sábado, 17 de maio de 2025

FILHA FESTEIRA


Minha filha sempre foi festeira, ocupando espaços fora de casa após o casamento

 

Costumava celebrar as datas mais importantes na casa dos pais ou em clubes.

 

Depois da inauguração do seu casarão, que substituiu o apartamento de cobertura, todos os meses ela organiza uma festa de arromba, servida por bufê e com música ao vivo, reunindo parentes e amigos.

 

Suas filhas possuem ótimas moradias, mas os quatro netos preferem viver na casa dos avós.

 

Os que estão na escola, assim que terminam as aulas, vão para lá, retornando para casa só após o jantar.

 

Nos finais de semana, passam o dia e dormem na casa da vó.

 

As três Marias e o João Gabriel, adoram a casa dos avós, onde recebem carinho e amor em abundância.

 

Da minha parte, aprecio à distância a felicidade da minha filha, das netas e dos bisnetos.

 

Mesmo com saúde, o velho aqui já apresenta um tipo de vigor bem diferente de anos atrás.

 

O pior não é a dificuldade de locomoção, mas sim o desconforto causado pela neuropatia e pela disautonomia.

 

Dormir doze horas por dia e acordar com sono, passar o dia sonolento e, logo após o banho, sentir vontade de dormir novamente — é demais!

 

Escrevo sonolento, num esforço desumano.

 

Imaginem só fazer os exercícios de fisioterapia...

 

É por isso que não saio mais de casa, a não ser para consultas médicas com equipamentos específicos.

 

Já consultei os melhores médicos daqui e de São Paulo, mas nenhuma terapêutica trouxe alívio.

 

Só me resta lamentar não poder aproveitar esse restinho de vida que me sobra para estar junto aos meus.

 

Como seria bom poder visitá-los, acompanhá-los aos passeios, compartilhar das guloseimas e atender aos seus pedidos.

 

Deus dá a cada um o final que ele merece.

 

Minha parte intelectual permanece íntegra, e os sinais vitais perfeitos, mas passo o dia inteiro me sentido mal.

 

Gabriel Novis Neves

08-05-2025




sexta-feira, 16 de maio de 2025

CHEGADA DE UM FILHO

 

Até alguns meses atrás, minha produção literária era, no mínimo, de duas crônicas diárias.

 

Quando estava mais disposto, esse número aumentava. Diminuir, nunca!

 

Notei que de uns tempos para cá essa produtividade caiu.

 

Sinto certa dificuldade para a leitura.

 

Escrevo na tela aumentada, acoplada ao laptop, sem nenhuma dificuldade.

 

Meus exames de vista estão em dia, e são acompanhados com atenção pelo oftalmologista.

 

Tenho facilidade para encontrar assuntos sobre os quais escrever, o que é uma verdadeira salvação para quem não sai de casa.

 

Abandonei os programas de televisão, até mesmo os noticiários, restando apenas os jogos de futebol.

 

Depois das oito da noite, não sou mais gente: só sinto vontade de dormir — e durmo.

 

Estou recuperando as horas de sono que a juventude me roubou, entre estudos e trabalho.

 

As cuidadoras sabem que nossas conversas, em geral, terminam em crônicas.

 

Como um assunto puxa o outro, veio-me à mente o dia 17 de maio de 1967.

 

Estava de plantão no SAMDU até ao meio dia.

 

Minha mulher, com quarenta semanas de gestação e histórico de dois partos normais realizados na Maternidade de Cuiabá, já aguardava o nascimento.

 

Faltava pouco para o plantão terminar, quando Regina me ligou dizendo que estava com fortes contrações uterinas, e dor no sacro.

 

Fui para casa, na rua Floriano Peixoto, para examiná-la.

 

O Fernando estava nascendo. Enquanto ela se preparava, liguei para o doutor Clóvis Pitaluga, avisando que estávamos a caminho da maternidade.

 

Naquela época não havia ultrassonografia, e o sexo da criança só era descoberto ao nascer.

