Mesmo vazia, ela conserva ecos de risadas, conselhos e vaidades de outras épocas.
A barbearia é um daqueles lugares que continuam vivos, mesmo depois que as vozes se calam.
Sempre gostei de frequentar esses salões.
Seus melhores profissionais estavam concentrados no Rio e em São Paulo, e geralmente eram portugueses.
Encontrei alguns bons profissionais em Brasília: nordestinos que se aventuraram na nova capital e se deram bem.
Esses fatos ocorreram há cinquenta e cinco anos, quando era chique os homens pintarem as unhas com esmalte neutro.
Com a globalização, os salões de barbeiros — hoje mais chamados de cabelereiros unissex — mantêm a mesma eficiência e qualidade.
Os homens de hoje parecem mais vaidosos que os de antigamente e gastam uma fortuna para serem atendidos.
Muitos escondem os fios brancos, pintando-os.
Artistas e jogadores de futebol descolorem os cabelos e inventam cortes cada vez mais ousados.
Com a mania de jovens e adultos, usarem bigodes, cavanhaques e barbas — como na época do Império dos Barões —, o ambiente das barbearias mudou completamente.
Aquele ar sonolento das barbearias da rua do Meio foi substituído pelos burburinhos dos tempos atuais, onde os bons salões ficam nos shoppings.
Quando, em 1970, estávamos iniciando o projeto de implantação da nossa Universidade Federal, eu recebia sempre a visita de muitos técnicos do Ministério da Educação.
Um deles, recém-chegado da Europa, com pós-doutorado em letras e sociologia, aconselhou-me a não cortar mais o cabelo em Cuiabá.
Da próxima vez que eu fosse a Brasília, que o procurasse: ele me levaria a um bom cabelereiro, que segundo ele, daria um jeito no meu corte de cabelo.
Justificou dizendo que eu precisava melhorar a minha fisionomia de ‘matuto do interior do Brasil’.
Em Brasília, afirmava ele, quem não tivesse uma ‘cara boa’, não teria sucesso nas necessárias reivindicações.
Ora, a nossa Universidade nem orçamento tinha!
Então, apelei para o salão do barbeiro que cortava cabelos com tesoura de ouro, recomendado por ministros e até pelo Presidente de República.
Gabriel Novis Neves
18-11-2025

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