Há números que nos escapam de propósito — talvez por humildade, talvez por distração.
Escrevo crônicas há dezesseis anos e nunca me importei com a contagem exata.
Prefiro dizer ‘quase’, ‘aproximadamente’, como quem mede o tempo não em cifras, mas em lembranças.
Estamos no fim de mais um ano, e percebo que repeti o velho erro.
O editor do Bar do Bugre, também responsável pelo GNN-CULTURA, me avisou: já são 4.000 crônicas.
No Bar do Bugre contam-se 3.944, com a publicada hoje.
Faltam apenas 56 para o novo marco.
Se fossem reunidas em livros, dariam quarenta volumes — cem crônicas cada.
Um belo currículo para quem jamais publicou um livro impresso.
Mas, pensando bem, não estarão ali, nessas quatro mil crônicas, as minhas memórias e a minha biografia?
Cada texto é um retrato, uma lembrança, uma conversa com o tempo.
Não me seduz a ideia de noites de autógrafo, editoras e dedicatórias.
O esforço e os recursos que exigem um livro já não me atraem.
Prefiro a liberdade dos ‘pedacinhos’ literários — as crônicas — sem prazo, sem ordem, sem pressa.
Não sou nenhum ‘bobó cheira-cheira’ para ignorar o que fiz pela educação e pelo desenvolvimento social do meu Estado.
Ajudamos a dividir o poder político do antigo Estado curral do pantanal — e tudo isso está registrado nas crônicas.
Talvez o meu maior legado seja não depender de ninguém.
Nasci num tempo em que o destino era herdado: o filho do sapateiro seria sapateiro, o do engraxate, engraxate, o do charreteiro, charreteiro, o do dono de bar, dono de bar, e o do médico, médico.
Trabalhei para quebrar essa corrente de profissões hereditárias.
E o que vivi não precisa de páginas encadernadas — já está escrito no vento das palavras diárias.
O meu livro está aberto e quem o quiser ler, que leia as crônicas.
Nelas está o que fui, o que vi e o que vivi.
Gabriel Novis Neves
08-11-2025
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