Na Cuiabá da minha infância havia dias em que as ruas pareciam vestir roupas de festa.
Eram os dias das grandes procissões religiosas, quando a cidade se preparava para receber a passagem dos santos, numa demonstração coletiva de fé e respeito.
As fachadas ganhavam cuidados especiais.
Bandeirolas atravessavam as ruas, os meios-fios recebiam caiação e as janelas permaneciam abertas, enfeitadas com toalhas brancas bordadas e vasos de flores.
O menino que fui acompanhava, encantado, aquela transformação.
Quando surgiam a cruz, os acompanhantes e a imagem do santo, o movimento diminuía, as conversas silenciavam e os moradores manifestavam sua devoção.
Por alguns instantes, a rua deixava de ser rua e se transformava numa igreja a céu aberto.
De todas, guardo especial lembrança da procissão de Corpus Christi, quando flores enfeitavam o caminho por onde passaria o Santíssimo Sacramento.
O tempo passou e a cidade cresceu.
A pequena Cuiabá de vinte mil habitantes transformou-se numa capital populosa, espalhada por bairros distantes e condomínios cercados de altos muros.
O antigo centro histórico, onde nasci e cresci, perdeu moradores, movimento e parte de sua antiga convivência.
As igrejas permaneceram, mas as procissões já não percorrem com a mesma frequência, aquelas ruas que conheci.
Hoje, muitos fiéis chegam de automóvel, vindos de bairros distantes.
Até as avós precisam atravessar a cidade para transmitir aos netos os ensinamentos religiosos que receberam na infância.
A fé permanece embora seus caminhos tenham mudado.
E eu continuo guardando, entre as lembranças mais bonitas da minha Cuiabá, aquelas ruas floridas por onde a fé passava devagar.
Gabriel Novis Neves
15-10-2026


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