sexta-feira, 30 de abril de 2010

INTERPRETAÇÃO DE TEXTO

Conversei dia destes com uma professora doutora em letras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ela me disse que atualmente trabalha na elaboração de material para o banco de dados do vestibular. A sua especialidade é a seleção de textos para a interpretação dos vestibulandos. Além da alta competição para um número reduzido de vagas nas universidades públicas, a interpretação de texto requer conhecimentos que, muitas vezes estão além do esperado desses jovens. Não deve ser fácil ao jovem, por exemplo, interpretar textos de certos políticos.

Leio hoje nos jornais que um conhecido político, dos mais escandalosos em seus polêmicos pronunciamentos, soltou a seguinte pérola: “Não faço barulho das minhas ações e, por isso, surgem dúvidas.” Entenderam? Nem eu. Imagine o pobre do vestibulando, interpretando esta frase! A possibilidade de uma interpretação correta é zero. Irão responder que, no mínimo o autor da frase é um gênio, tímido, ético e velho cientista que não suporta os holofotes, e sempre trabalhou em laboratórios. Como os textos enganam!

A cada dia que passa a redação e interpretação de texto tornou-se o grande vilão do vestibular atual. Em futebol todas as vezes que um técnico está super prestigiado, leia-se: será demitido amanhã. A interpretação de normalidade, também é um ótimo exercício para os cursinhos. No vestibular, como no nosso cotidiano, é uma tarefa desafiadora, embora muita gente seja especializada nessa área de julgar atitudes. Chegam até a publicar e elaborar manuais sobre o que é considerado normal.

Ah! Se os nossos vestibulandos soubessem, que “não fazer barulho” é traição política, talvez conseguissem uma vaguinha na nossa UFMT.

Gabriel Novis Neves
26/04/2010

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Praças de Cuiabá

Resolvi fazer um passeio pelas praças da minha cidade. Iniciei meu city-tur pela “pração”, chamada de Campo d’Ourique - centro geodésico da América do Sul. Era uma enorme área, onde no século XIX e início do XX, a nossa gente se divertia com as touradas e festas religiosas, sendo a do Divino a mais marcante. A criançada aproveitava o local para as peladas de futebol. No final da década de sessenta o governo escolheu este espaço para construir o prédio da Assembléia Legislativa. Ninguém disse nada, e perdemos um precioso espaço de lazer em uma cidade rica em espaços livres. Asfixiamos aquela importante região, que hoje abriga a Câmara de Vereadores.

Prossegui em direção ao Porto. Em frente à antiga cadeia pública, outro grande espaço que poderia ser um maravilhoso bosque, foi fechado para a construção do hoje inviável, por questões, principalmente, de logística, o estádio de futebol Presidente Dutra, carinhosamente chamado de Dutrinha. Próximo ao Arsenal de Guerra, imensas áreas livres faziam a alegria da meninada aos domingos, onde “apareciam” vários campos de futebol. Por incrível que pareça todos esses espaços foram cedidos para construções de prédios públicos. A Praça do Porto continua ainda aguardando a construção de um prédio oficial qualquer. No momento serve de dormitório para mendigos, menores abandonados e ponto de prostituição.

No centro da cidade, passei pela Praça Ipiranga, outrora parque de recreação dos estudantes da Escola Modelo Barão de Melgaço – escola onde minha geração estudou. A Praça Ipiranga está localizada numa área que era um dos pulmões da cidade. Hoje parece uma cozinha, com fumaça de frituras por todos os lados. Herdou o belíssimo coreto da Praça Alencastro. Nesta última, para substituir o antigo coreto, foi construída uma fonte luminosa, paixão de todos os prefeitos da época.

Ainda no centro passei pela Praça da República, com a Matriz na sua cabeceira. Não é mais um ponto de lazer dos cuiabanos. Durante o dia funciona como passagem de pessoas, e local para pequenos protestos políticos. À noite é um local deserto e perigoso para a integridade física dos cidadãos.

