sexta-feira, 11 de setembro de 2026

PASSANDO O CAFÉ


Naquele tempo fazer café era quase um pequeno ritual dentro de casa.

 

O menino observava a água esquentando, o pó colocado no coador e aquele cheiro gostoso tomando conta da cozinha.

 

Um dia permitiram que preparasse o café sozinho.

 

Ficou preocupado com a quantidade de pó, o açúcar e, principalmente, com a opinião dos adultos.

 

Sem perceber aprendia uma lição que levaria para a vida inteira: as grandes responsabilidades quase sempre começam com coisas pequenas.

 

Na minha infância, criança não ficava apenas olhando os adultos trabalharem.

 

Trabalhei no consultório do meu avô, médico, viúvo e surdo.

 

No bar do meu pai, fui servente e ajudei na sorveteria.

 

Na igreja do bairro fui sacristão.

 

Também vendia frutas colhidas no quintal de nossa casa, na rua do Meio, e, durante as férias de dezembro, inventava rifas na porta de casa.

 

Eram pequenos trabalhos, sem qualquer importância aparente, mas todos me ensinavam alguma coisa.

 

Aprendi cedo que ninguém nasce sabendo.

 

Os pais são nossos primeiros professores, quase sempre sem quadro-negro, caderno ou sala de aula.

 

Ensinavam pelo exemplo e pelas pequenas tarefas do cotidiano.

 

Até fazer um cafezinho podia ser uma aula.

 

Era preciso acertar a quantidade de águe e de pó, esperar o momento certo e, depois, enfrentar o julgamento de quem bebia.

 

Talvez tenha começado ali meu aprendizado de conviver com a opinião dos outros.

 

Até hoje escrevo conversando comigo mesmo. Mas, quando publico uma crônica, fico curioso para saber o que os leitores acharam.

 

Também a compartilho com o editor do blog e ouço suas observações.

 

Continuo, portanto, aprendendo a aceitar a opinião alheia.

 

Aos noventa e um anos, descubro que certas lições nunca terminam.

 

E pensar que uma delas começou diante de um coador, quando um menino de Cuiabá tentou fazer sozinho sua primeira xícara de café.

 

Gabriel Novis Neves

05-09-2026




quinta-feira, 10 de setembro de 2026

CHINELOS BATENDO NO TERREIRO


Os chinelos simples acompanhavam o menino por todos os cantos da casa e do quintal. 

 

Seu barulho seco no terreiro anunciava brincadeiras, pequenas tarefas ou corridas atrás dos amigos. 

 

Eram passos leves, livres de preocupações, que marcavam um tempo em que a felicidade cabia nos gestos mais comuns. 

 

Hoje, aquele som permanece apenas na memória de quem viveu essa infância. 

 

Não sou saudosista, como pode parecer nas linhas desta crônica. 

 

Acontece que os tempos mudaram e, com eles, a própria maneira de encontrar a felicidade. 

 

Como eram simples e felizes aquelas pessoas!

 

Era um prazer andar descalço pela casa e pelo quintal.

 

Eu e meus irmãos só calçávamos os chinelos quando saíamos para alguma visita ou ocasião especial.

 

Seu barulho seco sobre o terreiro anunciava nossa presença antes mesmo de alguém nos ver.

 

Andar descalço exigia atenção.

 

Era preciso evitar espinhos, cacos de vidro e, principalmente pequenos animais que apareciam com frequência nos quintais e, muitas vezes, até dentro de casa.

 

Baratas, escorpiões e aranhas-caranguejeiras despertavam verdadeiro pavor.

 

Quando surgia uma dessas aranhas, a casa inteira entrava em alvoroço.

 

Os adultos tratavam de afastá-la, enquanto as crianças assustadas procuravam refúgio em cima das cadeiras.

 

Apesar desses sustos, tudo era motivo de diversão.

 

Brincávamos pelos cômodos da casa e pelo quintal.

 

Havia jogos de botão, feitos com botões arrancados dos paletós de meu pai, partidas de futebol no quintal ou na rua de trás e animados

 

jogos de bolitas na calçada ainda sem pavimentação.

 

Nessas brincadeiras quase sempre os chinelos ficavam de lado.

