sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COMPLETANDO A VISITA


Com esta crônica completo a visita que fiz ao Hospital Central de Cuiabá.

 

Há lugares que visitei e que não cabem inteiros em uma única crônica.

 

São espaços que pedem retorno, não pela curiosidade da novidade, mas pelo peso do significado.

 

Alguns nos chamam de volta em silêncio, como se quisessem continuar a conversa iniciada na primeira visita.

 

O Hospital Central já nasceu com memória, com história e com esperança.

 

Voltar a ele será sempre reencontrar um sonho que venceu o tempo — um espaço onde a dignidade do cuidado se impõe ao sofrimento e onde a saúde se apresenta como gesto humano, antes mesmo de ser técnica.

 

A dimensão física impressiona.

 

São aproximadamente trinta e dois mil metros quadrados de área construída, abrigando duzentos e oitenta e sete leitos.

 

Destes, noventa e nove são pediátricos e cento e oitenta e oito destinados a adultos.

 

Há cento e noventa e um leitos de enfermaria e noventa e seis de cuidados intensivos, sendo sessenta de UTI.

 

O Centro Cirúrgico dispõe de dez salas cirúrgicas e de uma moderna sala híbrida com hemodinâmica.

 

O hospital conta ainda com sistema robótico para cirurgias minimamente invasivas, dois tomógrafos, dois aparelhos de ressonância magnética, equipamento de hemodinâmica diagnóstica, eletroencefalografia, oxigenação por membrana extracorpórea e um completo sistema de endoscopia.

 

Entre as especialidades previstas estão: cirurgia geral, digestiva, ortopedia, urologia, cirurgia oncológica, cirurgia vascular, cardiologia, neurocirurgia, hemodinâmica e cirurgia plástica reparadora.

 

No futuro, também estão previstos transplantes.

 

Registrei essas informações técnicas de propósito.

 

Elas não quebram a poesia do texto; ao contrário reforçam o orgulho de sermos cuiabanos.

 

Nossa cidade, tantas vezes esquecida, mostra que também sabe sonhar grande — e realizar.

 

Completar esta visita foi confirmar que o Hospital Central não é apenas um prédio moderno.

 

É um marco.

 

Um compromisso com a vida.

 

Gabriel Novis Neves

15-01-2026











quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

CONVITE HONROSO


Recebi e aceitei o honroso convite do governador Mauro Mendes para visitar o recém-inaugurado Hospital Central de Cuiabá.

 

Foi mais um sonho transformado em realidade.

 

O primeiro sonho teve início em 1808, em Vila Bela da Santíssima Trindade, quando se pensava no ensino de Medicina em Mato Grosso — idéia que só se materializou em 1980, dez anos após a criação da Universidade Federal de Mato Grosso.

 

Agora, realiza-se outro antigo anseio: o de um hospital público moderno, pensado há quarenta e cinco anos.

 

O Hospital Central, o mais belo que conheci, teve sua pedra fundamental lançada no governo Júlio Campos.

 

Percorreu o mandato de seis governadores e foi finalmente concluído por decisão firme do atual governador.

 

Ali encontramos o que há de mais moderno em arquitetura hospitalar, equipamentos tecnológicos e paisagismo.

 

A programação visual é digna do nosso poeta visual Vladimir Dias-Pino, onde a natureza se mistura à painéis gráficos e formas que acolhem o olhar.

 

Tudo foi pensado para o bem-estar físico e psíquico, rompendo com a antiga ideia de que hospital é apenas lugar de dor e sofrimento.

 

Há espaços amplos para descanso e espera dos acompanhantes.

 

Uma capelinha acolhedora, refúgio silencioso para os que têm fé.

 

Rampas generosas que conduzem aos andares superiores, servidas por elevadores inteligentes.

 

Auditórios confortáveis para palestras de visitantes ilustres e um centro de estudos integrado à comunidade médica local.

 

O hospital também servirá aos seminários das três faculdades de Medicina existentes e à Academia de Medicina.

 

Construído com o que há de melhor em tecnologia médica do país, será gerenciado pelo Hospital Albert Einstein, não apenas como referência técnica, mas sobretudo para garantir dignidade ao paciente do SUS.

 

O Hospital Central é mais um antigo pesadelo transformado em realidade.

