segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Pensando bem

Tem razão o ex-guerrilheiro, e atual Chefe de Comunicação Social do governo Federal, ao propor o controle da mídia. Acertou em cheio.

Esse controle, ou mordaça como dizem os opositores, talvez seja o projeto mais importante do governo findante.

Na verdade é um projeto tão abrangente, que com certeza ajudará, e muito, os pais na educação dos seus filhos. O noticiário, mesmo com a taxa de zelo paga religiosamente em dia pelo governo, deixa escapar notícias que, com o controle proposto, jamais sairiam das redações.

Como explicar a um filho as recentes notícias sobre Sílvio Santos e a sua viagem ao Palácio do Planalto?

Todas as crianças conhecem o homem que distribui aviãozinho de dinheiro ao seu auditório, assim como conhecem o pai do PAC. Encontro de celebridades é um acontecimento normal.

O complicado para um pai é responder certas perguntas feitas agora pelos seus filhos.

- Pai, eu não sabia que o dono da televisão possui também um Banco. E tem como sócio a Caixa Econômica Federal.

- A Caixa não é nossa?

- Pai, aquela bolinha de papel jogada na careca do candidato da oposição, custou dois bilhões e meio de reais? Ouvi essa notícia na escola. Quem contou para a classe foi a professora de Civismo.

- Pai, todo mundo de lá (Brasília) sabia do rolo não é? Porque só depois das eleições é que nós ficamos sabendo?

- Ouvi falar que só o artista da televisão é o culpado pelo desaparecimento do dinheiro do seu Banco e da Caixa Econômica Federal. Quer dizer que ele está ferrado não é?

- Pai, e os outros que sabiam e ficaram na moita, foi por causa da bolinha de papel? Ou tem mais?

Como vêem, está difícil educar um filho com esses exemplos sendo divulgados.

Bandidos e ladrões existem em todo o mundo, desde que mundo é mundo. A grande diferença que existe é que neste país não se pune ninguém - a não ser ladrão de galinha.

Conversando com os meus botões, cheguei à conclusão que a culpa pela dificuldade de se bem educar um filho é da imprensa que divulga esses fatos.

Hummmmm! Pensando bem, o zeloso patriota da Comunicação Social está coberto de razões ao propor o controle da imprensa.


Gabriel Novis Neves (7.5+129)

12-11-2010

domingo, 28 de novembro de 2010

RESSACA

Dois feriadões em quinze dias produziram em mim a sensação de uma grande ressaca. Fiquei confuso com relação aos dias da semana. Estava me preparando para os afazeres de certo dia, quando fui alertado pelo cuidador do meu irmão - ele conhece toda a minha rotina – do equívoco.

Antes ele não tivesse me avisado! Não estava psicologicamente preparado para viver o pós-feriadão desse jeito. O descondicionamento mental não é fácil, ainda mais na minha idade onde a máquina cerebral já apresenta alterações próprias de enferrujamento.

Queria mais era fugir da encrenca em que me meti. Queria ir para o trabalho para fugir das furadeiras, martelos, perfuradoras, gesso, pó branco, e todos esses irritantes apetrechos que invadiram meu apartamento. E no meio dessa confusão toda, perdi o meu bom humor.

Estou verdadeiramente desolado! Minha casa está de pernas para o ar. Lembro-me de uma velha tia reclamando que, sempre quando a visitávamos, a casa ficava de pernas para o ar. Agora eu entendo o sentimento da minha tia.

O cenário atual da minha casa é de deixar qualquer um louco. Móveis encapuzados e fora do lugar, quadros arriados das paredes, tapetes enrolados no corredor do meu quarto de dormir. Como se não bastasse esta desordem irritante, fico tropeçando em pedreiros, gesseiros e pintores. O pior é que todo este cenário não tem data certa para a conclusão.

De manhã, logo que acordo, a primeira coisa que faço é sair apalpando o gesso molhado, implorando a sua colaboração para que mude logo de cor - para o branco da secura. Pelo menos certeza teria de um prognóstico do final dos serviços.

Este impulso de apalpar gesso úmido é parecido com o gesto de uma mãe apalpando a testa do seu filho para saber se a febre acabou.

Diante da minha inquietação, tento me consolar: fui eu o causador de toda essa lambança. Mas, como dizem que o acaso não existe, e que ele é responsável por muitas descobertas, fico consolado. Descobri uma coisa, para mim muito importante: se não fizesse este serviço, perderia, para o calor insuportável e desumano, a companhia da minha família no almoço de final de semana.