 

Mas o som seco deles batendo no terreiro continua guardado na minha memória.

 

Quem vive muitos anos aprende visitar o passado com carinho.

 

São lembranças simples, aparentemente sem importância, mas capazes de despertar uma alegria profunda.

 

Alguns sons nunca se calam.

 

O barulho dos chinelos da minha infância ainda ecoa dentro de mim.

 

Gabriel Novis Neves

23-07-2026




quarta-feira, 9 de setembro de 2026

CHEIRO DA LENHA QUEIMANDO


Logo ao amanhecer a fumaça dos fogões a lenha espalhava um aroma que anunciava o início de mais um dia.

 

O menino reconhecia aquele perfume de longe e sabia que o café logo estaria pronto.

 

Alguns cheiros permanecem para sempre guardados na memória e aquecem o coração mesmo depois de muitos anos.

 

Na infância, muitos aromas nos enchiam de prazer anunciando o novo dia.

 

Era o cheiro do pão saindo do forno da padaria, quase vizinha à minha casa, na rua de Baixo.

 

Era o café feito na hora no fogão a lenha.

 

O cheiro da manga madura levada na pasta para a merenda na escola primária, na Praça Ipiranga.

 

Da terra molhada pela chuva da noite.

 

Da abertura do bar para as atividades do dia.

 

Da graxa de sapatos da engraxataria do bar do meu pai.

 

Do perfume da minha mãe sempre borrifado atrás das orelhas.

 

Não sei por que a gente cresce, se, com o passar dos anos, vamos perdendo os aromas da nossa infância.

 

Quanto mais avançamos pela vida e nos distanciamos daqueles cheiros, mais aprendemos que tudo passa.

 

Alguns definem a vida como um sopro.

 

Eu continuo sem entendê-la.

 

Lembro das crianças que pensam muito mais do que falam.

 

Procuro adivinhar aquilo que minhas bisnetas pensam, tão alegres nos almoços de sábado.

 

Nas conversas com elas, tento ler em seus olhares aquilo que ainda não sabem dizer.

 

Enquanto escrevo, lembro daquele cheiro do corpo que me fazia tão bem!

 

Hoje, um dos aromas que me acompanha é o dos livros da minha biblioteca.

 

Aquele cheiro de papel envelhecido, que para mim significa conhecimento e vida guardada.

 

O cheiro da lenha queimando espalhava-se pela vizinhança numa mistura de aromas que pertencia à Cuiabá de antigamente.

 

Nada igual ao cheiro do mate queimado, hoje quase desaparecido das casas cuiabanas.

 

Não sei por que deixamos de usá-lo na primeira refeição do dia, se até hoje é apreciado por todos que o saboreiam.

 

Talvez os cheiros da infância nunca desapareceram de verdade.

 

Ficam adormecidos dentro de nós.

 

Basta um pouco de fumaça de lenha para o menino voltar para casa.

 

Gabriel Novis Neves

17-08-2026




terça-feira, 8 de setembro de 2026

VISITA AO SAPATEIRO


Nem tudo era descartado quando apresentava defeito.

 

Sapatos gastos ganhavam nova vida nas mãos habilidosas do sapateiro.

 

Costuras, solas e saltos eram cuidadosamente recuperados, permitindo que o calçado acompanhasse seu dono por muitos anos.

 

Mais do que consertar sapatos, esses profissionais ensinavam, sem palavras, uma lição de economia, paciência e respeito pelas coisas.

 

Hoje os sapateiros quase desapareceram das ruas, mas continuam caminhando pelas lembranças de quem viveu aquele tempo.

 

A Cuiabá da minha infância possuía inúmeras sapatarias.

 

Esse fato revelava um costume simples: cuidar bem do que se possuía.

 

Fui criado no centro histórico, onde ruas e becos abrigavam pequenas bancas de sapateiros.

 

O som ritmado do martelo, o cheiro do couro e a concentração do artesão faziam parte da paisagem da cidade.

 

Assim fui educado.

 

Em casa aprendíamos a evitar desperdícios e a valorizar cada objeto.

 

Quando retornei à Cuiabá, em 1964, ainda encontrei muitas sapatarias em plena atividade.

 

Hoje quase não as vejo.

