A carta ficou sobre a mesa por dias.
Li mais de uma vez, dobrei com cuidado e deixei ali.
Não era difícil responder, mas também não era simples.
O silêncio acabou ocupando o lugar da resposta.
Às vezes, não é falta de palavras.
É excesso de sentimentos misturados.
O tempo passa, e a carta continua esperando, como quem entende a demora.
Durante muitos anos escrevi e recebi cartas no período em que vivi no Rio de Janeiro, estudando Medicina.
Com o retorno à minha cidade natal e o surgimento de novas tecnologias de comunicação, deixei de escrever cartas.
Sempre respondi a todas, com satisfação.
Entretanto, houve uma que, por covardia ou imaturidade, não respondi.
E o silêncio foi a resposta.
Muito tempo depois, a portadora da carta me telefonou.
Nossas vidas seguiram caminhos opostos, em cidades diferentes.
E ninguém comentou sobre a carta não respondida.
Também não sei se a pessoa que escreveu ainda está entre nós.
Tive dificuldade, entre centenas, em escrever uma carta para a minha mãe.
Mas ela leu e respondeu.
Até hoje, agradeço por isso.
As cartas que recebi vinham impregnadas de sentimentos.
E lidar com sentimentos é mexer com emoções.
Lembro até hoje da carta que não respondi e penso que, naquele momento, o meu silêncio talvez tenha sido a melhor resposta.
Essa carta fiz questão de não guardar, embora na minha biblioteca existam algumas cartas históricas que também não respondi.
Achei difícil respondê-las, por envolverem religiosidade e política partidária.
Essas cartas, um dia, poderão se alojar no Núcleo de Documentação Histórica Regional.
Ali, estudiosos e pesquisadores encontrarão elementos de uma fase da história moderna do Brasil, sem fantasias.
Grandes mitos poderão ser compreendidos em sua intimidade ideológica, revelados por meio de cartas simples.
Já o restante da nossa história recente corre o risco de se perder, dissolvido na oralidade e no esquecimento.
Gabriel Novis Neves
09-02-2026
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