Continuando pelo centro vou para a Praça Alencastro - ex-praça principal de Cuiabá. O Palácio do Governo ficava ali, mas foi demolido e no seu lugar foi construído esse monstrengo que é hoje a sede do governo municipal. Sem o gasômetro, símbolo de uma época da nossa história, sem o coreto das retretas, e a presença da sociedade cuiabana, essa praça só não foi utilizada para a construção de um prédio de trinta andares, por ser área tombada pelo patrimônio histórico. A Praça Alencastro atual só serve para se contratar negócios macabros, com preços de ocasião.

As praças dos bairros, construídas nos últimos quarenta anos, hoje funcionam como lugar de comercialização de drogas e fazendas do mosquitinho da dengue. O nosso bosque, outrora centro terapêutico para tratamento da coqueluche, virou praça para a comercialização de mercadorias. Possuímos praças sem vida, apenas para homenagear personalidades. A pracinha da Avenida Lava-pés, em área nobre da cidade, foi aproveitada para a construção de um sufocante prédio, hoje cedido a AGECOPA. Nos bairros periféricos e não tão periféricos também, as pracinhas funcionam como sinal de “Cuidado” aos seus moradores.

Uma cidade que destrói o seu passado, que não respeita as suas praças, ora fazendo ocupações irracionais com prédios ou jogando-as ao abandono, não é uma cidade, mas sim um lugar onde as pessoas ficam sozinhas juntas.

Gabriel Novis Neves
24/04/2010

quarta-feira, 28 de abril de 2010

DEMOLIÇÕES

A igrejinha colonial de pau-a-pique fundada em 1723 sofreu várias reformas e melhorias ao longo da sua história. Em 1739 foi reformada e ganhou paredes de taipa socada. Em 1745 ganhou uma torre. Tornou-se Catedral em 1826, e em 1929 foi construída mais uma torre. Foi demolida e reconstruída em 1968 – e foi inaugurada em 1973. Estou me referindo à Catedral Metropolitana Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Símbolo máximo, desde a sua fundação, da fé do cuiabano. Até hoje os antigos chamam de Matriz, a nossa Catedral do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Imperioso, entretanto, dizer que de, todas as reformas sofridas, a demolição foi a que mais forte tocou no emocional de todos os cuiabanos. Com a demolição, muitos cuiabanos perderam o seu referencial de fé. Eu, por exemplo, não encontro mais a igreja em que fiz a minha primeira comunhão. Quero me lembrar das missas e sermões do Dom Aquino Corrêa e não as encontro na minha mente. O local onde Dona Zulmira Canavarros tocava o órgão, acompanhando a sua filha Maria cantar os hinos religiosos; o confessionário do Padre Sutera; as aulas de catecismo da Professora Oló; o pequeno campinho atrás da Catedral, onde muita pelada eu joguei com Augusto Mário Vieira; as rezas noturnas e as brasas do Turíbio, que pegávamos na casa da Dona Elza Nigro; as filhas de Maria e a Congregação de São Vicente de Paula – todas essas lembranças se perderam em meio à poeira da demolição.

Abro aqui um parêntese para relatar uma doidice de menino. No dia oito de maio de mil novecentos e quarenta e cinco, os sinos da Catedral foram tocados, sem autorização do Vigário Geral, por dois meninos de dez anos, para comemorar o final da segunda guerra mundial. Nome dos meninos? Carlos Eduardo Epaminondas e este escriba. O difícil não foi subir as torres, escondidos do Vigário e sim enfrentar a nuvem de morcegos que ali habitavam. Fecha parêntese.

As escadarias que os pracinhas subiram para receberem as bênçãos do Senhor Bom Jesus, antes de partirem para a Itália na luta pela paz, não existem mais. As missas de domingo pela manhã, também foram demolidas. No mesmo lugar existe uma nova igreja, sem história, produto de um passado traumático. Até alguns anos atrás, as igrejas de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário estavam praticamente em ruínas, totalmente abandonadas. Com ajuda dos fiéis, devagarinho foram restauradas - para o nosso orgulho.