 

Vivemos numa época em que grande parte dos produtos nasce com vida curta, tornando-se mais fácil substituí-los do que consertá-los. Sempre admirei a imagem de um sapateiro trabalhando.

 

Há nela algo de profundamente humano.

 

Curvado sobre a bancada, concentrado em seu ofício, ele me fez lembrar a figura de São José, exercendo com dignidade o trabalho silencioso das mãos.

 

A economia doméstica, que meus pais ensinavam naturalmente pelo exemplo, hoje é estudada em universidades.

 

Muitas profissões artesanais desapareceram, levadas pelo avanço da tecnologia e pelos novos hábitos de consumo.

 

Ainda assim, acredito que o verdadeiro valor das coisas, continua sendo o mesmo: cuidar, conservar e agradecer pelo que temos.

 

Talvez essa seja a mais duradoura lição deixada pelos velhos sapateiros.

 

Gabriel Novis Neves

28-06-2026




segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ACORDANDO DEVAGAR


Há dias em que a casa parece acordar mais devagar.

 

Ninguém corre para sair, o café demora um pouco mais na mesa, as portas se abrem sem pressa e até a luz da manhã entra com delicadeza.

 

São dias raros, quase sempre ligados ao descanso.

 

Neles, percebemos que a vida não precisa ser sempre atropelada.

 

Às vezes, basta diminuir o passo para sentir melhor a própria existência.

 

Durante grande parte da minha vida eu já acordava atrasado.

 

Era a pressa da juventude, dos compromissos, das responsabilidades e dos sonhos que pareciam exigir urgência permanente.

 

Os dias começavam correndo e terminavam da mesma forma.

 

Havia sempre uma reunião, uma aula, uma consulta, uma viagem ou um problema esperando solução.

 

Hoje a vida segue outro ritmo.

 

Ainda acordo com sono e custo a me levantar para tomar o café, enquanto a cidade já desperta em pleno movimento.

 

A correria de antigamente desapareceu como num passe de mágica.

 

A fase que vivo é uma etapa de reencontro comigo mesmo, algo que talvez só a longevidade seja capaz de proporcionar.

 

Não trago arrependimentos e talvez não sinto falta da antiga pressa.

 

Cresci ouvindo os mais velhos repetirem que a pressa é inimiga da perfeição.

 

Com o passar dos anos, descobri que ela também pode ser inimiga da contemplação.

 

Acordar mais devagar está ligado ao descanso, à aceitação dos limites e à sabedoria de compreender que cada idade possui seu próprio compasso.

 

O homem da roça aprende com a natureza.  Dorme cedo, acorda com a claridade e inicia o dia com seu quebra-torto reforçado.

 

Eu, por minha vez procuro ajustar os horários dos medicamentos para dormir e despertar mais disposto.

 

Nem sempre consigo.

 

As cuidadoras me ajudam nos primeiros passos pela casa, enquanto observo as mudanças que o tempo trouxe à minha locomoção.

 

Mas, curiosamente, também percebo algo que a juventude não enxergava: a beleza das pequenas coisas.

 

Hoje, quando a casa acorda mais devagar, eu também desperto para a gratidão.

 

Porque viver sem pressa é um privilégio.

 

E agradecer por mais um amanhecer é uma forma de felicidade.

 

Cada novo dia é um presente que chega devagar.

 

Gabriel Novis Neves

03-06-2026




domingo, 6 de setembro de 2026

CHEIRO DE TERRA MOLHADA


Nas tardes mais quentes, bastava jogar alguns baldes de água sobre o chão para o quintal ganhar outro perfume.

 

O cheiro da terra molhada espalhava-se pela casa, trazendo uma agradável sensação de frescor.

 

Era um aroma impossível de fabricar, guardado apenas na memória de quem viveu aquele tempo simples.

 

Quando menino, nos dias de sol mais intenso, minha mãe pedia que eu molhasse o chão do quintal.

 

Os quintais cuiabanos possuíam poços e tanques, garantindo água abundante para refrescar a terra e atender às necessidades da casa, onde, quase sempre, moravam famílias numerosas e seus empregados.

 

Naquele tempo, ninguém falava em economia de água.

 

A cidade era privilegiada pelo rio Cuiabá, pelos córregos, tanques e bicas que abasteciam a população com generosidade.

