terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Crepúsculo, chuva e raio

O meu filho telefona:

- Pai. Sai na janela da sala de parto e veja que coisa bonita.

Eram dezoito horas e cinquenta minutos de um final de dia. Debruço-me no parapeito da janela e contemplo uma maravilha da natureza.

Na linha do horizonte o sol amarelado ia se escondendo. Durante alguns minutos encaro o astro rei. Em meio à suave beleza das cores do crepúsculo, ele se preparava para outros afazeres.

Este seria um espetáculo comum, não fosse o céu se vestindo também de chumbo. Vejo raios riscando as nuvens carregadas. Trovões ensurdecedores anunciavam a chuva torrencial. E, em poucos minutos, ela se precipitou. Desceu com toda a sua fúria, trazendo junto pequenos pedaços de granizo.

Escutei a seguir uma música de som inusitado. O ruído dos trovões - semelhante a uma batida de bumbo - acompanhava o ritmo cadenciado da batida da chuva e dos granizos no asfalto e nos telhados. O assobio do vento e o farfalhar das folhas das árvores completavam a harmoniosa sinfonia. Os raios contribuíam com a sua luminosidade para este fantástico show conduzido pela natureza.

Curioso é que toda essa maravilhosa manifestação aconteceu logo após o término do jogo em que o Vovô das Laranjeiras conquistou o título de Campeão Brasileiro de Futebol. Nosso Senhor Jesus Cristo sabe que o Fluminense não possui torcida e resolveu improvisar uma comemoração que despertasse a atenção de todos.

Mas, como nada é perfeito, junto com o show que presenciamos no céu vieram também as enchentes, inundações, queda de muros e casas, abertura de novos buracos; muitos bairros ficaram sem energia elétrica, produzindo dessa forma uma festa que não aconteceu.

Passada a chuva e acalmada a natureza, olho pela janela da sala de parto. Vejo um céu sem uma estrelinha sequer, talvez em sinal de pesar pela derrocada do time da estrela solitária. O silêncio toma conta da noite. O céu está deserto, inclusive das suas aves turbinosas, que fazem os procedimentos de pouso e decolagem passando pela minha casa.

Final nostálgico para a grande maioria dos fanáticos torcedores brasileiros, especialmente para os torcedores das maiores torcidas. Flamengo e Corinthians fecharam a temporada com um frustrante empate.

E a chuva parou. Amanhã será outro dia, com novas fantasias. E o Fluminense é Campeão Brasileiro de Futebol!


Gabriel Novis Neves (7.5+152)

05-12-2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

PERDI

Tenho uma curiosidade acerca do percentual de receitas médicas que são perdidas pelos pacientes, e as origens dessas perdas. Acho que nunca foi realizada uma pesquisa nesse sentido.

Quem trabalha na área médica sabe do número elevado de pessoas que, após uma consulta, perdem a receita prescrita pelo médico. Muitas vezes os pacientes também perdem exames laboratoriais e cartão de consulta.

Depois telefonam aflitos para o médico e dizem: “doutor, perdi a receita!” Mas chega a ser insignificante o número de pacientes que assumem este fato. A maioria se cala. Mas, o médico descobre na consulta seguinte.

Por isso tenho esta curiosidade. Gostaria imensamente de saber por que certas pessoas simplesmente perdem por aí, um documento tão importante e se calam. Palpites, eu tenho aos montes. Mas dados científicos, nenhum.

O brasileiro é culturalmente um supersticioso. Dentre os inúmeros palpites que tenho, a superstição está entre os primeiros da minha lista. “Perdi a receita? Então não era para tomar aquele remédio.”

Na minha caminhada de meio século pela área médica, escutei de tudo um pouco. O mais clássico dos depoimentos, sem sombra de dúvidas, é este: “doutor, eu perdi a receita, mas a minha vizinha tinha os mesmos sintomas que eu. Indicou-me este medicamento. Senti-me bem com ele. Só gostaria de saber se continuo ou não.” É complicado!

Vale aqui, portanto, um alerta aos que têm por hábito perderem suas receitas médicas, principalmente quando for o caso de antibióticos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) estabeleceu novas regras para a venda de antibióticos. Estes medicamentos agora somente serão vendidos mediante receita médica.

“Doutor, perdi a receita!” Esta frase, de agora em diante, tem que ficar entre as histórias do passado.


Gabriel Novis Neves (7.5+146)

29-11-2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Pássaros ornamentais

A cor azul sempre exerceu em mim certa fascinação. É uma cor que afeta muito o meu emocional. Menino do interior, fui criado praticamente ao ar livre - numa época em que o céu era de um azul límpido e puro. Era tão azul o céu da minha infância que até hoje sinto o seu efeito tranquilizador e relaxante!