Era criança e jogava futebol no que chamávamos de campo, atrás do Palácio da Instrução, com Hermann Pimenta, Traçaia, Chonézinho e outros craques, quando alguém nos avisou que a igreja do Senhor dos Passos estava pegando fogo. Saí correndo para assistir ao primeiro incêndio da minha vida. As esculturas sagradas foram salvas e removidas para o Seminário do Bom Despacho. Sobraram da catástrofe algumas paredes e a casca arquitetônica frontal. Esses escombros foram revitalizados pelos fiéis. A igreja da Boa Morte estava condenada pelos engenheiros. Há muito não eram realizados naquele local sagrado, onde os meus três filhos foram batizados, qualquer ato religioso – a igreja estava fechada. Atualmente funciona lindamente no mesmo local. A igrejinha foi salva. A igreja do Bom Despacho, Nossa Senhora Auxiliadora e São Gonçalo passaram pelo mesmo processo e continuam sem traumas do passado. No Coxipó temos um triste caso de demolição da histórica igreja de Nossa Senhora da Guia, para o surgimento no mesmo local de uma modernosa arquitetura, nada a ver com a nossa história. Uma tristeza! A igreja do Cai-Cai foi ampliada, mas continua no mesmo local. Com o crescimento da cidade surgiram novas igrejas católicas. Nesta minha viagem aos templos religiosos, não me esqueci das igrejas não católicas. Existem muitas recém construídas, sendo que algumas religiões não destruíram a sua original e construíram outras enormes e moderníssimas em outros locais. Nunca destruindo para reconstruir. E o que dizer das centenas de igrejas não católicas, que transformaram cinemas, lojas, garagens, depósitos de mercadorias em confortáveis templos?

Em tempo: quando vejo a demolição dos nossos valores de vida e a construção de equívocos que não resistirão a uma chuva de manga, fico preocupado com o que deixaremos de legado para as próximas gerações. Histórias de demolições do meio ambiente, dos nossos valores éticos e morais, das nossas relíquias culturais e históricas. Só nos falta a bomba atômica, que está sendo providenciada.

Gabriel Novis Neves
17/04/2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Médicos antigos

“Olhai por todos esses homens de branco que se propõem a salvar vidas e a prevenir doenças” – São Lucas

Fiz o meu curso de Medicina, na escola da Praia Vermelha da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, antiga capital do Brasil. O prédio da escola era de uma arquitetura belíssima. Templo da Medicina Brasileira (1918 -1978) foi demolido pelo desinteresse de uma geração. A Universidade mudou-se com a capital federal para Brasília. Muitos chamavam a nossa escola de Matriz numa alusão irônica às outras designadas de Filiais.

A festa de conclusão do meu curso de graduação foi no Theatro Municipal, há meio século. Naquela época existiam no Brasil apenas vinte e três escolas médicas, que formavam médicos. Muitos dos meus colegas naquela noite histórica estavam no palco e as suas noivas nas galerias. Após este ato solene retornaram às suas origens, aptos ao casamento e ao exercício da profissão. Devido as minhas deficiências de aprendizagem, permaneci ainda cinco anos me preparando para o retorno à Cuiabá.

Gostaria de ter sido contemporâneo e colega de Lucas, o médico evangelista. Lucas era chamado pelos seus clientes de “meu amado médico”. Como faz falta para o exercício profissional da Medicina, a confiança do cliente em seu médico, e do médico em seu paciente. Sem esta cumplicidade, acho impossível o atendimento médico de qualidade.

Esta é uma realidade que todos nós vivenciamos, e nos sentimos impotentes para revertermos essa situação tão perniciosa à sociedade, e que permite o aparecimento do técnico em doença.

Aqueles médicos de mais de meio século, estão em extinção, pelo processo natural da vida terrestre com o seu finito. A Medicina humanitária exercida por Lucas, nosso colega e padroeiro, com sua dedicação piedosa e amor ao próximo, em especial aos mais pobres e humildes, deveria permanecer sempre viva nas mentes e corações de todos os médicos. Mas, os ensinamentos de Lucas parecem que a cada dia ficam mais esquecidos. O nosso padroeiro só é lembrado nos mega eventos em outubro, quando o calendário comercial reserva um dia para os médicos comemorarem o seu dia.

Como seria bom, se a ciência médica fosse colocada ao alcance de todos e os seus médicos amados pela população!