 

Regina acertou o sexo dos nossos três filhos, e quando eles chegavam seus nomes já estavam escolhidos.

 

Hoje esse bebê está completando 57 anos de vida, com muita saúde e querido por todos.

 

A comemoração será no almoço da família, e o presente de aniversário do pai: um PIX perfumado.

 

Gabriel Novis Neves

17-05-2025




quinta-feira, 15 de maio de 2025

ANDO 'FROUXO'


Ando um tanto 'frouxo' para escrever cobre o cotidiano. Meu corpo pede cama para descansar.

 

Dormi tranquilo durante doze horas, mas sigo assim.

 

Esse ‘fenômeno’ já me acompanha há alguns meses.

 

Marquei uma consulta completa no Centro de Cardiologia. Passarei pelos exames clínicos e complementares.

 

Como é difícil entrar na casa dos noventa!

 

Muitos sucumbem às suas beiradas.

 

Temo estar nesse grupo, repleto de pessoas famosas ou conhecidas.

 

Neste mês, nos deixaram aos 89 anos o Papa Francisco, Pepe Mujica, guerrilheiro uruguaio. Mário Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, em abril, também aos 89 anos.

 

Meu plano de saúde a cada dia complica mais a vida dos velhinhos, exigindo coisas que eles não têm, como as digitais para identificação.

 

São manobras que a cooperativa de serviços médicos implantou para evitar o uso dos seus produtos, como os exames de análises clínicas.

 

Com isso, quantos usuários, pagando o plano, deixam de usufruir dos seus benefícios?

 

Vivemos em um país que nada faz pela saúde dos idosos.

 

O trabalho prestado por eles à coletividade não é visto como uma dívida social, e os idosos vivem perambulando sem o apoio que a idade exige.

 

Para uma simples consulta médica, a espera é uma eternidade: muitos dias para agendar e, depois, horas para ser atendido.

 

Os médicos antigos estão se aposentando, e os novos não aderem ao plano por conta do valor elevado das luvas.

 

Os mais experientes abandonaram o convênio, e quem sofre é o cooperado.

 

Hoje precisei recorrer à diretora técnica do laboratório conveniado ao meu plano de saúde, ao secretário executivo e ao meu filho, médico de uma clínica de imagem, além de auxiliares, para conseguir autorização para um simples exame de sangue.

 

Se não fosse a boa vontade de todos, o pedido não seria aceito.

 

A cooperativa tem hospital moderno com UTI e pronto-atendimento, ambulatórios e alguns serviços de preços altíssimos, como o centro de infusão.

 

É uma pena estar tão distante dos seus cooperados.

 

Quantos terão esse apoio?

 

Gabriel Novis Neves

14-05-2025




quarta-feira, 14 de maio de 2025

A CHATICE DOS DIAS


Certos dias, ao sentar-me em frente ao computador para escrever, sinto que tudo está um tanto ou quanto chato, especialmente após percorrer as notícias do dia.

 

A sensação que tenho é de que o mundo caminha sozinho. Os líderes parecem estar sempre viajando, apenas para gastar dinheiro.

 

Como são caras essas viagens presidenciais, geralmente para países distantes, às vezes apenas para posar para uma foto, como se fosse um troféu!

 

Quanto mais pobre o país, mais numerosa é a comitiva.

 

Isso ocorre no Poder Executivo —presidente e ministros.

 

Já os membros do Poder Legislativo —deputados e senadores —, participam de todas as reuniões possíveis pelo planeta.

 

Por sua vez, os representantes do Poder Judiciário —ministros dos Supremos Tribunais — preferem os hotéis luxuosos das capitais dos países do primeiro mundo.

 

Só com a economia gerada ao evitar essas viagens desnecessárias, resolveríamos o problema da habitação popular no Brasil.

 

A elite brasileira vive muito bem, embora cercada de perigos por todos os lados.

 

Basta ver as exigências feitas pelo novo técnico da seleção brasileira de futebol, um europeu.

 

Absurdas para um país em desenvolvimento!

 

Nem os proprietários de multinacionais possuem as regalias que ele desfruta — uma ofensa ao povo brasileiro.

