terça-feira, 25 de novembro de 2025

CABIDEIROS


Atrás da porta do quarto havia sempre um cabide improvisado, que guardava chapéus, casacos e até lembranças.

 

Cada peça pendurada parecia contar a rotina silenciosa de quem chegava cansado e deixava ali um pouco de si.

 

Hoje não há mais espaço para esses cabides improvisados.

 

Os cabideiros modernos são uma mão na roda para pendurar a roupa recém-usada, o boné, ou o guarda-chuva.

 

O da minha casa está no closet do meu dormitório.

 

Está sempre ocupado com a roupa que acabei de usar, bonés, gorros, cinturões de uso diário.

 

Na casa do meu avô o cabideiro ficava no hall de entrada, na dos meus pais no dormitório.

 

É uma peça simples e vertical de madeira ou metálica que serve para organizar e guardar roupas, chapéus, bolsas e guarda-chuvas —um móvel prático que, ao mesmo tempo, decora e dá estilo ao ambiente.

 

Há algo de nostálgico nos cabideiros e nas histórias que eles guardam, especialmente quando ficam nas partes íntimas das casas.

 

O da minha casa é cúmplice de segredos entre mim e ele.

 

Chego a conversar com ele nos momentos de extrema solidão.

 

É um amigo de confiança, porque não fala.

 

Se falasse, muitos segredos seriam revelados.

 

Como é curioso perceber que certas roupas lembram momentos e lugares vividos com emoção!

 

Camisas, calças, ternos, gravatas — cada peça ligada a uma lembrança, a um instante.

 

Abro as portas do guarda-roupa e um filme antigo começa a passar na minha memória.

 

Isso acontece com fatos ocorridos há oitenta anos ou um pouco mais.

 

Minha mulher subiu para o andar de cima há dezenove anos, e ainda hoje sinto emoção ao abrir o seu guarda-roupa.

 

Alguns objetos de uso frequente parecem conservar a presença dos donos — e isso é uma realidade para muitos.

 

Minha casa é um museu de lembranças.

 

Cada cantinho provoca em mim doces recordações e, ao mesmo tempo, uma saudade que dói.

 

Gabriel Novis Neves

12-10-2025




segunda-feira, 24 de novembro de 2025

GUARDANAPO ESCRITO COM BATOM


No café da esquina um guardanapo esquecido trazia um nome rabiscado a lápis.

 

Um amor interrompido, uma despedida silenciosa, um bilhete que o tempo não levou.

 

Tenho reparado que, nas minhas últimas crônicas, ando muito romântico.

 

Será que a idade avançada me faz lembrar da juventude, quando tudo estava ligado ao amor — muitas vezes desejado, mas nem sempre correspondido?

 

Quando fui garçom no bar do meu pai, quantos guardanapos esquecidos com um nome ou uma frase rabiscada recolhi!

 

Nunca imaginei que pudessem esconder um amor interrompido ou uma despedida silenciosa.

 

Geralmente traziam o nome de uma mulher.

 

Pensava tratar-se de uma funcionária, ou talvez do título de uma marchinha de carnaval.

 

Muitos compositores do meu tempo se inspiravam nas mesas do bar e, estabanados, saíam deixando o guardanapo rabiscado.

 

Hoje guardaria esses guardanapos — verdadeiras relíquias — em uma gaveta do meu quarto.

 

Por quantos anos a partitura do chorinho ‘Carinhoso’ do Pixinguinha ficou sem letra?

 

Trinta anos!

 

Até que um dia o letrista João de Barro escreveu os versos, e o mestre os aceitou.

 

Desde então, quase toda a festa termina com todos cantando o imortal Carinhoso.

 

Noel Rosa também escreveu lindas canções em guardanapos de mesas de bar.

 

E numa boate da zona sul do Rio de Janeiro, Dolores Duran escreveu, com batom em guardanapo, a letra de uma das músicas mais belas, musicada por Tom Jobim.

 

Na sorveteria do bar do meu pai os guardanapos esquecidos traziam mensagens escritas com batom.

