quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

CARTAS SEM RESPOSTA


A carta ficou sobre a mesa por dias.

 

Li mais de uma vez, dobrei com cuidado e deixei ali.

 

Não era difícil responder, mas também não era simples.

 

O silêncio acabou ocupando o lugar da resposta.

 

Às vezes, não é falta de palavras.

 

É excesso de sentimentos misturados.

 

O tempo passa, e a carta continua esperando, como quem entende a demora.

 

Durante muitos anos escrevi e recebi cartas no período em que vivi no Rio de Janeiro, estudando Medicina.

 

Com o retorno à minha cidade natal e o surgimento de novas tecnologias de comunicação, deixei de escrever cartas.

 

Sempre respondi a todas, com satisfação.

 

Entretanto, houve uma que, por covardia ou imaturidade, não respondi.

 

E o silêncio foi a resposta.

 

Muito tempo depois, a portadora da carta me telefonou.

 

Nossas vidas seguiram caminhos opostos, em cidades diferentes.

 

E ninguém comentou sobre a carta não respondida.

 

Também não sei se a pessoa que escreveu ainda está entre nós.

 

Tive dificuldade, entre centenas, em escrever uma carta para a minha mãe.

 

Mas ela leu e respondeu.

 

Até hoje, agradeço por isso.

 

As cartas que recebi vinham impregnadas de sentimentos.

 

E lidar com sentimentos é mexer com emoções.

 

Lembro até hoje da carta que não respondi e penso que, naquele momento, o meu silêncio talvez tenha sido a melhor resposta.

 

Essa carta fiz questão de não guardar, embora na minha biblioteca existam algumas cartas históricas que também não respondi.

 

Achei difícil respondê-las, por envolverem religiosidade e política partidária.

 

Essas cartas, um dia, poderão se alojar no Núcleo de Documentação Histórica Regional.

 

Ali, estudiosos e pesquisadores encontrarão elementos de uma fase da história moderna do Brasil, sem fantasias.

 

Grandes mitos poderão ser compreendidos em sua intimidade ideológica, revelados por meio de cartas simples.

 

Já o restante da nossa história recente corre o risco de se perder, dissolvido na oralidade e no esquecimento.

 

Gabriel Novis Neves

09-02-2026




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