O relógio da parede do meu apartamento estava parado.
Percebi quando olhei as horas e algo não bateu.
Os ponteiros não tinham mudado.
Fiquei observando por alguns segundos.
Não troquei a pilha.
Ele continuou ali, marcando um horário que já não existia mais.
Segui o dia sem corrigi-lo.
Na vida, às vezes imitamos o relógio sem pilha.
Paramos de viver quando a família deixa de nos visitar.
Ficamos em casa falando conosco mesmos.
É quando precisamos nos reinventar para prosseguir, descobrindo uma maneira de não sermos apenas um adorno no velho duplex.
Há vinte anos, inventei de escrever pequenos textos marcantes do meu passado.
Foi como trocar a pilha do meu envelhecimento.
Dizem que recordar é viver, e eu garanto ser a mais pura verdade.
Fico pensando que a minha geração, chamada de ferro, já passou.
Hoje observo meus netos e bisnetos crescerem em outro tempo.
Os futurólogos apelidaram a atual de ‘geração cristal’.
Os valores éticos da minha geração já não existem como antes.
As antigas revistas encontradas nas salas de espera dos consultórios foram substituídas pelas mídias sociais dos celulares, exibindo excessos, banalizando o corpo e confundindo limites.
A oferta é feita sem controle, desgastando lentamente a fibra social dos bons costumes.
A sociedade que conheci já não existe mais.
A pilha do tempo foi trocada por outra semelhante, mas falsificada.
Como dói escrever sobre esses assuntos —eles me revoltam e me fazem mal.
Tomo um gole de água gelada do copo ao meu lado, tentando esfriar a mente aquecida pelas lembranças da sociedade que vi nascer.
O telefone toca.
Talvez me faça bem, desviando a atenção desse problema tão sério que é cuidar das crianças desta nação!
Não podemos deixar parado o relógio do tempo.
É preciso trocar as pilhas, antes que ele pare de vez — ignorando que o tempo, indiferente a nós, continua andando.
Gabriel Novis Neves
26-01-2026
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