 

À noite era o ponto preferido das mulheres da chamada ‘vida fácil’, de risadas altas e dentes de ouro, que ali fumavam e tomavam a sua cerveja gelada.

 

Ah! se eu tivesse guardado aqueles guardanapos!

 

Quantos segredos teria desvendado com a ajuda do tempo.

 

Naquele tempo não era costume as pessoas famosas darem autógrafos.

 

Hoje, com a confusão entre conhecidos e celebridades, é comum encontrar nas mesas de cafés, bares e sorveterias, um bilhete rascunhado num simples guardanapo de papel.

 

Como o jovem pensa diferente do velho!

 

Agradeço à idade que tenho por me permitir viver este eterno romantismo.

 

Gabriel Novis Neves

09-10-2025






domingo, 23 de novembro de 2025

A XÍCARA QUE FICOU NA PIA


Após o café da manhã uma xícara esquecida na pia reflete a presença de quem já saiu.

 

Como os objetos guardam conversas que o tempo não leva!

 

Às vezes lembro de certas conversas que marcaram minha vida.

 

Uma delas, com o historiador Rubens de Mendonça, permanece intacta dentro de mim — não pelo assunto em si, mas pelo gesto humano de trocar ideias.

 

O tema era a guerra do Paraguai, mas o que ficou guardado foi a convivência, o valor da palavra dita com calma, como se o tempo ali também não tivesse pressa.

 

Essas conversas assim como os objetos, resistem silenciosamente.

 

A medalha que carrego no cordão do pescoço — companheira de tantas décadas — certamente ouviu confidências que nem eu lembraria de repetir.

 

Quantas conversas ela preservou, e que o tempo não levou?

 

Viúvo, sinto que é minha obrigação zelar por essas conversas que só eu testemunhei.

 

Não tenho mais com quem dividi-las, e talvez por isso mesmo elas se tornem mais valiosas, mais densas, mais urgentes.

 

Fico imaginando se a xícara esquecida na pia se sente abandonada ou se sabe que logo será resgatada, voltando ao convívio da família. Talvez compreenda que seu papel é justamente esse: testemunhar o dia começando, acolher o silêncio de quem partiu apressado, e guardar mais uma migalha de história.

 

Quantas divagações fazemos sobre esses objetos que guardam conversas, enquanto nós, humanos, tantas vezes as desperdiçamos? Somos, como já ouvi dizer, grandes poluidores das próprias palavras.

 

Segredo entre quatro paredes é quase lenda — e ainda acrescentam que quem conta um conto, aumenta um ponto.

 

A xícara esquecida, ao contrário nada aumenta, nada inventa.

 

Reflete apenas, com honestidade simples, a ausência de quem já saiu: o gesto apressado a última golada de café, a pressa de viver que deixa rastros na cozinha.

 

Talvez por isso ela me comova.

 

No fundo, a xícara na pia é mais do que louça esquecida.

 

É guardiã das conversas que o tempo não leva — essas que sobrevivem no silêncio das coisas e no silêncio profundo de quem as observa.

 

Gabriel Novis Neves

19-11-2025




sábado, 22 de novembro de 2025

FERRO DE PASSAR


Escuto o som do ferro deslizando sobre o tecido e me lembro das manhãs da infância.

 

Entre o vapor e o cheiro de roupa limpa, surge uma reflexão sobre o cuidado e o tempo.

 

A velhice revela o quanto cuidamos da saúde — e, ao mesmo tempo, o quanto nos tornamos prisioneiros dela.

 

Aos noventa anos, lúcido e com boa saúde, levo a vida de um encarcerado doméstico: só saio de casa para ir ao médico, de carro, acompanhado de cuidadora e na cadeira de rodas.

 

Na vida que escolhi, tenho tempo de sobra para escrever e recordar os fatos da infância.

 

Como a vida mudou nesses últimos anos!

 

Aqui em casa ainda usamos o velho e pesado ferro de passar, que traz de volta antigas memórias — os sons do ferro roçando o tecido, o vapor subindo, o cheiro da roupa limpa.