 

O antigo esporte das multidões, o futebol, tornou-se privilégio de poucos.

 

A cada dia, diminui o público que comparece às arenas — os antigos estádios de futebol.

 

Com os salários dos jogadores de futebol nas alturas, morando em palacetes, com frotas de carrões inacreditavelmente caros, jatinhos e iates, o preço dos ingressos equipara-se aos de shows de estrelas internacionais.

 

E todos os estados brasileiros possuem suas arenas, muitas vezes mais de uma.

 

Grande parte dos treinadores dos principais clubes são estrangeiros, especialmente portugueses e argentinos.

 

Raros são os times que não contam com jogadores de países sul-americanos, mexicanos, americanos, europeus, asiáticos ou africanos.

 

Durante o período em que morei no Rio de Janeiro, o Brasil era um exportador de jogadores de futebol.

 

Naquela época, ganhávamos Copas do Mundo com treinadores brasileiros.

 

Hoje, até o futebol está chato.

 

Gabriel Novis Neves

13-05-2025






terça-feira, 13 de maio de 2025

ESTATÍSTICAS HUMANAS


Planejei minha vida para viver sempre acompanhado pela mulher que escolhi, quase dez anos mais nova que eu.

 

Não me preparei para viver tantos anos viúvo.

 

Pela lógica das estatísticas humanas, eu deveria ter partido antes dela, considerando a diferença de nossas idades.

 

Mas Deus decidiu de outra forma.

 

Tive que aprender a sobreviver de outro jeito e, até hoje, não encontrei um modo definitivo, embora tenha tentado.

 

Durante o tempo de casado, era sempre ela que cuidava das estatísticas do casal — e acertava.

 

Imaginem como fiquei sem ela!

 

Transformei-me em uma verdadeira barata tonta, sem saber o que fazer.

 

As estatísticas humanas ocorrem como Ele quer, e não como planejamos, fazendo da vida terrestre uma verdadeira caixinha de segredos.

 

Olhando para trás, tento compreender tudo o que vivemos juntos.

 

Como médico, por dever de ofício, fico muitas vezes impotente diante dos problemas de saúde que surgem — problemas cujas soluções não se encontram nos livros, mesmo com toda a evolução da medicina.

 

Quando chegamos à reta final, nada mais é levado tão a sério, e esperamos, com certa resignação, a nossa vez de partir deste para o outro plano espiritual.

 

A vida, afinal, é uma caixinha de segredos.

 

E eu, que tanto acreditei nas estatísticas, estou há mais de dezoito anos sem a companheira mais jovem que me acompanhava.

 

Meu avô ficou viúvo duas vezes e, então, passou a viver jogando xadrez, até seus últimos dias.

 

Um amigo poeta, que também ficou só, dizia que tinha as estrelinhas, o céu e o violão como consolo.

 

Quanto a mim, meus filhos, netos e bisnetos são o oxigênio da minha alma —são eles que me mantêm vivo.

 

Ainda assim, não posso deixar de pensar como eu seria feliz se a estatística não tivesse falhado comigo.

 

Estaríamos reunidos, curtindo as coisas boas que Ele nos concedeu.

 

Unidos, seríamos mais fortes para enfrentar os empecilhos da vida.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2025




segunda-feira, 12 de maio de 2025

PELAS MÃES

 

Sempre soube que um dia seria velho e fiz de tudo para chegar onde estou.

 

Daqui para frente, todo será lucro.

 

Assim penso sobre aqueles que já ultrapassaram os noventas anos.

 

A vitalidade física, com o passar dos anos, não é mais a mesma.

 

Por maiores que sejam os cuidados com a alimentação e os exercícios físicos, a tendência do corpo é definhar.

 

O aparelho locomotor é o mais atingido, e a bengala, o andador e a cadeira de rodas tornam-se símbolos da velhice.

 

Dos males o menor: que nos livremos dos amplos efeitos dos distúrbios das sinapses cerebrais, em especial da demência cerebral ou da temida Doença de Alzheimer.