 

Bastavam alguns baldes lançados sobre a terra para que um perfume inconfundível tomasse conta do ambiente.

 

O calor parecia diminuir e a casa inteira respirava outro ar.

 

Nos dias mais quentes, o córrego da Prainha transformava-se na alegria dos meninos.

 

Mergulhávamos em suas águas para aliviar o calor e prolongar a felicidade das férias.

 

Até hoje sinto falta do cheiro da terra molhada do quintal da casa onde vivi minha infância.

 

Depois que deixei a casa da rua do Campo para estudar no Rio de Janeiro, nunca mais encontrei aquele perfume.

 

Era o cheiro da minha terra, da minha infância e da minha família.

 

Um aroma que nenhuma indústria conseguiu reproduzir.  

 

Meus filhos, netos e bisnetos pertencem a uma geração que cresceu sem quintais.

 

Por isso talvez nunca venham a conhecer essa sensação tão simples e tão marcante!

 

Mas o filme de quase um século atrás permanece intacto em minha memória.

 

Nas antigas casas coloniais, os largos beirais protegiam as paredes e as calçadas do sol e das chuvas.

 

Sustentados pelos chamados cachorros —peças de madeira em balanço, popularmente conhecidas em Cuiabá como cachorrões — proporcionavam sombras generosas que completavam o encanto daquelas casas.

 

Tudo era simples.

 

E talvez por isso mesma fosse tão inesquecível.

 

Gabriel Novis Neves

05-08-2026




sábado, 5 de setembro de 2026

A PONTE DOS FERIADOS


A ponte do feriado é uma invenção brasileira muito apreciada.

 

Basta um feriado cair na terça ou na quinta-feira para a segunda ou a sexta ganharem outro significado.

 

A palavra ‘ponte’ sugere passagem, descanso, viagem, fuga da rotina.

 

Uns aproveitam para sair.

 

Outros preferem ficar em casa.

 

Mas todos sentem que aqueles dias extras têm um sabor diferente, como se fossem emprestados ao calendário.

 

A arte de mexer no calendário acabou incorporada nos costumes brasileiros.

 

Quando o feriado cai numa terça ou quinta-feira, logo surge a famosa ‘ponte’, transformando a semana em descanso prolongado e quebrando a rotina.

 

Alguns feriados do meu tempo de criança desapareceram.

 

O treze de maio, data da Abolição da Escravidão, já foi muito lembrado.

 

Em compensação, o Brasil passou a celebrar oficialmente o Dia da Consciência Negra, em vinte de novembro.

 

Vinte e quatro de fevereiro também foi um feriado importante: comemorava-se a primeira Constituição Republicana, promulgada em 1891, mas a data caiu em desuso ao longo do século passado.

 

Durante o regime militar, o 31 de março era celebrado oficialmente, mas perdeu qualquer sentido comemorativo após a redemocratização.

 

Há outras datas históricas que deixaram de ser feriado nacional, como o vinte e dois de abril, Dia do Descobrimento do Brasil.

 

A bandeira brasileira criada em 19 de novembro de 1889, logo após a Proclamação da República, também não transformou sua data em feriado nacional.

 

No dezenove de abril, o país celebra o Dia dos Povos Indígenas.

 

Temos feriados nacionais, estaduais, municipais, pontos facultativos e datas comemorativas.

 

Tudo isso acaba criando inúmeras ‘pontes’, aumentando os momentos de pausa e descanso.

 

Mas o feriado mais esperado pelos cuiabanos continua sendo a queda da temperatura.

 

Como isso é raro numa cidade calorenta, nesses dias ninguém tem vontade de abandonar a cama, o cobertor e o banho quente.

 

Eu mesmo estou aproveitando esse veranico com meias, calça comprida e casaco de moletom, permanecendo mais tempo na cama e com o ar refrigerado desligado.

 

Nessas horas, até o frio passageiro parece feriado.

 

Gabriel Novis Neves

12-05-2026




sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O ESPELHO SEM PRESSA


Parei diante do espelho por mais tempo do que o habitual. 

 

Observei as marcas do rosto sem julgamento. 

 

Não tentei corrigir nada. 

