quarta-feira, 4 de novembro de 2026

RUAS ENFEITADAS PARA A PROCISSÃO


Na Cuiabá da minha infância havia dias em que as ruas pareciam vestir roupas de festa.

 

Eram os dias das grandes procissões religiosas, quando a cidade se preparava para receber a passagem dos santos, numa demonstração coletiva de fé e respeito.

 

As fachadas ganhavam cuidados especiais.

 

Bandeirolas atravessavam as ruas, os meios-fios recebiam caiação e as janelas permaneciam abertas, enfeitadas com toalhas brancas bordadas e vasos de flores.

 

O menino que fui acompanhava, encantado, aquela transformação.

 

Quando surgiam a cruz, os acompanhantes e a imagem do santo, o movimento diminuía, as conversas silenciavam e os moradores manifestavam sua devoção.

 

Por alguns instantes, a rua deixava de ser rua e se transformava numa igreja a céu aberto.

 

De todas, guardo especial lembrança da procissão de Corpus Christi, quando flores enfeitavam o caminho por onde passaria o Santíssimo Sacramento.

 

O tempo passou e a cidade cresceu.

 

A pequena Cuiabá de vinte mil habitantes transformou-se numa capital populosa, espalhada por bairros distantes e condomínios cercados de altos muros.

 

O antigo centro histórico, onde nasci e cresci, perdeu moradores, movimento e parte de sua antiga convivência.

 

As igrejas permaneceram, mas as procissões já não percorrem com a mesma frequência, aquelas ruas que conheci.

 

Hoje, muitos fiéis chegam de automóvel, vindos de bairros distantes.

 

Até as avós precisam atravessar a cidade para transmitir aos netos os ensinamentos religiosos que receberam na infância.

 

A fé permanece embora seus caminhos tenham mudado.

 

E eu continuo guardando, entre as lembranças mais bonitas da minha Cuiabá, aquelas ruas floridas por onde a fé passava devagar.

 

Gabriel Novis Neves

15-10-2026





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