A gaveta emperrou logo cedo.
Puxei com cuidado.
Ela resistiu.
Tentei de novo, um pouco mais forte, e só então cedeu.
Nada estava fora do lugar.
Talheres alinhados, panos dobrados, tudo como sempre.
Fiquei alguns segundos parado, olhando para aquele pequeno esforço desnecessário.
Há coisas que funcionam a vida inteira e, sem aviso, começam a pedir mais paciência.
Recentemente fui obrigado a trocar o armário do banheiro.
O trabalho foi tão bem-feito que agora não preciso fazer esforço algum para abrir ou fechar as gavetas.
O antigo exigia força, quase um tranco.
Passei a observar em mim o mesmo processo. Tenho aprendido a ter paciência para caminhar, mesmo dentro de casa.
De andarilho pelas calçadas da cidade, passei a contar passos curtos entre um cômodo e outro.
O pior é que eles doem e exigem, quase sempre, um braço amigo.
A velhice precisa ser compreendida.
Sem essa compreensão, ela facilmente se transforma em doença.
No meu caso, não chegou de repente.
Veio insidiosa, pedindo pequenos esforços quase imperceptíveis.
O acúmulo deles me obrigou a fazer movimentos antes desnecessários, levando-me a me reinventar para continuar.
Se a parte intelectual segue invejável, não posso dizer o mesmo de outras áreas do meu organismo.
Algumas gavetas do meu corpo já não funcionam nem com esforço ou tranco.
E não conheço técnico habilitado para esse tipo de conserto.
São órgãos que ficaram enferrujados com o tempo.
Resta, então, muita paciência para esse finzinho de vida.
Procuro compensar o desgaste das dobradiças do meu organismo me apegando aos filhos, netos e bisnetos.
Quando estou agarrado a eles — especialmente aos bisnetos — o tempo deixa de ter pressa. Ouço com calma, sorrio sem economia e esqueço as pequenas limitações.
Assim, deixo de perder paciência com esforços que um dia foram desnecessários e passo a valorizar aquilo que ainda abre fácil: o afeto.
Gabriel Novis Neves
06-02-2026
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