 

As doenças cirúrgicas benignas estão muito bem resolvidas cientificamente.

 

Por mais que eu me esforce e me cuide, já desisti de sair de casa, exceto para ir ao médico.

 

Fora disso, preciso mobilizar um verdadeiro exército de auxiliares para cumprir qualquer missão.

 

Almoçar com os meus filhos, se não for em minha casa, é um verdadeiro desprazer.

 

Graças a Deus, tenho condições de administrar meu lar com ajuda das cuidadoras, escrever diariamente e acompanhar à distância, as conquistas dos meus filhos, netos e bisnetos.

 

Participo da vida deles, desde que eu esteja em casa.

 

Hoje, no ‘Dia das Mães’, minha família vai se reunir para assistir à missa de Nossa Senhora Auxiliadora, com a coroação da Santa pelas minha Marias — Isabela e Regina.

 

Depois, irão almoçar em uma churrascaria, escolhida pela minha neta.

 

Eu não tenho mais idade de compartilhar esse almoço festivo.

 

Se minha mulher, Regina, ainda estivesse conosco, talvez eu reunisse forças para estar com eles.

 

Ela, ainda jovem, foi vítima de uma doença incurável. Amava a vida, usufruía dela na sua plenitude e estava sempre disposta, independente do dia, hora e local.

 

Estaria, hoje, em idade e perfeitas condições físicas e emocionais para amar seus filhos, netos e bisnetos.

 

Deus é o nosso guia. Ele sabe das coisas e quis assim.

 

Homenageando Regina, homenageio todas as mães, neste Dia das Mães.

 

Gabriel Novis Neves

11-05-2025



domingo, 11 de maio de 2025

ISSO ME FAZ BEM


Senti a necessidade de instalar no meu iPhone os aplicativos do Facebook e do Instagram, tarefa realizada pela minha afilhada Mara.

 

Fiquei mais antenado.

 

Agora posto a minha crônica do dia e leio o noticiário diversificado no Facebook.

 

No Instagram aprecio músicas e fotos.

 

Fazendo uma limpeza na caixa de e-mails do meu notebook encontrei uma série de mensagens antigas de amigos e amigas da época da universidade, enviadas pelo Facebook. Eu não as havia lido por não saber realizar as manobras necessárias para visualizá-las.

 

A enfermeira tentou me ajudar, mas não conseguiu recuperar as mensagens antigas.

 

Mesmo sem conhecer o teor dessas mensagens, fiquei muito feliz em ser lembrado por pessoas tão queridas!

 

Na minha idade sinto uma enorme alegria ao perceber que ainda sou lembrado.

 

Prefiro que me chamem pelo whtsap. É a forma mais rápida de contato.

 

Ultimamente tenho recebido tantas manifestações de carinho, que isso só faz bem à minha alma!

 

Isso demonstra que algo de bom devo ter feito pela sociedade na minha juventude.

 

Como agradecimento, converso com a cidade por meio das minhas crônicas diárias.

 

Um grupo de amigos está disposto a escrever e imprimir a minha biografia. É um projeto ambicioso a ser realizado.

 

A biografia é um relato de fatos que passaram pelo filtro da nossa própria censura e, portanto é sempre incompleta.

 

Jamais relataria fatos íntimos da minha vida ou certos enfrentamentos políticos, sempre carregados de antiética.

 

Por isso tenho a convicção de que o conteúdo das minhas 3.757 crônicas publicada no blog, iniciando pelo currículo do meu pai, é mais do que suficiente para minha autobiografia.

 

Não tenho forças para enfrentar um projeto tão ambicioso como esse. O máximo que suporto é a minha crônica diária.

 

Pelos dezesseis anos de publicações diárias sobre o cotidiano, imagino ter material suficiente para minha autobiografia em crônicas.

 

A diferença entre as propostas é que uma seria impressa para poucos, enquanto a outra, já publicada no blog, está ao alcance de todos, sem custos, e guardada nas nuvens.

 

Gabriel Novis Neves

07-05-2025