de barro.

 

Mas com o coração leve.

 

Hoje as crianças quase não conhecem esse tipo de liberdade.

 

As ruas são asfaltadas.

 

Os carros passam depressa.

 

E a chuva virou apenas um transtorno para o trânsito.

 

Quando sinto o cheiro da terra molhada, ainda me lembro daquelas tardes.

 

E penso que algumas das melhores alegrias da vida vieram simplesmente de um banho de chuva.

 

Gabriel Novis Neves

05-03-2026







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