 

Quantas boas lembranças a longevidade saudável nos oferece!

 

Eu ficava ali, no chão, fascinado com o trabalho das passadeiras e atento às suas conversas.

 

Os anos passaram, e de vez em quando me recordo das conversas daquelas tardes abafadas.

 

Quanta saudade sinto daquele tempo e das pessoas que já se foram!

 

O ferro de passar é uma desculpa para revisitar um passado que não volta mais.

 

Como as coisas simples, com o passar dos anos se transformam em relíquias de beleza e ainda nos emocionam.

 

Não gosto dos domingos, quando o passado insiste em se misturar ao presente, como um filme que não pedimos para rever.

 

Só quem cuida da própria saúde tem a chance de viver essas lembranças da juventude.

 

Procuro pelos antigos colegas da escola, na esperança de dividir recordações — não reencontros.

 

Até minha esposa, bem mais nova que eu, partiu há tempos.

 

Como eu gostaria de conversar com ela sobre a nossa primeira casinha de oitenta metros quadrados, onde o ferro de passar trabalhava na copa, deslizando sobre o tecido com seu ruído ritmado!

 

Tudo passou como uma noite curta de verão.

 

Gabriel Novis Neves

16-11-2025




sexta-feira, 21 de novembro de 2025

O GATO DA IGREJA


Vive entre bancos e velas, indiferente às preces, mas fiel ao silêncio dos fiéis. 

 

Ninguém sabe de onde veio, mas todos sentem que ele pertence àquele lugar. 

 

O gato apareceu um dia na igreja e, sem pedir licença, adotou a casa. 

 

Nos primeiros dias, o sacristão tentava expulsá-lo para a rua — embora o animal não incomodasse ninguém. 

 

Mas ele sempre voltava, silencioso e determinado. 

 

Ninguém sabia seu sexo, e todos o chamam de ‘o gato’. 

 

Magro e desconfiado, acabou despertando a compaixão do sacristão, que passou a dividir com ele a marmita. 

 

Senhoras caridosas começaram a trazer pequenas garrafas de leite, que despejavam com cuidado num prato esmaltado, esperando que o bichano se aproximasse. 

 

Na reza das sete da noite, sempre sobrava um pedaço da carne da sopa. 

 

O gato foi conquistando a simpatia dos fiéis e, pouco a pouco, foi engordando — talvez mais do que o necessário. 

 

Até que, certa tarde, na missa das cinco, o sacristão, ao abrir as portas, deparou-se com ‘o gato’ deitado junto à pia batismal...  

 

Dava de mamar a oito gatinhos famintos. Solidário, o sacristão levou a recém-descoberta mãe e sua ninhada para o quintal dos fundos da igreja. 

 

Quando os filhotes cresceram, contou o ocorrido aos fiéis, e todos se prontificaram a adotá-los, deixando a mãe no lugar que era seu — a igreja. 

 

Desde então, ela permanece ali, serena, entre bancos e velas, sem incomodar ninguém. 

 

O sacristão, com a ajuda dos devotos, garante-lhe alimento e abrigo. 

 

A igreja foi reformada e as portas passaram a abrir-se apenas nos horários das missas. 

 

Mas ficou a pergunta: como um outro gato soube da presença da fêmea na igreja? 

 

Como a encontrou? 

 

Mistério que ninguém jamais conseguiu explicar. 

 

Talvez fosse apenas uma das discretas formas com que Deus demonstra que a vida — em todas as suas criaturas — é um ato divino. 

 

E assim, a gata continua na igreja, entre bancos e velas, fiel ao silêncio dos fiéis e à saudade da sua filharada cujo destino ignora.

 

 A natureza, afinal, é simples e sábia na arte de perpetuar a espécie. 

 

Gabriel Novis Neves 

11-11-2025




quinta-feira, 20 de novembro de 2025

LUZES QUE SE APAGAVAM


Havia um instante mágico, quase sagrado, quando as luzes do cinema começavam a se apagar.

 

O burburinho cessava, os cochichos se calavam e, no escuro, o coração batia mais forte.