 

Nossa cidade, com mais de trezentos anos de lutas, merece ser também uma cidade humanizada, que priorize a educação e a saúde para todos.

 

Como é belo o nosso Hospital Central!

 

Gabriel Novis Neves

14-01-2026




quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

MANIA DE EXPLICAR DEMAIS


Explicar demais às vezes revela insegurança. Outras vezes, é só excesso de zelo.

 

O detalhista cansa muito aquele que tenta conversar com ele.

 

Suas respostas são longas e desinteressantes.

 

Por outro lado, quem responde ao pé da letra, sem pensar, parece às vezes não dar importância ao assunto.

 

Explicar demais revela mais insegurança que excesso de zelo.

 

Todos nós conhecemos pessoas que têm a mania de explicar demais.

 

Isso é conhecido como ciscar, em que o assunto que interessa não é abordado.

 

O ciscador explica demais sem responder o que interessa.

 

Muitas vezes é deixado a sós e seus amigos fogem das suas conversas.

 

Percebo que essa mania costuma nascer do medo de não ser compreendido.

 

A pessoa se antecipa, acrescenta detalhes, cria atalhos e desvios, imaginando facilitar o caminho.

 

Acaba, porém, tornando a estrada longa demais.

 

Há que confunda explicação com convencimento.

 

Fala muito para se proteger, para evitar perguntas, para não deixar brechas.

 

O excesso de palavras vira um escudo.

 

E, como todo escudo pesado, cansa quem o carrega e afasta quem se aproxima.

 

Aprendi, com o tempo, que clareza não depende de quantidade.

 

Uma resposta curta pode ser profunda.

 

Uma frase simples pode conter mais verdade do que um discurso inteiro.

 

Silêncios bem colocados também explicam.

 

Na medicina, muitas vezes, o diagnóstico estava escondido numa frase breve do paciente, dita quase sem importância.

 

Quem fala demais, às vezes, encobre o essencial.

 

Quem fala pouco, revelava tudo.

 

Na vida cotidiana não é diferente.

 

Explicar menos exige segurança.

 

É confiar que o outro entende.

 

É aceitar que nem tudo precisa ser dito, repetido, reforçado.

 

Hoje, quando percebo que estou explicando demais, faço uma pausa.

 

Releio minhas palavras, corto excessos, retiro enfeites.

 

Procuro o núcleo da ideia.

 

Descobri que dizer apenas o necessário é um gesto de elegância.

 

E ouvir, sem interromper com explicações inúteis, é uma forma de respeito.

 

Gabriel Novis Neves

09-01-2025




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

CONSELHOS QUE NÃO DEI


Há conselhos que ficam engasgados na garganta, não por falta de coragem, mas por excesso de cuidado.

 

A gente aprende, com o tempo, que nem toda palavra ajuda e que o silêncio também pode ser uma forma de proteção.

 

Já dei muitos conselhos na vida, alguns acertados, outros nem tanto.

 

Mas este ficou guardado, dobrado como bilhete no bolso antigo.

 

Não foi omissão: foi respeito ao tempo do outro. Cada pessoa tem seu próprio caminho, suas quedas necessárias, suas escolhas inevitáveis.

 

O conselho que não dei talvez tenha sido o mais honesto de todos.

 

Outros conselhos que dei não foram aceitos e meio século depois constatei que estava errado — ou quase.

 

Na minha casa, apenas eu sou torcedor do Botafogo, o Glorioso.

 

Tenho dois irmãos torcedores do Flamengo e Fluminense, aceitando o meu conselho.

 

Meus filhos, neto e sobrinhos, não são torcedores do Botafogo.

 

Seus times têm mais títulos que o meu, mas, em compensação, tivemos o Garrincha — a alegria do povo.

 

Ele surgiu para o futebol no Botafogo e eu estava presente no Estádio de General Severiano, em março de 1953.

 

Mais tarde apareceu Pelé, no Santos.

 

Garrincha e mais três jogadores do Botafogo conquistaram a primeira Copa do Mundo para o Brasil, em 1958, na Suécia, ao lado de Pelé.

 

No Chile, em 1962, sem Pelé — machucado na primeira partida contra o México — Garrinha e mais quatro jogadores do Botafogo se consagraram bicampeões mundiais, vestindo a camisa canarinho.

