sexta-feira, 3 de julho de 2026

ANOTAÇÕES IMPORTANTES


Quase toda casa possuía um caderno onde eram anotados telefones, endereços, receitas e compromissos.

 

Não havia senhas nem nuvens digitais.

 

Bastava abrir a página certa para encontrar aquilo que se procurava.

 

Esses cadernos acabavam se transformando em pequenos arquivos da vida familiar, guardando informações, datas e lembranças ao longo dos anos.

 

Quando retornei formado em Medicina do Rio de Janeiro, em julho de 1964, ainda era comum em Cuiabá o uso dos cadernos de anotações.

 

Vim acompanhado de minha mulher, argentina de nascimento e carioca de coração.

 

Ninguém precisou ensiná-la.

 

Em pouco tempo já mantinha o seu caderno sempre à mão, registrando compras do armazém, despesas da feira livre, aniversários da família e tudo aquilo que fazia parte da rotina da casa.

 

A Regina era extremamente organizada e cuidava com esmero das atividades domésticas, inclusive dos assuntos financeiros.

 

Isso me trazia grande tranquilidade, pois eu estava absorvido pelos compromissos profissionais de uma fase intensa da vida.

 

Ela tinha total liberdade para administrar nossas finanças e, sinceramente, boa parte do patrimônio que possuo hoje devo à sua competência e prudência.

 

O apartamento onde moro foi uma das últimas surpresas que ela me proporcionou.

 

Infelizmente, teve pouco tempo para desfrutá-lo.

 

Corretíssima, anotava todos os compromissos e jamais deixava um pagamento atrasar.

 

Quando os computadores chegaram às nossas vidas, matriculou-se em uma escola para aprender a utilizá-los.

 

Instalou um computador em nossa biblioteca e logo percebeu como aquela novidade facilitava o trabalho do dia a dia.

 

Mas nunca abandonou o velho caderno de anotações.

 

À noite, depois da novela, sentava-se diante do computador.

 

Fazia pagamentos, organizava receitas para os almoços da família e acompanhava as notícias do dia.

 

Visionária, insistiu para que eu aprendesse pelo menos o básico da internet.

 

Contratou um excelente professor que vinha à nossa casa para me alfabetizar naquela nova linguagem.

 

Como nunca fiz curso de datilografia, algo muito comum na minha geração, até hoje escrevo minhas crônicas digitando com apenas um dedo.

 

Os cadernos de anotações ainda me trazem muitas recordações da Regina.

 

De certa forma, cada página preenchida guarda um pouco de sua presença.

 

E é curioso perceber como quase tudo que existe de bom em minha memória acaba me levando de volta a ela.

 

Ao amor eterno da minha vida.

 

Gabriel Novis Neves

04-07-2026




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