Gabriel Novis Neves
12/03/2010

*Publicado simultaneamente no www.gnn-cultura.blogspot.com

domingo, 25 de abril de 2010

FITA

A mais famosa foi a amarela - imortalizada pelo Noel Rosa. Temos inúmeras outras fitas, igualmente conhecidas no mundo todo. Quem nunca usou no pulso, uma fita do Senhor do Bonfim? E a fita no cabelo, o laço de fita, a fita de presentes, a fita do bolo, a fita “cortada” nas inaugurações de obras? Metaforicamente, no dia-a-dia, a palavra fita é também muito usada por nós: a fita como enganação - palavra tão apreciada pelos antigos; a fita no futebol - causadora de pelo menos um cartão amarelo; a fita dos novos ricos - com a exibição espontânea dos seus bens materiais. O indivíduo que deseja ser notado é logo chamado de fiteiro, embora não use fita alguma. Temos ainda: fita adesiva, fita métrica, fita antiderrapante, fita magnética, e outras.

Quem diria que essa tira estreita, flexível e de pouca espessura, geralmente de pano ou papel, fosse de uma riqueza semântica tal que, percorre a poesia amorosa de Noel, rola pelas nossas demonstrações de fé e interpreta tão bem o fingimento e a birra.

Como é gostoso cultivar certas fitas! Tenho preferência por uma em especial – a fita da minha vida! Com produtores e diretores, ela foi-se desenvolvendo em cenários naturais. A fita rodando e o tempo passando, sem roteiros, como quem procura um caminho, que só se encontra caminhando. Nessa minha fita, o filme foi rodado ao contrário. Sempre que revejo esta fita percebo que os erros – qualificados como tal na época – não foram mais do que preciosos aprendizados que transformaram minha vida para melhor. A fita da minha vida é um amuleto que carrego dentro de mim, pois estamos sempre cometendo erros – e é só esperar para vê-los se transformarem em divinas lições.

Em anatomia possuímos fitas naturais em nosso corpo, assim como fitas produzidas pelos caprichos da Natureza: fitas do sistema nervoso, fitas musculares, fitas viscerais, entre outras. Já me defrontei com os dois tipos de fitas. Mas a retirada de uma fita produzida pelo capricho da Natureza foi a grande, insubstituível e inesquecível emoção da minha vida. Essa é a minha fita, cuja cor e colocação nem os poetas imaginam.

A fita faz parte da nossa vida, muito mais do que supomos e imaginamos. Ela traduz emoções - o combustível da nossa alma. Contar tempo sem fita é possível, viver sem ter uma história de fita, impossível.

Gabriel Novis Neves
17/04/2010

Cheguei

Não sou o Zé Bonitinho, mas atenção meninas! Sou o Rafael Bonitão. Para quem não me conhece, sou irmão dessa coisinha linda chamada Maria Eduarda, filho da bonitona Juliana e do sortudo Tico. Tenho um patrimônio familiar que não é para qualquer um. Nos tempos de limitação da natalidade, nascer cercado do carinho de bisavô, bisavós, avôs, avós, dezenas de tios e tias, centenas de primos e primas, é ou não um privilégio?

Estou chegando, e já vou fazer uma fofoca. Mamãe, super ocupada, no momento nem pensava em aumentar a família. Papai que é totalmente dominado por ela - ele não é bobo nem nada - complacentemente calava-se. Devo a Maria Eduarda, este momento maravilhoso e cheio de felicidade que vivo. Graças aos seus insistentes pedidos, existo. Até promessas a São Benedito a danadinha fez! Mas, ela pedia e nada.

Até que em uma tarde chuvosa mamãe lhe chama, e para sua surpresa diz emocionada, que vou chegar. A menininha quase desmaiou de alegria! Não conteve as lágrimas da emoção. Ela queria um irmãozinho, para não perder o trono de princesinha da casa. Também, se viesse uma irmãzinha, tudo bem - seria a sua cúmplice. O que não queria, era ser descendente único. Papai e mamãe trabalham o dia todo e a minha irmãzinha ficava com adultos. Queria brincar e conversar, com alguém da sua idade.

Certo dia, na tranqüilidade da minha casa uterina, eu notei que estava sendo fotografado - e o pior! Pelado! Pura invasão de privacidade. Mamãe e papai radiantes não resistem: pelo celular avisam minha irmãzinha que viram o meu sexo. A assanhadinha logo pergunta: é... ? Mamãe e papai nem esperam ela concluir a pergunta e respondem ao mesmo tempo gritando com alegria – você acertou! Era a certeza de que teria um irmãozinho como companheiro. Logo que retornaram para casa fizeram uma reunião para escolher o meu nome. Mamãe pensou no nome de um algum anjo. Maria Eduarda adorou a idéia, pois adora ouvir historinhas sobre anjos! O consenso foi RAFAEL. E aqui estou eu, além de bonito e charmoso, terei o nome de um anjo.

