Poucas coisas davam tanta sensação de casa arrumada quanto abrir um sabonete novo no banheiro.
O perfume se espalhava discretamente e anunciava cuidado doméstico.
Algumas famílias guardavam sabonetes mais perfumados para dias especiais ou para a chegada das visitas.
Havia também quem colocasse as caixinhas vazias dentro das gavetas, apenas para perfumar as roupas.
Pequenos hábitos simples davam personalidade as casas.
E certos cheiros permanecem vivos na memória durante décadas.
Minha mãe tinha o hábito de manter a casa sempre limpa, arejada e organizada, tudo feito com economia e zelo.
Muito cedo ela me ensinou que sabonete nunca acabava.
Quando a barra ficava pequena, era colada em outra nova, e assim sucessivamente.
Também guardava as embalagens perfumadas nas gavetas dos armários.
São perfumes que atravessam o tempo e permanecem guardados nas lembranças.
Minha mãe arrumava a casa de um jeito tão especial que, ainda da rua, já sabíamos que estávamos chegando perto de casa.
Tudo era feito com a ajuda dos filhos mais velhos, numa colaboração silenciosa e natural.
Quando fui estudar Medicina no Rio de Janeiro, conheci outros cheiros inesquecíveis.
Impossível esquecer o aroma das Lojas Sears, na Praia de Botafogo.
A refrigeração central, as escadas rolantes, os restaurantes, as lanchonetes, os cinemas e as lojas de departamentos criavam um ambiente moderno e perfumado, muito diferente da Cuiabá daquele tempo.
Em 1952 havia duas grandes novidades no Rio: o Estádio do Maracanã e as Lojas Sears.
Mais tarde, os sabonetes em barra começaram a desaparecer dos banheiros públicos, substituídos pelos sabonetes líquidos em recipientes presos à parede, considerados mais higiênicos e econômicos.
Todas as crônicas que escrevo acabam me levando de volta aos ensinamentos de minha mãe.
Ela foi a grande mestra da minha vida, até mesmo naquele inocente sabonete que, em suas mãos, parecia nunca ter fim.
Gabriel Novis Neves
16-05-2026
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