sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

TEMORES URBANOS


Descobri que certos medos já não me visitam.

 

Preocupações que antes tiravam meu sono, hoje parecem menores.

 

Não é coragem excessiva.

 

É perspectiva.

 

O tempo ensina a medir o tamanho real das ameaças.

 

Todas as crianças da minha geração tinham medos.

 

Ouvíamos de babás e adultos histórias de terror que povoavam a imaginação.

 

A infância amplia os temores que os anos, pacientemente, acabam dissolvendo.

 

Hoje a educação é outra, e a cidade grande substituiu aqueles medos imaginários por perigos concretos.

 

A mula-sem-cabeça da minha infância foi trocada pelo assaltante a mão armada —ameaça que nenhum aprendizado do tempo consegue diminuir.

 

Meu genro, na calçada de um edifício em São Paulo, aguardava o Uber quando atendeu ao celular.

 

Um motorista que passava rente ao meio-fio estendeu o braço pela janela, arrancou o aparelho e fugiu acelerando.

 

Em segundos, ganhou o dia.

 

Meu filho, no Guarujá, saiu do hotel apenas para comprar um tubo de pasta de dente.

 

Atravessou a rua e foi assaltado a mão armada. Perdeu o celular para preservar a própria vida.

 

Os medos de hoje são diferentes dos de ontem.

 

Ouvi histórias de lobisomem quando menino; hoje, às vezes, temo simplesmente sair de casa.

 

Morei onze anos no Rio de Janeiro e mantive, por cinquenta anos um apartamento no Leme, vendido no ano passado de porteira fechada.

 

Usei bondes, ônibus, lotações e trens da Central do Brasil.

 

Nunca pensei em assaltos — e jamais fui assaltado.

 

O Rio, cercado por morros transformados em favelas, tornou-se uma cidade que exige coragem para morar ou visitar.

 

Ali, o medo não diminuiu com o passar dos anos.

 

Talvez seja essa a maior mudança do tempo: os monstros deixaram de ser imaginários.

 

Gabriel Novis Neves

23-02-2026




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