 

Apenas reconheci o homem que estava ali. 

 

Envelhecer também é aceitar a própria imagem sem pressa de fugir dela. 

 

O mundo moderno está cheio de pessoas em permanente luta contra o tempo. 

 

Combatem rugas, pálpebras caídas, papadas, como se o envelhecimento fosse um erro a ser corrigido. 

 

Criaram até nomes elegantes para suavizar a ideia — harmonização facial. 

 

Homens e mulheres procuram cada vez mais cedo os consultórios de cirurgia plástica, numa tentativa silenciosa de negar aquilo que é inevitável: a passagem dos anos. 

 

O espelho sempre foi um instrumento da vaidade humana. 

 

Houve um tempo em que a calvície era sinal de maturidade e masculinidade. 

 

Hoje, quem pode recorre ao implante capilar. 

 

A cirurgia plástica multiplicou subespecialidades, clínicas e hospitais cheios. 

 

Há, naturalmente, sua face necessária e nobre — a cirurgia reparadora, essencial para grandes queimados, enxertos de pele e reconstruções que devolvem dignidade e sobrevivência. 

 

Nas grandes cidades, bancos de pele humana tornaram-se indispensáveis nos hospitais de urgências. 

 

Era recém-formado em Medicina quando sofri um grave acidente na ambulância em que seguia para prestar socorro. 

 

Como sequela da fratura nasal, fiquei com desvio do septo, com indicação cirúrgica. 

 

Nunca me incomodou o nariz torto que o espelho mostrava. 

 

Estou com noventa e um anos e nunca corrigi esse detalhe. 

 

Aliás, jamais me submeti a procedimentos estéticos — sou o único da família. 

 

No meu quarto há um espelho herdado da família de minha esposa. 

 

Muitas vezes esqueço sua presença. 

 

Não tenho pressa de me observar nem de confirmar o avanço da idade. 

 

Pelo contrário, sinto orgulho de ter chegado até aqui com a mente lúcida e o coração em paz. 

 

Hoje compreendo que o espelho não serve apenas para revelar o que o tempo levou, mas sobretudo para lembrar o que ele permitiu viver. 

 

E assim ele permanece ali, silencioso, mais objeto de memória do que de vaidade — refletindo não a juventude perdida, mas a história inteira que consegui atravessar. 

 

Gabriel Novis Neves 

02-09-2026




quinta-feira, 3 de setembro de 2026

CHÃO DE TERRA BATIDA


Na casa da minha infância, o chão do quintal era de terra batida. 

 

Depois da chuva, formavam-se pequenas poças onde eu pisava descalço. 

 

Minha mãe reclamava, mas eu voltava sorrindo. 

 

A terra secava rápido sob o sol de Cuiabá. 

 

Hoje penso que aquela poeira fazia parte da nossa liberdade. 

 

As crianças de hoje são criadas entre espigões de concreto. 

 

Desconhecem que as crianças de antigamente eram livres. 

 

Brincávamos descalços nas ruas de terra batida,  

 

tomávamos banho de chuva e voltávamos para casa com a roupa encharcada e a alma leve. 

 

Havia esconde-esconde na pracinha do bairro, procissões acompanhadas com respeito e quermesses cheias de alegria. 

 

Comprávamos tira de queimada, pé de moleque e pirulito. 

 

Tomávamos picolé de groselha no Bar do Bugre e passeávamos pelo Jardim em frente ao Palácio do Governo.

 

Tenho certeza de que era bom ser criança no meu tempo.

 

Jogávamos botão pelos corredores das casas, bolita nas calçadas de chão batido e organizávamos rifas na porta de casa.

 

Pulávamos amarelinha e soltávamos pipas feitas por nós mesmos, muitas vezes com a ajuda paciente de minha mãe.

 

No sábado de Aleluia malhávamos Judas pregado nos postes das ruas.

 

Levávamos o turíbulo da Catedral até a casa de dona Elza Nigro para buscar brasas e preparar o incenso das missas.

 

Era uma honra ser escolhido pelo pároco para ajudar no altar e tocar a campainha no momento da comunhão.

 

Meninos vendiam jornais nas ruas e chicletes na porta do Cine Teatro Cuiabá.

