domingo, 29 de março de 2026

RECUSA DELIBERADA


Recusei um convite sem inventar desculpas. 

 

Apenas disse que não queria ir. 

 

No passado, teria aceitado por obrigação. 

 

Hoje aprendi a preservar minha energia. 

 

Dizer ‘não’ também é um ato de cuidado —consigo mesmo e com o tempo que ainda nos resta. 

 

Até hoje tenho dificuldade em negar pedidos. 

 

Não por covardia, mas por educação, talvez pelo excesso de consideração com o outro. 

 

Ao longo da vida, porém, também recebi muitos ‘nãos’. 

 

Alguns passaram sem marcas; outros ficaram gravados na memória. 

 

O mais duro veio do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, em resposta a um ofício do governador Fernando Correa da Costa, ambos do mesmo partido. 

 

 O Estado de Mato Grosso ainda era uno quando foi criada a Fundação de Saúde de Mato Grosso — a FUSMAT — com o objetivo de agilizar os serviços de saúde no Estado. 

 

Eu era médico concursado e estável do governo da Guanabara. 

 

Em conversas na calçada da casa de meus pais, Fernando Correa disse à minha mãe que precisaria de mim na nova fundação. 

 

Recebi o recado com emoção. 

 

Expliquei que só poderia retornar se fosse colocado oficialmente à disposição do governo mato-grossense. 

 

Depois de idas e vindas ao Palácio Guanabara, o secretário mostrou-me o despacho de Lacerda: um grande X sobre o pedido e a frase seca — 

 

 ‘Quem não quiser trabalhar, demita-se’. Assinado: Carlos Lacerda! 

 

Antes que eu tomasse qualquer decisão, o destino interferiu. 

 

Era terça-feira, plantão no Hospital Souza Aguiar, equipe Cata-Preta. 

 

Tomávamos café quando o alto falante chamou Augusto Paulino Neto e a mim ao gabinete do diretor, Brito Cunha. 

 

Recebeu-nos armado, visivelmente tenso. 

 

Era 31 de março de 1964. 

 

Fomos designados, por ‘merecimento’, para integrar o hospital de campanha montado dentro do Palácio Guanabara, destinado a proteger o próprio governador, ameaçado por tropas que pretendiam invadi-lo. 

 

O resto pertence a história do Brasil. 

 

Aprendi então que a vida às vezes decide por nós. 

 

E que certos ‘nãos’ apenas mudam o caminho nunca o destino. 

 

Gabriel Novis Neves 

30-03-2026




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