terça-feira, 7 de julho de 2026

SAPATOS NOVOS


Receber um par de sapatos novos era um acontecimento importante.

 

Muitas vezes isso acontecia apenas no início das aulas ou em alguma data especial.

 

O brilho do couro, o cuidado para não riscar a sola e o orgulho de estreá-los transformavam aquele simples objeto em motivo de grande felicidade.

 

Os antigos aprendiam desde cedo a cuidar do que possuíam, valorizando cada conquista, por menor que fosse.

 

Meus sapatos eram sempre escolhidos por meu pai.

 

Era uma tarefa da qual ele jamais abria mão e que costumava cumprir após a sesta.

 

Íamos até a Casa Athayde, no início da rua 13 de junho, ao lado da farmácia do seu Vieira.

 

Éramos atendidos pelo próprio proprietário, no setor de calçados.

 

Meu pai escolhia o modelo e pedia ao seu Palma que trouxesse um número sempre maior que o do meu pé.

 

Justificava que eu crescia depressa e que meus pés pareciam crescer ainda mais rápido.

 

No início de cada ano letivo comprava um único par de sapatos.

 

Nas férias do meio do ano, levava-os ao sapateiro para colocar meia-sola e reforçar os calcanhares.

 

Para mim, o sapato era um instrumento de trabalho: acompanhava-me diariamente na escola.

 

Hoje os tênis dominam o mercado, enquanto os sapatos de couro ficaram reservados para ocasiões especiais.

 

Ao escrever sobre meu primeiro par de sapatos novos, recordo também como meu pai me ensinava tantas outras lições da vida.

 

Levava-me para comprar roupas, cortar o cabelo no barbeiro e visitar o alfaiate que confeccionava o uniforme do colégio dos padres, quando eu tinha onze anos.

 

Minha mãe cuidava da educação, da saúde e da organização da casa.

 

Meu pai preparava os filhos para a vida prática.

 

Assim, juntos, criaram nove filhos — cinco mulheres e quatro homens — cada um seguindo seu próprio caminho, sempre sustentado pelos valores aprendidos dentro de casa.

 

Não me lembro de ter recebido sapatos de presente de aniversário.

 

Talvez porque, para meu pai, mais importante do que presentear era ensinar a caminhar.

 

Gabriel Novis Neves

27-06-2026




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