 

Havia rivalidades inocentes com os meninos do Porto, caçadas de preá no morro da Prainha,

 

água fresca bebida direto da bica e banhos no tanque do Baú.  

 

Minha mãe cuidava da saúde dos filhos com zelo — e o óleo de rícino era o grande terror da infância. 

 

Os brinquedos eram inventados, e nos quintais dos casarões construíamos verdadeiras cidades, inspiradas nos presépios de Natal espalhados pela cidade.

 

Éramos livres.

 

Éramos donos das ruas.

 

E talvez, sem saber, éramos profundamente felizes.  

 

Gabriel Novis Neves

26-02-2026


GABRIEL E YARA


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O PRIMEIRO TROVÃO DEPOIS DE MESES DE SECA


O primeiro trovão era recebido como uma notícia importante.

 

Depois de meses de calor, poeira e céu limpo, aquele barulho distante fazia todos olharem para cima.

 

O menino corria para o quintal à procura das nuvens carregadas.

 

Os adultos recolhiam as roupas do varal e fechavam algumas janelas.

 

Pouco depois vinha a chuva, lavando telhados, árvores e ruas.

 

Parecia que a própria cidade tomava um grande banho para começar outra vez.

 

A chuva tão esperada numa cidade quente, era uma festa desejada por todos.

 

As crianças descalças molhavam os pés nas correntezas que se formavam pelas ruas.

 

Era uma das brincadeiras preferidas da meninada daquele tempo.

 

Às vezes, porém, algum pé encontrava um caco de garrafa, e a brincadeira terminava com choro e sangue.

 

A hemostasia era feita com teia de aranha, abundante nos velhos casarões cuiabanos.

 

No bar do meu pai ela fazia parte dos recursos de primeiros socorros, pois a quebra de copos era frequente.

 

Não me lembro de ninguém que tenha contraído tétano por causa daqueles improvisados curativos.

 

O trovão não significa necessariamente que vai chover, mas, nas tempestades da minha infância, parecia sempre anunciar a chegada das águas.

 

Sempre tive medo dos trovões acompanhados de raios.

 

Já presenciei a queda de raios muito próximos de mim, na região amazônica de Mato Grosso.

 

Estava em terra, ao lado de um pequeno avião, quando assisti aquele impressionante espetáculo da natureza.

 

Confesso que senti medo —e ainda hoje me recordo daquela cena.

 

Em Mato Grosso os raios continuam representando perigo, especialmente para quem se encontra em áreas abertas durante as tempestades.

 

Apesar do medo, é belo observar, de um lugar protegido e à distância, o céu iluminado pelos relâmpagos e ouvir o estrondo dos trovões, anunciando a força da natureza.

 

Morando em apartamento e sem viajar para o interior, há muito tempo não vejo de perto uma tempestade como aquelas.

 

Hoje, quando escuto um trovão distante, ainda procuro o céu.

 

E, por alguns instantes, volto a ser o menino que corria para o quintal esperando a primeira chuva cair sobre a velha Cuiabá.

 

Gabriel Novis Neves

28-08-2026




A CHAVE ESQUECIDA NA FECHADURA


 
A chave ficou na fechadura por mais tempo do que devia.
 
Só percebi ao passar novamente pela porta.
 
Girei devagar, retirei-a e guardei no bolso.
 
Nada aconteceu.
 
Mas o susto veio depois.
 
Esquecimentos pequenos se acumulam com a idade.
 
Eles não gritam; apenas avisam, em silêncio, que precisamos andar mais devagar.
 
O envelhecimento, quando chega, traz consigo essas distrações miúdas.
 
Embora eu tenha uma memória que ainda me permite escrever textos diários, vez ou outra ela se esconde de mim.
 
Esconde fatos simples, detalhes banais.
 
Mais adiante, porém, devolve a brincadeira, e eu prossigo com o trabalho, como se nada tivesse ocorrido.
 
O idoso precisa ter cuidado redobrado na Cuiabá de hoje.
 
Com a expectativa de vida aumentando, surgiu uma profissão cada vez mais necessária — a de cuidador.
 
Universidades formam tecnólogos e enfermeiros especializados no acompanhamento de idosos, e, ainda assim, é difícil encontrá-los no mercado.
 