Em ecologia o nosso Estado é “tri-ambiente”. Temos o pantanal, o cerrado e a floresta. Cada uma dessas regiões possui pássaros específicos.

Nosso pantanal tem 423 espécies de aves que só habitam esse ecossistema. Na Amazônia são 260 aves exclusivas e no cerrado 29 aves que não sobreviveriam em outro habitat.

Como são lindas as nossas aves! E as aves azuis? Sou obrigado a declarar que até na fauna a cor azul me atrai. Além de azuis, algumas aves ainda possuem elegância e graciosidade.

A garça azul, por exemplo. Ave de pequeno porte, medindo em torno de 50 cm de comprimento. Sua plumagem é azul acinzentada, bico forte e pontiagudo de cor azulada. Do alto dos seus 50 cm, é de uma elegância ímpar.

Outro exemplo é o azulão macho. Plumagem totalmente azul-escura! Esta ave é interessante, pois não vive em bando e se reproduz entre setembro e fevereiro.

Temos também o papagaio azul, tão ou mais lindo que o falador verde. E a arara azul? Além da sua peculiar beleza, é a maior arara do mundo. 70% delas vivem no Pantanal.

“Brasil, o país das aves!” Assim somos denominados. Somos tão ricos em espécie e quantidade de aves quanto pobres em preservar este patrimônio. As nossas aves são constantemente contrabandeadas, sem que se veja por parte do governo nenhuma ação eficaz para evitar este abuso contra a Natureza. Mas este assunto é para outra ocasião.

Hoje quero falar das aves e da cor azul.

A academia de ginástica que costumo frequentar é repleta de velhinhos. Nós - faço parte dos velhinhos, claro – achamos melhor acreditar em tudo. Inclusive que leves exercícios físicos de madrugada prolongam a vida. Pois bem. Outro dia um desses velhinhos me chamou a atenção para a linda garça azul presente na academia. Ele estava impressionado com a beleza dela. Olhei ao redor e nada vi. Ou melhor, vi sim. E concordei com meu colega de idade: era a mais linda garça azul que já tinha visto. Dentro da sua impecável malha azul ela desfilava indiferente ao próprio encanto e ao encanto que despertava. Desfilava para nós – pobres mortais - toda a sua elegância, beleza e leveza. Não percebe a alegria que causa a todos, com a sua presença marcante.

Ainda bem que nesses assuntos o governo não se mete, pois, se assim fosse, esta nossa garça azul estaria ameaçada de extinção.


Gabriel Novis Neves (7.5+112)

08-11-2010

sábado, 4 de dezembro de 2010

COMUNICAÇÃO

“Quem não se comunica se trumbica.” Um dos famosos bordões que o nosso saudoso Chacrinha, em tempos não muito remotos, pronunciava todas as tardes de sábado em seu programa de televisão.

Esta expressão, bastante popular, para a geração das minhas netas ficaria assim: “Quem não twitta se trumbica.”

A frase do Velho Guerreiro, imortalizada pelas Escolas de Comunicação do Brasil, era dita em meio a uma profusão de cores, sons, com a presença das chacretes dançando, os jurados engraçadíssimos, os calouros divertidos e a animação contagiante do auditório. Sem falar da figura marcante do apresentador, sempre rodando pelo palco, vestido com espalhafatosas fantasias e a sua inseparável buzina na mão. Este era o cenário do programa. E neste cenário, Chacrinha desfiava as suas frases.

Na comunicação oral é fácil transmitir emoção. Utilizamos o tom da voz, a expressão facial e os trejeitos das mãos e corpo. Mas, e na comunicação escrita? Fica mais complicado arrancar de nós certas emoções.

Recebi um email postado à noite. Era um PPS. As palavras escritas, emolduradas por belíssimas imagens e música suave, me passaram muita emoção. Quando é assim o nosso entendimento fica facilitado e a compreensão é instantânea.

Existem também certas mensagens escritas que dispensam esses floreios para passar a emoção de quem escreve. Vejamos um exemplo. Uma moradora da favela do Morro do Alemão deixou anonimamente, dentro de uma pequena caixa de fósforos, uma folha de caderno toda dobradinha com a seguinte mensagem:

“Liberdade, liberdade,

Abre as asas sobre nós

E que a voz da igualdade

Seja sempre nossa voz!”