Ficaria igual político em fim de mandato: almoçando sozinho. Prefiro uma reforma com todos os seus contratempos a uma solidão motivada pelo calor da minha cidade.

Os aborrecimentos são passageiros assim como a sensação de uma ressaca de um feriadão.


Gabriel Novis Neves (7.5+133)

16-11-2010

sábado, 27 de novembro de 2010

Overdose

Sem querer fui vítima de uma overdose de cuidados terapêuticos. Nesta reta final de chegada para todos os seres viventes, tenho plena consciência da fragilidade física, mental e emocional que os cerca. Outro aspecto é a dependência de terceiros que, em muitas das vezes, eles são obrigados a se submeterem para garantir um pouco de conforto e amparo. Não quero ficar dependente de terceiros.

Para tanto e para preservar a minha qualidade de vida conto com o apoio, amizade e dedicação de uma “legião” de colegas - a maioria meus ex-alunos.

São os especialistas: médicos que sabem tudo dos órgãos e da alma dos seres humanos.

Como tenho amigos “Fuxiqueiros” vou poupá-los da preocupação de fofocar na padaria a especialidade dos colegas que me acompanham nessa caminhada.

Na relação de consultores tenho: Clínico Geral, Otorrino, Analista, Cardiologista, Urologista, Oftalmologista, Gastroenterologista, Ortopedista Endocrinologista, Angiologista, Neurologista e Dermatologista.

Na retaguarda, especialistas em imagens e bioquímica do sangue.

Sou ao mesmo tempo paciente e coordenador geral dos especialistas. Traduzindo, sou o meu médico.

Dia desses, após ficar uma semana observando em mim uns sintomas, não tão graves, mas bastante desagradáveis - que não conto aqui para não ser também desagradável – resolvo fazer uso de uma medicação indicada por mim mesmo. Além disso, fiz uma inovação no horário do uso da droga.

Muito bem. Mais uma semana se passou e nada dos desconfortos desaparecerem. Suspendi o uso do fármaco. Os efeitos colaterais eram mais perturbadores do que os sintomas que me levaram ao seu uso. Marquei então uma consulta com o colega especialista.

A consulta foi mais uma oportunidade para um agradável bate-papo, do que propriamente para sanar o meu problema. Explico: os sintomas desagradáveis tinham desaparecido. Que alívio!

Estava certo quem afirmou que “não há mal que sempre dure.” Complemento dizendo: “ainda mais se parar de tomar um medicamento que produza efeitos colaterais!”


Gabriel Novis Neves (7.5+127)

10-11-2010

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A TARA DOS PREFEITOS

Desde que Cuiabá existe, uma das preocupações daqueles que administraram e administram esta terra foi com o abrigo para os passageiros do transporte coletivo.

Bem antigamente, nos tempos dos meus avós, a parada dos passageiros que esperavam condução - os cavalos e as charretes - era embaixo dos mangueirais e árvores frondosas. Os passageiros eram transportados para locais geralmente muito distantes. As pequenas e médias distâncias eram feitas a pé.

Com o crescimento da cidade, as antigas e longínquas chácaras da pequena vila foram sendo transformadas em bairros. Os casarões em edifícios. Os mangueirais e as árvores frondosas engolidas pelo “progresso”. Só sei que, de quatro em quatro anos, os nossos alcaides têm como projeto prioritário a construção de um novo modelo de abrigos para passageiros usuários do transporte de massas.

Conheci outro dia o modelo 2010/2011. Um horror! A criatividade de quem elabora semelhantes projetos é, no mínimo, um deboche. Acho que se julgam originais, quando na verdade estão sendo ultrajantes e desconcertantes. Servirá muito bem de cenário para fotografias de turistas. Também será um lugar ideal para a venda de drogas. Mas, como abrigo de passageiros não serve, pois a sua capacidade protetora mal dá para cinco pessoas.

Já topei com alguns instalados em ruas sem muito movimento de transportes coletivos. Um deles foi estrategicamente colocado nas proximidades da nova Arena Pantanal. Com certeza servirá de encantamento aos milhares de estrangeiros que aqui estarão na Copa do Mundo.

E o conforto para os nossos trabalhadores? Nem pensar! Continuarão apinhados nos pontos de parada dos ônibus, sofrendo com o sol e a chuva.

Esta nova versão para abrigos de passageiros servirá somente para provar aos turistas que tudo é possível - inclusive construir abrigos virtuais.


