Fui buscar, no fundo da memória, a evolução do carnaval na minha cidade.
Minha mãe era carnavalesca.
Eu ainda era muito criança e guardo um retrato fantasiado de chinês, com bigodinho fino, túnica e calça comprida de seda, segurando uma sacola cheia de confetes.
Ao meu lado, com a mesma fantasia, minha irmã Yara.
Só me lembro do retrato.
Devia ter menos de quatro anos.
Minha mãe, com as amigas, participava, na segunda-feira à tarde, do Bloco dos Sujos.
Eram maltrapilhos mascarados de mulheres, que brincavam na Praça Alencastro até o escurecer.
Meu pai trabalhava os quatro dias da folia. Mesinhas reservas eram colocadas em frente ao casarão da Praça Alencastro e no calçadão da Praça da República.
Os salões do bar ficavam lotados, e eu, menino, observava tudo encantado.
Nos fundos do salão uma eletrola tocava sucessos carnavalescos.
Lembro-me de alguns, como Bota o Retrato do Velho, gravado por Francisco Alves — o Rei da Voz — para o carnaval de 1950.
Papai sorria e dizia que gostava mais da marchinha Pra Você Gostar de Mim, conhecida como TAÍ, para o carnaval de 1930.
Composta por Joubert de Carvalho e imortalizada na voz de Carmem Miranda.
Contava que se casara com a minha mãe, Irene, quatro anos depois, por causa daquela música.
Já crescidinho, assistia da porta da sorveteria ao desfile dos carros de corsos, com as capotas arriadas e lindas meninas cantando e dançando para alegria do povo, que lançava confetes, serpentinas e jatos de lança-perfume.
Nós, os Carecas foi a marchinha de sucesso de 1942.
Vi blocos carnavalescos dos bairros desfilarem pelos três dias de festa, sendo o mais famoso o da Turma do Morro.
Era formado por filhos músicos e compositores do professor André Avelino, que mantinha escola no Morro da Prainha.
Havia mascarados e mascaradas pelo centro de Cuiabá.
Desfilavam as escolas de samba, sendo muito aplaudida a de Nhozinho, do Grande Terceiro.
Todas eram precedidas por crianças fantasiadas de índios, com seus apitos estridentes.
Ala de passistas, compositores, rei, rainha, mestre sala e bateria.
Os bailes aconteciam nos salões do Grande Hotel e do Clube Feminino.
Também eram animados os bailes do Bar Colorido, de dona Maria de Umbelina, atrás da igreja do Senhor do Passos.
Passei onze anos distante de Cuiabá.
Quando retornei, o carnaval já era outro. Mudaram as músicas, mudaram os cenários, mudaram as pessoas.
Mas, dentro de mim, continuava a tocar aquela velha marchinha que uniu meus pais.
O carnaval passou.
A memória ficou.
Gabriel Novis Neves
14-02-2026
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