domingo, 15 de fevereiro de 2026

CARNAVAIS PASSADOS


Fui buscar, no fundo da memória, a evolução do carnaval na minha cidade.

 

Minha mãe era carnavalesca.

 

Eu ainda era muito criança e guardo um retrato fantasiado de chinês, com bigodinho fino, túnica e calça comprida de seda, segurando uma sacola cheia de confetes.

 

Ao meu lado, com a mesma fantasia, minha irmã Yara.

 

Só me lembro do retrato.

 

Devia ter menos de quatro anos.

 

Minha mãe, com as amigas, participava, na segunda-feira à tarde, do Bloco dos Sujos.

 

Eram maltrapilhos mascarados de mulheres, que brincavam na Praça Alencastro até o escurecer.

 

Meu pai trabalhava os quatro dias da folia. Mesinhas reservas eram colocadas em frente ao casarão da Praça Alencastro e no calçadão da Praça da República.

 

Os salões do bar ficavam lotados, e eu, menino, observava tudo encantado.

 

Nos fundos do salão uma eletrola tocava sucessos carnavalescos.

 

Lembro-me de alguns, como Bota o Retrato do Velho, gravado por Francisco Alves — o Rei da Voz — para o carnaval de 1950.

 

Papai sorria e dizia que gostava mais da marchinha Pra Você Gostar de Mim, conhecida como TAÍ, para o carnaval de 1930.

 

Composta por Joubert de Carvalho e imortalizada na voz de Carmem Miranda.

 

Contava que se casara com a minha mãe, Irene, quatro anos depois, por causa daquela música.

 

Já crescidinho, assistia da porta da sorveteria ao desfile dos carros de corsos, com as capotas arriadas e lindas meninas cantando e dançando para alegria do povo, que lançava confetes, serpentinas e jatos de lança-perfume.

 

Nós, os Carecas foi a marchinha de sucesso de 1942.

 

Vi blocos carnavalescos dos bairros desfilarem pelos três dias de festa, sendo o mais famoso o da Turma do Morro.

 

Era formado por filhos músicos e compositores do professor André Avelino, que mantinha escola no Morro da Prainha.

 

Havia mascarados e mascaradas pelo centro de Cuiabá.

 

Desfilavam as escolas de samba, sendo muito aplaudida a de Nhozinho, do Grande Terceiro.

 

Todas eram precedidas por crianças fantasiadas de índios, com seus apitos estridentes.

 

Ala de passistas, compositores, rei, rainha, mestre sala e bateria.

 

Os bailes aconteciam nos salões do Grande Hotel e do Clube Feminino.

 

Também eram animados os bailes do Bar Colorido, de dona Maria de Umbelina, atrás da igreja do Senhor do Passos.

 

Passei onze anos distante de Cuiabá.

 

Quando retornei, o carnaval já era outro. Mudaram as músicas, mudaram os cenários, mudaram as pessoas.

 

Mas, dentro de mim, continuava a tocar aquela velha marchinha que uniu meus pais.

 

O carnaval passou.

 

A memória ficou.

 

Gabriel Novis Neves

14-02-2026






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