A inspiração da mensagem, em forma de poesia, foi clonada da Escola de Samba da Região - a Imperatriz Leopoldinense, com a letra vitoriosa do Carnaval de 1989. Pronto! O cenário natural estava formado. E a emoção tomou conta de todos os que leram aquela mensagem.

Uma pequena explicação: geograficamente o complexo de favelas retomadas dos bandidos, tem como referência a Igreja da Penha que fica na zona da Imperial Estrada de Ferro Leopoldina. Os católicos de todos os bairros do Rio prestam a sua homenagem à Santa Milagrosa da Penha, num ato de fé, subindo os degraus da igreja de joelhos em reconhecimento a um milagre recebido.

Preciso escrever mais sobre a importância da comunicação com o tempero da emoção?

Todo o Brasil se rendeu à mensagem de esperança e fé da população daquela região. Liberdade e igualdade – agora felizmente reconquistadas.


Gabriel Novis Neves (7.5+146)

29-11-2010

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Chuvas da primavera

Bastaram alguns chuviscos para a natureza agradecer e nos presentear com toda a sua riqueza. Os campos estão novamente verdes - nem parecendo com aqueles destruídos pelas queimadas.

As flores surgindo em seus aspectos multicoloridos. Os cajueiros, de tão carregados da nossa fruta símbolo, ficam arqueados, e alguns chegam a rastejar seus galhos com o peso da sua produção. E as mangas, amarelinhas, enfeitando o verde das folhas e dormindo no chão dos mangueirais da nossa cidade? Imperdível!

Como o nosso meio ambiente é grato quando não maltratado! Pintor nenhum do mundo seria capaz de produzir o mais belo dos quadros, comparado aos pintados pela generosidade da mãe natureza. Até os pássaros, ao amanhecer, em verdadeiras nuvens, deixam seus esconderijos para louvar a natureza.

Como é bela a primavera! Vida nova que se renova a cada ano. A cidade está alegre com a beleza que nos oferece a farra dos pássaros e o visual incomparável com o renascimento de tudo que foi queimado pelos contumazes e conhecidos predadores.

E como será que os moradores da cidade sentem a primavera? Não sentem. Continuam no mais cruel inverno - se fosse possível falar em inverno na calorenta Cuiabá.

No inverno as pessoas ficam reféns nos seus abrigos e muito bem protegidos das intempéries desta estação do ano. O homem desta cidade está na caverna, escondendo os seus medos, enquanto a natureza brinca com a beleza para elevar nossa autoestima.

Por ironia, será justamente neste clima de primavera que iremos decidir se continuaremos nas cavernas protetoras das atrocidades do poder ou participaremos da companhia do mundo alegre da primavera, sem ódios, solidários e igualitários.

O mundo que sonhamos não é o do poder, mas o da primavera.


Gabriel Novis Neves (7.5+101)

25-10-2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

OTIMISMO

Leio nos jornais sobre o otimismo das autoridades fazendárias estaduais com relação às nossas contas públicas. Falou-se até que Mato Grosso é um exemplo para outras unidades da federação, que hoje encontram dificuldades no fechamento de suas contas.

O nosso Estado, além de fechar as contas sem nenhum artifício contábil ou jurídico - de acordo com a Lei da Responsabilidade Fiscal -, ainda deixa saldo em caixa! Fantástico!

Os integrantes da equipe econômica da presidente Dilma, já deram os sinais de alerta. Farão cortes de 20 bilhões de reais no orçamento federal e de 50 bilhões para o BNDES. O atual e futuro ministro da Fazenda Mantega disse: “Gastamos demais nos últimos dois anos, pois a crise exigiu. Crescendo a 7% ao ano, é hora de abandonar o estímulo fiscal e os subsídios. A ordem é mão pesada.”

Mesmo com o corte dos repasses do governo federal, o parcelamento de débitos de ICMS com desconto de multas e juros aos contribuintes, os cortes no orçamento do Estado e a suspensão do pagamento de dívidas com os prestadores de serviços executados, por aqui vai tudo azul!

A despesa com pessoal é paga religiosamente em dia. Seu não cumprimento, além de ferir uma lei Federal, poderá trazer sérios aborrecimentos ao Executivo.

Para melhorar ainda mais a nossa auto-estima, o grande presente de Papai Noel! O Estado atualmente tem plena capacidade de endividamento. Estamos liberados para chegar aos bancos e captar recursos para as obras da Copa do Mundo. Maravilha!

A previsão oficial de recursos para o ano que vem é das melhores. Além do aumento previsto da nossa arrecadação, a Copa trará muitos investimentos privados, que vão alavancar ainda mais a nossa economia.

Com notícias tão otimistas, fico rezando aos meus santos protetores para esta Copa do Mundo chegar o mais rápido possível a Cuiabá.

