Descobri que certos medos já não me visitam.
Preocupações que antes tiravam meu sono, hoje parecem menores.
Não é coragem excessiva.
É perspectiva.
O tempo ensina a medir o tamanho real das ameaças.
Todas as crianças da minha geração tinham medos.
Ouvíamos de babás e adultos histórias de terror que povoavam a imaginação.
A infância amplia os temores que os anos, pacientemente, acabam dissolvendo.
Hoje a educação é outra, e a cidade grande substituiu aqueles medos imaginários por perigos concretos.
A mula-sem-cabeça da minha infância foi trocada pelo assaltante a mão armada —ameaça que nenhum aprendizado do tempo consegue diminuir.
Meu genro, na calçada de um edifício em São Paulo, aguardava o Uber quando atendeu ao celular.
Um motorista que passava rente ao meio-fio estendeu o braço pela janela, arrancou o aparelho e fugiu acelerando.
Em segundos, ganhou o dia.
Meu filho, no Guarujá, saiu do hotel apenas para comprar um tubo de pasta de dente.
Atravessou a rua e foi assaltado a mão armada. Perdeu o celular para preservar a própria vida.
Os medos de hoje são diferentes dos de ontem.
Ouvi histórias de lobisomem quando menino; hoje, às vezes, temo simplesmente sair de casa.
Morei onze anos no Rio de Janeiro e mantive, por cinquenta anos um apartamento no Leme, vendido no ano passado de porteira fechada.
Usei bondes, ônibus, lotações e trens da Central do Brasil.
Nunca pensei em assaltos — e jamais fui assaltado.
O Rio, cercado por morros transformados em favelas, tornou-se uma cidade que exige coragem para morar ou visitar.
Ali, o medo não diminuiu com o passar dos anos.
Talvez seja essa a maior mudança do tempo: os monstros deixaram de ser imaginários.
Gabriel Novis Neves
23-02-2026
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.