Nas ruas antigas, algumas ferramentas pareciam pertencer ao bairro inteiro.
Escadas, martelos, alicates e até formas de bolo circulavam entre vizinhos sem burocracia. Bastava bater palma no portão e pedir emprestado.
Havia uma confiança natural entre as pessoas.
Nem sempre o objeto voltava rapidamente, mas acabava voltando.
Hoje quase tudo ficou individualizado.
As casas ganharam muros mais altos e os empréstimos diminuíram.
Talvez porque a convivência também tenha ficado mais distante.
Fui criado nesse ambiente, na primeira metade do século passado.
A confiança era a moeda daquele tempo, quando quase tudo parecia pertencer à coletividade.
Cansei de presenciar vizinhos pedindo à minha mãe o açúcar que faltava para o bolo ou a escada para trocar uma lâmpada queimada.
Havia a certeza que aquilo que saia emprestado voltaria.
Hoje as portas permanecem fechadas, os muros são altos e os vizinhos mal se conhecem.
Moro em um edifício de vinte andares, num dos bairros mais valorizados de Cuiabá.
A maioria dos moradores é proprietária e amiga entre si, lembrando os antigos bairros da cidade.
Por aqui ainda circula a moeda da confiança, e continua sendo comum emprestar alguma coisa.
Quando a funcionária me consulta sobre o empréstimo de um ingrediente para o almoço, imediatamente me vêm as lembranças dos tempos antigos.
Sei que aquilo voltará e, mais do que isso, sinto-me útil.
Recordar o passado faz bem nestes tempos de consumismo desenfreado.
Vivíamos em comunidades onde todos se consideravam irmãos, quando não compadres e comadres.
Andar pelas calçadas era sempre devagar entre conversas nas portas das casas.
Frequentemente surgia um convite, quase sempre aceito, para entrar e tomar um cafezinho ou um refresco que aliviasse o calor cuiabano.
À noite, as calçadas eram ocupadas por cadeiras de balanço.
Quem tivesse pressa precisava caminhar rápido, de cabeça baixa, pelo meio da rua.
Do contrário, acabaria parado nas portas das casas, verdadeiras salas de visitas.
Como era bonito recordar a rua do Campo, com as famílias reunidas nas portas, sentadas em cadeiras de balanço!
Conheci o Marechal Cândido Mariano sentado numa dessas cadeiras, na porta da casa do seo Álvaro Duarte.
Até então eu o conhecia apenas pelos livros escolares e pelo nome de rua em Cuiabá.
Meu avô Alberto também me contava histórias sobre ele, um pouco diferentes das dos livros.
No fundo, eram tempos em que a confiança passava de mão em mão, como uma velha escada de vizinho.
Gabriel Novi Neves
23-05-2026
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