Cuiabá sempre teve uma intimidade antiga com o calor.
Um calor generoso, atrevido, que chega sem bater à porta e se instala como dono da casa.
Ultimamente, porém, parece que os termômetros resolveram disputar uma corrida para descobrir quem sobe mais.
Outubro chega com tardes sufocantes, ventiladores exaustos e aparelhos de ar-condicionado promovidos à condição de membros indispensáveis da família.
Mas nem sempre foi assim.
Na Cuiabá da minha infância, o calor parecia mais educado.
Dormíamos sem ventiladores ou aparelhos de ar condicionado, muitas vezes protegidos pelos cobertores das Casas Pernambucanas.
As casas de adobe, cobertas com telhas de barro, guardavam uma agradável frescura.
Os quintais arborizados impediam que o sol penetrasse com sua habitual valentia.
Os telhados avançavam sobre as calçadas, formando os conhecidos cachorrões, que protegiam as paredes do sol do meio-dia.
As ruas ofereciam sombras generosas, presentes gratuitos das árvores.
Depois, o progresso chegou trazendo cimento, asfalto e construções que expulsaram o verde. A cidade cresceu, mas perdeu parte de sua sombra.
Recordo minha escola primária, com enormes janelões abertos para o Jardim Ipiranga, onde as palmeiras imperiais ajudavam a refrescar nossas manhãs.
Mais tarde, frequentei o Colégio Estadual, recém-inaugurado, numa região chamada de Bosque, onde até o nome parecia prometer temperaturas mais amenas.
Naquele tempo, crianças acometidas de coqueluche eram levadas pelos pais, antes do amanhecer, para respirar o ar fresco da madrugada, numa esperança de alívio.
Assim cresci, sem imaginar que um dia me tornaria prisioneiro do ar-condicionado.
Hoje, Cuiabá ganhou o apelido de Cuiabrasa, cidade onde o verão parece ter adquirido residência permanente.
Dizem que ninguém se acostuma verdadeiramente ao nosso calor.
Talvez seja verdade.
Mas desconfio que o calor não tenha aumentado sozinho.
Fomos nós que, derrubando as árvores, deixamos nossa velha Cuiabá sem o direito de procurar uma sombra.
Gabriel Novis Neves
23-10-2026

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