Há oito anos contratei uma cuidadora-enfermeira.
 
Além de me acompanhar nas rotinas médicas, ela me ajuda com a internet, com aplicativos bancários e com a compra e organização dos meus medicamentos —são tantos que memorizo apenas os horários.
 
Pela idade, e para evitar transtornos, ando devagar, quase parando.
 
Assim, empurro a vida para frente.
 
Até onde, não sei.
 
Aceito minhas limitações sem segredo nem disfarce.
 
Agora mesmo, o Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional virá a minha casa gravar um documento audiovisual, de no máximo cinco minutos.
 
Será exibido na abertura oficial das comemorações do seu Jubileu de Ouro, em 09 de abril de 2026.
 
Lembro-me do início do Núcleo, quase por acaso, durante uma viagem a Brasília.
 
Estava com a professora Maria de Lourdes Delamônica Freire.
 
Ela, ex-aluna da UnB, soube da presença de uma pesquisadora portuguesa interessada na história de Cuiabá e sugeriu que oferecêssemos a UFMT como sede para a pesquisa.
 
A professora Maria Cecília Guerreiro de Souza aceitou o convite, mudou-se para Cuiabá e, com os nossos pesquisadores, fundou o NDIHR, hoje cinquentenário.
 
A chave esquecida na fechadura não abriu perigo algum.
 
Abriu lembranças.
 
Se a memória às vezes falha nas miudezas do presente, ela permanece firme guardando aquilo que ajudamos a construir.
 
 E enquanto eu ainda puder girar essa chave — mesmo devagar — continuarei abrindo portas para o que fomos e para o que ainda somos.
 

Gabriel Novis Neves
 
12-02-2026




segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A TOALHA DOBRADA


Hoje encontrei a toalha dobrada sobre a cadeira do quarto.

 

Não me lembro de tê-la colocado ali.

 

Talvez tenha sido ontem à noite, talvez pela manhã.

 

Pequenos gestos se acumulam na casa sem que percebamos.

 

A toalha esperava silenciosa, como se ainda guardasse a umidade do banho e a pressa discreta do dia.

 

Fiquei olhando para ela mais tempo do que seria necessário.

 

Quantos movimentos repetimos sem notar? Quantos hábitos se instalam como móveis invisíveis da rotina?

 

O meio-dia passou enquanto eu escrevia, desiquilibrando as tarefas reservadas para a tarde.

 

Foi então que pensei: a manhã parece sempre mais curta.

 

Os antigos insistiam que nela o aprendizado era mais fácil, e que a noite nascera apenas para o descanso.

 

Na preparação para o vestibular de Medicina, descobri que isso nem sempre era verdade.

 

Pela manhã e à tarde frequentava aulas teóricas; restava-me a noite para estudar.

 

O exame acontecia logo após o carnaval.

 

Morando na capital do samba, ouvia ao longe as marchinhas ecoando pelas ruas, enquanto eu me debruçava sobre livros.

 

Depois de aprovado, conheci o leque de oportunidades que o carnaval oferecia.

 

Não me recordo dos carnavais que deixei passar.

 

Fui, pouco a pouco, aproximando-me da festa — primeiro espiando, depois participando. Regina levou-me aos salões.

 

Nunca usei fantasia, nem mesmo um simples disfarce.

 

E, no entanto, aqueles sons distantes da década de cinquenta — o rufar dos tamborins ouvido de longe — acabaram transformando-se, anos depois na criação da Mocidade Independente Universitária, em Cuiabá.

 

Tornei-me presidente da escola mais famosa da cidade, movido não por ambição, mas por um desses gestos quase imperceptíveis que mudam destinos.

 

O filósofo Eduardo Portela já afirmou que o carnaval é a maior manifestação da cultura popular brasileira.

 

Concordo.

 

Às vezes, o que começa como distração distante torna-se compromisso, identidade, memória coletiva.

 

A toalha dobrada sobre a cadeira me ensinou isso hoje.

 

Nada é pequeno demais.

 

Um gesto esquecido pode guardar o início de uma história inteira.

 

E a vida, silenciosa como aquela toalha, vai se dobrando sobre nós — esperando apenas que a descubramos.

 

Gabriel Novis Neves

17-02-2025