Gabriel Novis Neves (7.5+88)

02-10-2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Comparação

No século passado nossos educadores ensinavam que um erro não justifica outro. Mas, isso era coisa do século passado. O mundo evoluiu, e muito.

Não existe mais a crença de comunistas que comiam criancinhas. O muro de Berlim foi derrubado. O partidão é sigla dos milionários. A Europa tem uma moeda mais valorizada que o dólar. Os Estados Unidos são governados por um negro com doutorado em Harvard. O Brasil não é mais campeão do mundo em futebol. O homem, após a conquista da lua, brinca no espaço. As guerras continuam, agora com tecnologia de ponta. Não existem mais tropas de cavalaria. A religião apresenta tantas subdivisões que nem o Google é capaz de fornecer com exatidão o número delas. Também é muito fácil abrir uma igreja. Não existe burocracia alguma. No século XXI é comum homem casar com homem e mulher casar com mulher e adotarem uma criança como filho.

Só não mudou do século passado para cá a conduta dos nossos políticos, tão bem retratada na modinha musical Caixinha, de Juca Chaves.

Um erro não justifica o outro. A modernidade também deixou sua marca nesse velho ditado. Conseguiu, “à força” de muitas maracutaias, transformá-lo em: eu roubei, mas quem não rouba? O Brasil virou uma república (!) onde tudo é permitido politicamente. Não se defende mais a honra atingida por uma calúnia. Lança-se outra calúnia sobre o adversário. Aliás, alguém ainda se lembra o que vem a ser honra política?

Este é o país que construímos e que deixaremos de herança às futuras gerações. O reinado da promiscuidade de costumes e do trato do dinheiro público como privado. Tudo é permitido neste país tropical!

A comparação de erros como defesa é simplesmente insustentável. Antes do advento das comparações, as defesas eram mais explícitas e contundentes. Quem não se lembra do Rouba, mas faz? Ou de outra mais recente: Estuprar pode. Matar não. O “Nada a declarar” dos governos militares foi substituído pelo atual – “Eu não sabia de nada”.

Quando alguém é flagrado participando de um delito, não se preocupa em se defender. A moda é comparar com algum delito cometido por outros. Essa estratégia das nossas autoridades de não esclarecimento das dúvidas da população e o uso da comparação deixa a seguinte impressão: todos os políticos são bandidos. Tudo farinha do mesmo saco.

Queremos esclarecimentos e não comparações. Somos roubados nas privatizações, na cumplicidade com bancos falidos, nos precatórios, nas concorrências públicas ou pregões, e o pior, com o dinheiro sujo sendo transportado, em meias, cuecas, bolsas, quando não levado para o exterior. Nós só sabemos que estamos sendo roubados de maneira deslavada e sem o mínimo pudor.

A forma como concessões políticas são feitas nesta nação, não sei não... O Estado brasileiro corre o risco de se transformar num verdadeiro aparelho político com duzentos milhões de passageiros. Perdurando esse quadro cinzento de comparações, serei levado a crer que este país estará politicamente condenado à morte.

Ah! Mundo cão esse de comparações!


Gabriel Novis Neves (7.5 + 34)

09-08-2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

SUSTO!

Estava com um cajado matando dois coelhos. Tomava o meu café da manhã e assistia pela televisão ao noticiário. Ouço uma notícia que me fez desistir do café. A reportagem informava que a nossa Assembléia Legislativa gastava proporcionalmente mais, em recursos financeiros, do que a de São Paulo. Só um detalhe: São Paulo, além de ser o mais rico e populoso estado do Brasil, possui o quádruplo do número de deputados de Mato Grosso.

A Assembléia Legislativa não é nenhuma Casa da Moeda. Não fabrica o dinheiro que necessita. O dinheiro é repassado pelo Governo do Estado – e bota dinheiro nisso! Agora, pelo montante repassado, o Governo Estadual deve ter a Assembléia Legislativa em alta conta, prioridade mesmo! Supervalorizada! A Assembléia humildemente aceita o dinheiro. Para outros setores, especialmente educação e saúde, são repassados percentuais de recursos inferiores aos que manda a Constituição Brasileira. Uma lástima!

O Poder Executivo repassa migalhas para a educação, e o resultado está aí para nos humilhar. O Estado do maior repasse para o Legislativo ocupa a vergonhosa 22ª posição em termos de educação – conforme nos informa recente teste educacional. Damos pouco valor à educação, e “os pais de alunos em escolas públicas estão satisfeitos com o que seus filhos recebem ali”.

