Entre estudantes de Medicina era comum emprestar livros uns aos outros.
Nem todos tinham condições de comprar todos os volumes necessários.
Muitas vezes um colega avisava que havia conseguido um livro importante, e logo vários se organizavam para consultá-lo.
Eu mesmo recorri a muitos livros emprestados durante os anos de faculdade.
Aquela troca silenciosa de materiais mostrava como o espírito de cooperação ajudava a enfrentar as dificuldades do curso.
Na entrada lateral do prédio da Faculdade de Medicina, em frente ao restaurante universitário, havia um enorme salão.
O porteiro vestia terno e gravata e ostentava uma cabeleira branca, sempre bem tratada.
Quem não o conhecia imaginava tratar-se do próprio diretor da faculdade.
À esquerda do salão funcionava uma banca de engraxates e, logo adiante, um armário envidraçado onde Luís, o livreiro, expunha livros de Medicina que vendia aos estudantes.
Naquela época, Luís confiava plenamente nos alunos e facilitava o pagamento em várias prestações, sem juros nem correção monetária.
Tudo era combinado de palavra, sem recibo ou qualquer documento escrito.
O grande salão também servia como ponto de convivência.
Antes do início das aulas, os estudantes se espalhavam pelos bancos de concreto conversando e trocando impressões sobre as disciplinas.
Vez por outra, um professor se aproximava e participava da conversa.
Luís, o livreiro, era tão querido pelos estudantes que acabou se tornando merecedor de homenagens.
Quando algum pagamento atrasava, ele compreendia.
Sabia que muitos de nossos pais, lá no interior do Brasil, enfrentavam dificuldades financeiras e apenas aguardava com paciência.
O espírito de solidariedade entre os alunos também era marcante.
Recordo que um colega amazonense comprou de um bedel do laboratório de Anatomia um saco de ossos humanos e um cérebro conservado no formol, para estudar Anatomia Descritiva e Neuroanatomia.
Ele escondia o material no armário do quarto da pensão, longe dos olhos da dona da casa.
À noite reunia um pequeno grupo de colegas e, com a porta trancada, estudávamos aquelas peças anatômicas com grande interesse.
Essa solidariedade entre estudantes nos acompanhou durante os seis anos do curso.
Depois da colação de grau a turma se dispersou pelo vasto território brasileiro.
Mas algumas lembranças permanecem vivas — como aqueles livros emprestados que ajudaram a formar médicos e amizades.
Gabriel Novis Neves
16-03-2026
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