quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

RUA DE BAIXO


Hoje o pão chegou mais quente do que de costume.

 

O entregador subiu apressado, tocou a campainha e saiu antes que eu abrisse a porta.

 

O saco de papel ainda soltava vapor.

 

Coloquei-o sobre a mesa e senti aquele cheiro conhecido de padaria antiga.

 

Cortei um ao meio com a faca do café da manhã.

 

A manteiga derreteu sem esforço.

 

Não havia pressa.

 

O rádio estava ligado baixo.

 

A casa acordava devagar.

 

Pequenas coisas assim continuam marcando o início dos meus dias.

 

Hoje vou ao escritório e tento passar para o papel as coisas lindas da Cuiabá antiga, como o cheiro da padaria de antigamente.

 

Do comércio da estreita rua de Baixo, formado em grande parte por libaneses que criaram raízes aqui, adotando a cidade como seu verdadeiro torrão natal.

 

Trouxeram sua riquíssima cultura, tiveram filhos cuiabanos, que se casaram com cuiabanos.

 

Além do comércio, muitos se destacaram em profissões liberais, como a medicina e o magistério.

 

Como tenho saudades da velha rua de Baixo, com seu comércio diversificado: lojas de tecidos, sapatos e perfumes femininos. (1)

 

Das casas masculinas, com seus elegantes chapéus e tecidos importados para a confecção de ternos.

 

Da padaria famosa, da doceria, da sorveteria lembrada até hoje.

 

Da farmácia, do armazém, do estúdio fotográfico.

 

Até um cinema poeira existia ali, muito frequentado.

 

Havia também residências de gente importante da época, sem esquecer a pracinha onde brincávamos, passagem obrigatória para o Morro da Luz.

 

Nos fundos a histórica rua do Meio, por onde, em outros tempos, entravam os escravizados nas casas da rua de Baixo.

 

Assim começo meus dias hoje, cheio de lembranças de um tempo bom que passou.

 

A casa onde nasci foi demolida. (2)

 

No lugar, surgiu uma loja de tecidos.

 

Naquele tempo, falava-se na rua de Baixo o português, o árabe e o italiano, principalmente.

 

Era uma rua curta, mas cheia de encantos.

 

Há muitos anos não passo por lá.

 

Por textos e fotografias, sei que seus antigos casarões, abandonados, viraram ruinas.

 

Da minha infância, restaram as lembranças.

 

E o cheiro do pão quente, que ainda insiste em voltar.

 

Gabriel Novis Neves

02-02-2026







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