sábado, 30 de agosto de 2025

QUANDO O VIZINHO LIGA O SOM


Quando me mudei para o apartamento onde moro tive a sorte de ter como vizinho um simpático italiano.

 

Era um exímio cantor, dono de uma voz afinada, que adorava fazer serenatas, tão comuns na Cuiabá de outrora! 

 

Aos sábados, domingos e feriados, ligava seu aparelho de som em volume alto.

 

Ouvia e acompanhava, com sua voz de barítono, uma seleta coleção de músicas, principalmente italianas.

 

As paredes da minha sala de visitas chegavam a tremer com o som poderoso.

 

Eu e minha mulher adorávamos aqueles shows gratuitos das manhãs de fim de semana.

 

Às vezes ele telefonava perguntando se estava incomodando com a bela voz que Deus lhe deu.

 

Pedíamos que continuasse, e chegávamos a encostar o rosto na parede para ouvir melhor.

 

Lembrei-lhe certa vez que, na noite em que cheguei a Cuiabá, em 31 de julho de 1964, acompanhado de minha mulher carioca, foi ele quem fez a serenata na casinha da rua Marechal Floriano.

 

Minha esposa acordou assustada, pois não conhecia aquele tipo de saudação.

 

Na Cuiabá antiga eram frequentes as serenatas, nas vozes de Bráulio, Romano Fava, Arnaldo Leite, Juarez Silva, com sax de China, Bolinha, Neurozito.

 

Essa Cuiabá solidária ainda encontrei no meu retorno à cidade natal para exercer a Medicina.

 

Vários profissionais liberais se reuniam em grupos para animar eventos importantes, religiosos ou sociais, e também nas manhãs de domingo, em suas casas ou chácaras no Coxipó da Ponte. 

 

Recordo-me de Zulmira Canavarros, compositora e pianista, e de sua filha Maria, cantora.

 

Lembro também de Tote Garcia, Odare Vaz Curvo, Nilson Constantino no violino; Hélio Japonês, João Feijão e Hermínio Pastel no violão, Bugrinho no bandolim, a turma do Morro, formada por irmãos músicos e compositores; e, claro, o Maestro Penha, inesquecível, polivalente em tantos instrumentos musicais.

 

Era uma cidade musical, onde quase todas as casas possuíam um piano — como o de Dunga Rodrigues, no Porto, e o de dona Maria Pommot, na cidade.

 

Mas essa tradição desapareceu com o progresso.

 

Dois sons ficaram gravados sempre na minha memória: o das teclas dos pianos e o ranger das cordas das redes, ecoando pelas calçadas.

 

Hoje, a filha do Romano Fava herdou o gosto pela música e vive cantarolando para a minha felicidade.

 

Bons tempos aqueles musicais!

 

Gabriel Novis Neves

27-08-2025


Conjunto Serenata:
Tote Garcia, Erminio, Vicente,
Namy, Gigo e Fioco


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