Estava sem perspectiva com relação ao futuro da minha cidade, que beirando os 300 anos, acumulou tantos problemas que deram origem ao caos atual.

O Campeonato Mundial de Futebol, que terá uma parte realizada aqui, é o grande milagre anunciado. Nossa capital será transformada em um imenso canteiro de obras, remédio único para evitar o rebaixamento da ex- Cidade Verde em mero acampamento.

A palavra de ordem lançada é: “tudo depois da Copa.”

Só de pensar que o meu Estado tem dinheiro guardado no cofre e que a saúde, educação, segurança pública, transporte e emprego, estão a cada dia pior, me dá um desânimo!

Sou péssimo em Matemática e Finanças. Não entendo nada mesmo. Raciocínio sempre de maneira doméstica. Jamais seria capaz de deixar meu filho doente em casa, tendo dinheiro no cofre para pagar o seu tratamento.

Não irei compreender jamais como, com tanto dinheiro em caixa, o governo do Estado só irá investir em obras sociais com recursos da Copa.

Acho que não é para entender mesmo. Com tantos malabarismos contábeis e jurídicos para fechar as contas direitinho, e mais o dinheiro no cofre, desconfio que seja tudo virtual. Acho que alguém está enganado com relação a nossa economia. Tomara que seja a equipe econômica do novo governo.

Otimismo! Vamos receber o Papai Noel com alegria - que este ano chegou antecipado.


Gabriel Novis Neves (7.5+145)

28-11-2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Negativo

A matéria do jornalista Caco Barcelos sobre “A saúde no Brasil” ganha em dramaticidade da “tomada” do Morro do Alemão no Rio de Janeiro pelas Forças Armadas. No Morro, mortes e prisões, conseqüências do banditismo que impera em todo o país. Nos hospitais públicos do Brasil, mortes e humilhações, conseqüências do total desrespeito para com o próximo.

As nossas autoridades simplesmente não priorizam as políticas sociais. O resultado é sentido de forma mais impactante na saúde pública, pois é ela que trata diretamente com a vida humana.

De uma forma bem didática, o jornalista dividiu o Brasil em regiões para demonstrar toda a dimensão da tragédia que abate a saúde pública. Ele achou por bem nem entrar no mérito da saúde pública no interior neste imenso país. Simplesmente abordou o grave problema da saúde em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife. Se nesses centros, tidos como uns dos melhores do Brasil, o problema já se constitui motivo de tristeza e humilhação para a população, não precisamos forçar muito a nossa imaginação para vislumbrar o que acontece nas demais localidades. É a revelação do negativo do filme de terror ou horror que é o atendimento público da saúde.

O revoltante nessa história toda, não é saber que a saúde pública vai muito mal. É saber que as nossas autoridades conhecem o problema bem de perto, e não vemos nenhuma ação mais contundente para sanar a situação. E mais revoltante ainda – se ainda couber revolta – é escutar dos nossos governantes que a saúde vai muito bem – obrigado.

O discurso preferido dos transitórios ocupantes do poder, é que o sistema de saúde (SUS) oferecido pelo governo ao povo brasileiro é quase perfeito. O que na verdade é um grande deboche! Não serve nem para os mais miseráveis dos seres humanos.

Não há perspectiva de melhoria da saúde em todo o território nacional. O antigo imposto do cheque (CPMF) vai ser ressuscitado para alocar recursos financeiros para a saúde. Mas o problema básico não é este, apesar de ser importante. O problema está todo centrado na má vontade dos Governos Federal, Estadual e Municipal, nesse tipo de investimento.

Nunca a saúde foi beneficiada com o percentual de recursos que a constituição determina. As imagens da GLOBONEWS a este respeito foram exaustivamente divulgadas. É um chamamento da grande mídia para que todos os brasileiros tomem ciência dessa sórdida política de saúde. Os pobres e miseráveis, assim como os profissionais da saúde, sofrem, e vivenciam de perto este desdém.

A guerra declarada no Rio de Janeiro está no mesmo cesto dos descalabros dos nossos governantes. Nenhum desses dois problemas - falta de saúde e segurança, apareceram agora. São anos de falta de políticas públicas para sanar estas dificuldades.

Agora um desses problemas estourou. Outros abscessos virão a furo, demonstrando todo o engodo de que fomos vítimas.

A violência urbana é resposta à violência cometida pelos governos aos seus habitantes.

O negativo do filme foi revelado, e a fotografia mostrada ao mundo não é das melhores.


Gabriel Novis Neves (7.5+142)

28-11-2010