sábado, 8 de novembro de 2025

A CONTA CERTA

 

Há números que nos escapam de propósito — talvez por humildade, talvez por distração.

 

Escrevo crônicas há dezesseis anos e nunca me importei com a contagem exata.

 

Prefiro dizer ‘quase’, ‘aproximadamente’, como quem mede o tempo não em cifras, mas em lembranças. 

 

Estamos no fim de mais um ano, e percebo que repeti o velho erro.

 

O editor do Bar do Bugre, também responsável pelo GNN-CULTURA, me avisou: já são 4.000 crônicas.

 

No Bar do Bugre contam-se 3.944, com a publicada hoje. 

 

Faltam apenas 56 para o novo marco.

 

Se fossem reunidas em livros, dariam quarenta volumes — cem crônicas cada.

 

Um belo currículo para quem jamais publicou um livro impresso.  

 

Mas, pensando bem, não estarão ali, nessas quatro mil crônicas, as minhas memórias e a minha biografia?

 

Cada texto é um retrato, uma lembrança, uma conversa com o tempo.

 

Não me seduz a ideia de noites de autógrafo, editoras e dedicatórias.

 

O esforço e os recursos que exigem um livro já não me atraem.

 

Prefiro a liberdade dos ‘pedacinhos’ literários — as crônicas — sem prazo, sem ordem, sem pressa.

 

Não sou nenhum ‘bobó cheira-cheira’ para ignorar o que fiz pela educação e pelo desenvolvimento social do meu Estado.

 

Ajudamos a dividir o poder político do antigo Estado curral do pantanal — e tudo isso está registrado nas crônicas.

 

Talvez o meu maior legado seja não depender de ninguém.

 

Nasci num tempo em que o destino era herdado: o filho do sapateiro seria sapateiro, o do engraxate, engraxate, o do charreteiro, charreteiro, o do dono de bar, dono de bar, e o do médico, médico.

 

Trabalhei para quebrar essa corrente de profissões hereditárias.

 

E o que vivi não precisa de páginas encadernadas — já está escrito no vento das palavras diárias.

 

O meu livro está aberto e quem o quiser ler, que leia as crônicas.

 

Nelas está o que fui, o que vi e o que vivi.  

 

Gabriel Novis Neves

08-11-2025



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