sábado, 10 de janeiro de 2026

O PRAZER DE ENCERRAR O DIA CEDO


Dormir cedo não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria acumulada.

 

A profissão de médico me deve muitas horas de sono, horas em que estive acordado trabalhando enquanto o mundo dormia.

 

Foram noites seguidas, dos vinte e três aos oitenta anos, quando me aposentei como médico parteiro e plantonista da Maternidade de Cuiabá, do Hospital Universitário e da Clínica Femina.

 

Hoje, abuso do prazer de dormir cedo, com a certeza tranquila de que o telefone não irá tocar no meio da madrugada para aparar uma criança que chega com pressa ao mundo.

 

Durmo cedo para tentar compensar as horas de sono que não dormi ao longo da vida.

 

Deito-me às oito da noite, não por obrigação, mas pelo simples prazer de não ter mais nada a fazer.

 

Acordo às oito da manhã, ainda com sono, como se o corpo quisesse prolongar esse descanso merecido.

 

Envio minhas crônicas pelas listas de transmissão e, com certa má vontade, depois da aferição dos meus sinais vitais pela cuidadora, faço o desjejum.

 

Vou ao escritório, ligo o notebook, leio as principais notícias e escolho um tema para escrever.

 

Duas vezes por semana interrompo o trabalho para os exercícios de fisioterapia pulmonar e geral.

 

Perguntei certa vez ao fisioterapeuta se algum de seus clientes gostava desses exercícios.

 

Sem hesitar, respondeu: não.

 

Todos reclamam.

 

Confesso que também reclamo.

 

São exercícios desagradáveis, mas necessários. Faço-os preventivamente, para evitar uma das grandes causas de morte entre os velhos: a pneumonia.

 

Após o almoço, retorno ao escritório até o crepúsculo.

 

Tomo banho, faço um lanche na cama e passo a contar os minutos para o melhor momento do dia: a hora de dormir.

 

Às oito da noite começo a me preparar.

 

A cuidadora me oferece uma xícara de café com leite e duas bananas maçãs.

 

Mede minha pressão arterial e ajusta a máscara do CPAP.

 

Viro para a direita e, pouco depois, o sono chega — trazendo comigo o prazer de encerrar o dia cedo.

 

Gabriel Novis Neves

08-01-2026




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