Havia dias reservados para cuidar do quintal.
Varriam-se as folhas, aparavam-se as plantas, recolhiam-se os galhos e organizavam-se pequenos cantos esquecidos.
Enquanto trabalhavam os moradores conversavam sem pressa e as crianças acabavam participando da tarefa.
Ao final da manhã, o quintal parecia agradecer o cuidado recebido, oferecendo novamente seu espaço para brincadeiras, descanso e encontros familiares.
Antigamente os quintais eram verdadeiras áreas de lazer das famílias.
Vizinhos se reuniam, quitutes eram preparados e os almoços aconteciam ao ar livre.
Aquele ambiente diferente quebrava a rotina das refeições dentro de casa.
Na época das mangas, era comum um fruto maduro cair bem no centro da mesa improvisada, que nada mais era do que um pedaço de chão coberto por uma toalha.
Longe de estragar o piquenique, provocava risos e brincadeiras.
Somente uma chuva inesperada interrompia a farra, obrigando todos a recolherem a mesa e levarem o almoço para dentro de casa.
O quintal bem cuidado oferecia inúmeras opções de lazer aos moradores.
Á noite, tornava-se o lugar ideal para saborear quitutes comidos com as mãos, enquanto histórias eram contadas sob o céu estrelado.
As narrativas de assombrações e almas do outro mundo nunca faltavam.
Todo quintal parecia guardar um poço de histórias de meter medo.
O quintal do vizinho se comunicava com o da minha casa.
Nunca tivemos cachorros; já os vizinhos faziam deles vigilantes atentos de seus terrenos.
Os quintais terminavam em outra rua, onde um portão permitia a entrada da lenha destinada ao fogão.
Com ela muitas vezes chegavam também os temidos escorpiões e as saçuranas, cuja picada provocava intensa dor, febre e íngua.
Mesmo com esses riscos, os quintais eram parte essencial das antigas casas cuiabanas.
Guardo na memória o prazer de brincar no quintal da minha casa e também no dos vizinhos.
Bastava abrir o portão dos fundos e pedir ao seu Júlio Muller algumas bocaiuvas que ele trazia da Abolição.
Tudo passou.
Mas há lembranças que continuam florescendo como os quintais da infância.
Gabriel Novis Neves
28-06-2026
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