quinta-feira, 28 de maio de 2026

CORTE DE CABELO


Cortar o cabelo das crianças antigamente era quase uma cerimônia.

 

Algumas iam chorando para a barbearia, enquanto outras aceitavam resignadas o pente e a tesoura.

 

Muitas mães guardavam uma pequena mecha do primeiro corte, como lembrança da infância.

 

Havia também os cortes “de verão”, bem curtos por causa do calor cuiabano.

 

Depois do corte vinham o banho, o talco e a roupa limpa.

 

Pequenos acontecimentos domésticos tinham enorme importância numa época em que a vida corria mais devagar.

 

Comecei a frequentar as barbearias aos sete anos de idade.

 

Até então, minha mãe aparava meus cachos com paciência e cuidado.

 

Mais tarde, meu pai passou a ser o encarregado de me levar aos barbeiros da cidade.

 

Naquele tempo as carteiras das escolas públicas eram coletivas, facilitando a proliferação de piolhos e lêndeas.

 

Muitas crianças tinham pouca higiene com os cabelos: não os lavavam direito, usavam pentes emprestados e trocavam bonés entre colegas.

 

Por isso, era comum os pais pedirem ao barbeiro que raspasse a cabeça dos meninos com máquina número zero ou deixasse apenas uma pequena ‘pastinha’.

 

Difícil mesmo era livrar as meninas dos piolhos.

 

As mães passavam horas numa verdadeira caça aos bichinhos, penteando longos cabelos com pente-fino e esmagando lêndeas entre as unhas.

 

Algumas aplicavam remédios fortes e depois enrolavam a cabeça das filhas com lenços ou fraldas.

 

Meu pai me levava ao barbeiro da rua do Meio e pedia que raspasse bem a cabeça, para o cabelo demorar mais a crescer.

 

Na adolescência, peregrinei pelos barbeiros mais conhecidos de Cuiabá.

 

Fui cliente do João Galinha, ao lado do Palácio Alencastro, Joãozinho e seu irmão Pedroso, na rua do Meio, e do Gentil Esteves, dono do corte mais rápido da cidade.

 

Passei onze anos estudando Medicina no Rio de Janeiro.

 

Quando voltei, encontrei outro ambiente e descobri que os barbeiros mais admirados eram os portugueses e espanhóis.

 

Hoje, ao ver crianças nos modernos salões de beleza, lembro daqueles antigos barbeiros, onde o corte de cabelo era simples, rápido e fazia parte da educação da infância.

 

No fundo, cada corte levava embora um pouco da meninice e deixava chegando, devagarinho, a vida adulta.

 

Gabriel Novis Neves

22-05-2026




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