Infelizmente não há nenhum indicativo de que a nossa educação vá melhorar. Os generosos recursos públicos repassados não são suficientes para melhorar a nossa educação. Enquanto isso o Estado continuará formando, em todos os níveis, analfabetos funcionais. Somos campeões mundiais nessa “especialidade.”

Esta é a dura realidade da nossa educação. Aliás, sei que não estou falando nenhuma novidade.

Não é a primeira vez - e com certeza não será a última – que abordo esse assunto. Podem até me chamar de repetitivo, mas não consigo controlar a minha repulsa e indignação frente a essas notícias! Eu considero um verdadeiro deboche para com a população. E, de tão sofrida, a população do meu Estado deveria merecer por parte dos governantes um pouquinho mais de respeito. Mas, não. Querem porque querem provar que a educação vai muito bem, obrigado - isto sem falar da saúde. Esperam que a população engula, e acredite, que a nossa precária educação melhorou muito nos últimos anos. Os indicadores de convencimento utilizados pelo governo são, sempre, físicos. E haja ladainha numerológica, referindo-se ao aumento de salas de aula e professores. Citações que as escolas, na maioria, possuem quadras de esporte cobertas. Que possuem computadores. Que não existe nenhuma criança fora da sala de aula. Para o governo, esses dados são sinalizadores de que a nossa educação melhorou e avançou, omitindo até mesmo o crescimento populacional e de impostos, no Estado. Mas, quão longe estamos dessa realidade!

Precisamos urgentemente da generosidade concedida pelo Governo ao Poder Legislativo. Enquanto a carreira do professor for bico, a nossa educação, com relação a sua melhoria, será apenas, e tão somente, meros dados estatísticos desmoralizados. O professor valorizado é sinal de qualidade de ensino. A promoção automática do aluno no ensino fundamental deveria ser como manda a lei e não como está sendo feita. Isso implicará em aumentar salas de aulas e contratações de professores.

E a questão dos repasses, hein? Como é que fica?


Gabriel Novis Neves

22-11-2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Responsabilidade

Ao pegar no armário uma agenda nova, daquelas de duzentas folhas e do tamanho de um caderno, me dei conta da responsabilidade que assumi comigo mesmo em 2010. Já era a terceira agenda que iria usar.

Publico um artigo por dia, mas tem dias que escrevo mais de um. E antes que me perguntem, eu confesso: escrevo primeiro na agenda, depois é que digito. Gosto dessa intimidade com a caneta. Tenho, portanto, um bom estoque no meu almoxarifado.

Gosto de escrever artigos atemporais. Eles ficam por vezes no depósito por longo tempo - aguardando uma oportunidade, ou não, de serem conhecidos. Muitos são abortados, ou ficam somente para os meus olhos.

Já aqueles referentes a fatos atuais exigem uma publicação imediata. Diante da exuberância do nosso dia a dia, são os da preferência para a publicação.

Nesse trabalho de fotógrafo lambe-lambe das coisas da minha cidade, a agenda é um instrumento importante. Ela está sempre debaixo do meu braço nos meus deslocamentos. Sempre anoto na minha inseparável agenda o que vejo de interessante para não esquecer. São meros rabiscos daquilo que será, ou não, convertido em artigo na tela do computador.

Com o preenchimento das duas agendas, me assustei sabendo que terei ainda quase cinqüenta dias para encerrar o ano.

Será que nessa afoiteza de escrever sem parar não pioro a qualidade da produção? É o que às vezes me pergunto. Por isso nem gosto de ler o que já escrevi e publiquei. Tá feito. Mas, sinto uma necessidade acumulada de desabafo que preciso drenar do meu inconsciente. É uma terapia.

Seja qual for o motivo, escrevo. Gosto também saborear uma longa e interminável conversa. Na comunicação escrita uma incompreensão pode originar um desconforto entre o leitor e o autor. Dificilmente uma conversa termina mal, um artigo, por vezes, sim.

Enfim, sinto necessidade e gosto muito de escrever. Escrevendo, discuto antigos problemas crônicos da nossa sociedade, narro o encantamento que a natureza me proporciona, conto casos que presenciei e que achei interessante, falo da beleza ou da feiúra do ser humano – da alma, bem entendido. Escrevo até quando não tenho assunto – caso do presente artigo.

Vou procurar me conter, para não preencher a terceira agenda ainda este ano.


Gabriel Novis Neves (7.5+134)

17-11-2010