 

Era o sinal de que algo ia começar — uma aventura, um romance e um mundo inteiro que cabia naquela tela iluminada.

 

Lembro-me bem: o cheiro do carpete, o estalar das poltronas de madeira, o brilho das lanterninhas guiando os retardatários até seus lugares.

 

As luzes se apagavam devagar, como se o tempo também diminuísse o passo.

 

E, de repente, o silêncio.

 

Um silêncio cheio de expectativa, de sonhos que vinham de Hollywood e pousavam, por alguns minutos, em Cuiabá.

 

As crianças se ajeitavam nas poltronas, os casais se davam as mãos e os vendedores de balas faziam sua última corrida pelos corredores.

 

A projeção começava, e todos éramos transportados para outro mundo.

 

O Cine Teatro, o Bandeirantes, o Tropical, o São Luiz — cada sala tinha seu cheiro, sua alma e sua plateia fiel.

 

As luzes que se apagavam não apenas anunciavam o início do filme, mas o começo de uma emoção compartilhada.

 

Hoje, nos shoppings modernos, o escuro continua o mesmo, mas o encanto é outro.

 

Falta o ruído das bobinas, o chiado do projetor e o murmúrio de espanto na hora do beijo final.

 

Fecho os olhos e ainda vejo as luzes se apagando devagar, como se anunciassem o sonho que estava por vir.

 

Era o momento em que a realidade se recolhia — e o menino que eu fui sentado na poltrona do cinema, acreditava que tudo era possível.

 

Gabriel Novis Neves

Cuiabá, 11 de novembro de 2025



Cine Parisien






Luiz Montanha projetou o filme "A Noiva", na inauguração do Cine Teatro Cuiabá, na década de 1940.

FOTOGRAFIA
 DO ACERVO DO HISTORIADOR FRANCISCO DAS CHAGAS ROCHA









quarta-feira, 19 de novembro de 2025

O RELOJOEIRO DE MÃOS TRÊMULAS


Consertava o tempo alheio, mas já não dominava o próprio.

 

Cada relógio devolvido era um ato de fé — um segundo a mais roubado da eternidade.

 

O tempo parece castigar quem vive sempre desafiando a finitude.

 

É o caso do relojoeiro de mãos firmes e vista aguçada que resolveu enfrentar o próprio tempo.

 

Mesmo aposentado pela idade, continua em sua oficina tentando consertar o tempo dos outros.

 

A sua idade já não lhe permite tanto, e isso é considerado normal.

 

Cada relógio revivido é mais um segundo arrancado da eternidade.

 

Mas as mãos trêmulas — que ele insiste serem de família — dificultam o percurso pelas engrenagens outrora tão conhecidas!

 

O relojoeiro precisa de mãos firmes para exercer com esmero o seu ofício, além de uma visão privilegiada para apertar minúsculos parafusos.

 

O relógio mudo que chega às suas mãos faz o velho renascer ao ouvir novamente o seu tic-tac.

 

Em todas as profissões temos limites, e chega a hora de parar — é melhor não insistir.

 

O obstetra de idade avançada pode não conseguir ouvir o feto, mesmo com o sonar.

 

Pior ainda quando se confunde ante o canal de parto, complicando tudo mais

 

Eu parei de aparar crianças, por causa dos meus joelhos, aos oitenta anos — lúcido, com boa visão e mãos seguras.

 

Meu avô, mesmo sem audição, exerceu a sua especialidade de otorrinolaringologista até o final da vida.

 

Ele tinha um pacto com Deus ao atender seus clientes.

 

Mas o relojoeiro de mãos trêmulas já não dominava o seu tempo, e mesmo assim insistia em consertar o tempo alheio — verdadeiro ato de fé.

 

Como são bonitos esses atos de perseverança.

 

A minha mãe, longeva, foi adaptando suas atividades profissionais até os últimos anos de sua existência.

 

Eu segui o seu exemplo e descobri, neste meu crepúsculo, a literatura que me oxigena.

 

Com boa memória e todo o tempo disponível — escrevo sem parar.

 

Gabriel Novis Neves

12-11-2025