Na véspera das provas da faculdade de Medicina o silêncio parecia ganhar outro peso.
Não era um silêncio comum, mas aquele carregado de expectativa, ansiedade e responsabilidade.
Cada estudante se recolhia ao seu quarto como quem entra em um pequeno mundo próprio, cercado de livros abertos, cadernos marcados e pensamentos inquietos.
Era o momento em que tudo o que havíamos aprendido precisava se organizar dentro de nós.
Eu passava horas relendo páginas, tentando fixar conceitos e alinhar ideias.
Às vezes, o cansaço ameaçava vencer, mas a consciência do compromisso falava mais alto.
Sabíamos que aquelas provas não eram apenas avaliações — eram etapas decisivas na construção do futuro médico que sonhávamos ser.
Na pensão, os veteranos aconselhavam: era preciso varar noites estudando para evitar a temida segunda época.
Pior ainda seria a reprovação, que poderia levar ao jubilamento.
Entre conselhos e exageros, ensinavam até a recorrer a medicamentos vendidos na farmácia da esquina para afastar o sono.
Muitos colegas se deixaram levar por esse caminho.
Eu também experimentei essa dependência passageira, da qual só consegui me libertar ao final do curso —uma pequena vitória silenciosa, entre tantas batalhas pessoais.
A rotina era exigente.
Aulas pela manhã e à tarde, e, com o avanço do curso, os plantões noturnos se somavam à jornada.
Restava pouco tempo para estudar.
Nem domingos ou feriados eram suficientes.
A solução era reduzir o sono, reunir-se em grupos nas antigas repúblicas estudantis e seguir adiante.
Uma garrafa térmica de café preto sem açúcar, tornava-se companheira inseparável.
No meu grupo, nem namorada havia — era um pacto silencioso de dedicação integral.
Sabíamos que estávamos construindo algo maior do que o presente.
No meu caso a responsabilidade tinha ainda outro peso.
Como primogênito de uma família numerosa, precisava avançar rápido, abrir caminho para os que vinham depois.
Esse pensamento me acompanhava em cada noite mal dormida.
Tornei-me médico no tempo previsto.
Naquele momento, dois de meus irmãos já estudavam no Rio, pois Cuiabá ainda não possuía Universidade Federal.
Tudo havia valido a pena.
Gabriel Novis Neves
19-03-2026
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