Minha irmãzinha participou de todos os momentos que antecederam a minha chegada. Conversava comigo todos os dias. Às vezes estava dormindo e ela me chamava para colocar em dia o papo. Passava creme na barriga da mamãe, para evitar estrias. Um dia desses dei-lhe um tremendo chute, na hora da esfregação do creme no abdome da mamãe. Fiquei quieto, esperando talvez uma bronca, mas sabe o que ela disse? A-D-O-R-E-I! Com a mamãe ajudou na decoração do meu quarto. Detalhista, não se esqueceu de colocar na cadeira, a camisa do Flamengo, meu time na terra. Ai, ai, ai! Já vou chegar criando confusão! Tem gente torcendo para que eu seja Botafogo. Vamos ver - depois eu decido.

Minha irmãzinha está nervosa aguardando a minha chegada em casa. Diz prá todo mundo que quer ser a primeira a me beijar e abraçar. Está tão feliz com a minha chegada, que chegou a comentar que quando crescer quer completar a lista de anjos, com os seus filhos.

A família toda irá, com certeza, para o casarão da Chapada, comemorar a minha chegada como adultos comemoram: comendo, bebendo e dançando.

Gabriel Novis Neves
Cuiabá, abril, 2010

sábado, 24 de abril de 2010

MORRER EM CUIABÁ

Há muito tempo não ouço um ditado popular, atribuído a Estevão de Mendonça: “Quem morre em Cuiabá morre duas vezes. Morre de morte morrida e morte pelo esquecimento”. Vale revitalizar – palavra da moda - esta sábia afirmação.

Todas às vezes que um humorista, cartunista, jornalista, escritor, poeta, não cuiabanos, morre em um grande centro, passamos meses recordando e lamentando a falta que fará o talentoso profissional. Nada mais justo que chorar a perda irrecuperável de um gênio. Cuiabá possui artistas, cantores, compositores, escritores, poetas, jornalistas, humoristas, cartunistas, desenhistas, professores, pesquisadores dignos dos melhores nacionais. Mas..., trabalham e moram em Cuiabá. Precisam de um avalista de fora para ser reconhecidos aqui.

Lembro-me da história dos Trapalhões na década de setenta. Eram quatro palhaços que todos os domingos às 19 horas, faziam o Brasil sorrir - Didi, Dedé, Zacarias e Mussum. A elite gostava da palhaçada inocente do quarteto, mas era politicamente incorreto elogiá-los. Um dia, Carlos Drummond de Andrade publicou no Jornal do Brasil um artigo elogiando- os e avisou para que não o procurassem durante o Programa dos Trapalhões. Pronto! Foi o que bastou para o quarteto ser o assunto da segunda-feira: eram as piadas do Didi, a escada do Dedé, a risada do Zacarias e a malandragem do Mussum. Até então a dita elite intelectualizada não se atrevia a comentar o programa – mas assistia.

Leio num site - que ninguém lê – em sua página principal, uma frase de fazer inveja ao Otelo Caçador, do Jornal O Globo. O Botafogo conquistou o campeonato carioca e o chargista tupiniquim colocou uma foto de um velho e sofrido brasileiro, segurando a faixa: “Botafogo Campeão Carioca 2010”! A legenda dizia: “Torcida Jovem do Botafogo, comemorando o título.” Nem o flamenguista Otelo faria gozação melhor. O autor da façanha que me impressionou pela inteligência e sutileza do deboche, mora e trabalha em Cuiabá. Vive no anonimato, patrimônio cultural de poucos, combatido por muitos e consciente que representa a vanguarda na nossa cidade, quebrando paradigmas e enriquecendo o nosso falar com o seu criativo vocabulário.

Parabéns Gandhi do Porto! Torço para que você possa, um dia, invalidar a profecia de Estevão de Mendonça.

Gabriel Novis Neves
19/04/2010