 

Garrincha foi escolhido o melhor jogador da Copa.

 

Nessas duas conquistas não havia jogadores do Flamengo nem do Fluminense.

 

Outro troféu que só o Botafogo tem é o de ter fornecido o maior número de jogadores para a Seleção Brasileira.

 

Também teve jogadores artilheiros em duas Copas do Mundo: Garrincha e Jairzinho.

 

Perdemos as Copas de 1950 e 2014 em casa, com zagueiro e goleiro do Flamengo e atacante do Fluminense.

 

Afinal, vale a pena dar conselhos ou aceitá-los?

 

Gabriel Novis Neves

12-01-2026




segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

AINDA NÃO ME ADAPTEI


Escrevo diariamente um texto sobre o cotidiano, em média com trezentas palavras. Assino meu nome por inteiro e faço questão de datar cada crônica.

 

Uma leitora assídua, atenta até ao dia em que publiquei o texto, chamou-me a atenção para um detalhe curioso.

 

O pior é que, na crônica em que escrevi não ter pressa, fiz exatamente o contrário na prática: coloquei o ano de 2027.

 

Isso me levou a revisar outras crônicas publicadas neste início de ano.

 

Encontrei também datas de 2025.

 

Conclusão inevitável: ainda não me adaptei ao ano de 2026.

 

São esses pequenos detalhes que qualificam o escritor.

 

É preciso estar atento, sobretudo às coisas simples, como as datas, que silenciosamente denunciam nossas distrações.

 

Antigamente, a família se reunia para o almoço aos domingos.

 

Era ali que ficávamos sabendo das novidades e acompanhávamos o crescimento dos filhos e dos netos.

 

Vez por outra surgia uma visita não convidada, para nossa alegria, atraída pela fama do pastelzinho preparado pela Baixinha.

 

Com o tempo e as exigências do trabalho, esses almoços passaram para os sábados.

 

Mesmo assim, sempre falta alguém.

 

Como essa criançada viaja!

 

Ficarei quase um mês sem ver os meus bisnetos: a Bela, a Nina, o JG e a Vale.

 

Imagino como voltarão diferentes, impregnados de outras culturas.

 

As crianças do meu tempo eram bem diferentes das de agora.

 

Todas frequentavam a mesma escola pública, o mesmo postinho de saúde, a mesma igreja. Brincavam na mesma praça e todos esses trajetos eram feitos a pé.

 

As visitas às casas de parentes e às amigas da minha mãe aconteciam nos domingos à tarde.

 

Éramos todos iguais, e não nos faltava o essencial.

 

Como eu gostaria de datar esta crônica como se estivesse escrevendo em janeiro de 1946!

 

O diabo do tempo é que ele não volta atrás, e o que passou virou lembrança.

 

Curtir o passado é celebrar a inocência e um tempo sem maldade.

 

Resta-me apenas me adaptar ao presente — ao menos aprendendo a datar corretamente o ano em que vivo.

 

Gabriel Novis Neves

10-01-2026




domingo, 11 de janeiro de 2026

VISITAS INESPERADAS


Antes, visita não telefonava.

 

Chegava.

 

Batida de palmas no portão, conversa atravessada pela janela, cadeira puxada sem cerimônia.

 

A casa se adaptava à visita, não o contrário.

 

Ninguém pedia desculpa pela surpresa. 

 

A surpresa era a própria alegria.

 

O café era passado às pressas, o bolo era o que houvesse, a conversa era longa.

 

O relógio perdia importância.

 

Hoje, visita precisa combinar, confirmar, avisar de novo.

 

Perdeu-se a graça do inesperado.

 

A visita sem aviso trazia notícias, risadas e, às vezes, apenas presença.

 

E isso bastava.

 

Era sinal de intimidade.

 

De portas abertas.

 

De confiança.

 

Talvez por isso faça tanta falta.

 

A visita inesperada quebrava a rotina como quem abre uma janela.

 

Entrava vento, entrava assunto novo, entrava vida.

 

Não se perguntava quanto tempo ficaria.

 

Ficava o tempo que desse, o tempo que pedisse.

 

As casas eram preparadas para receber gente. Havia sempre uma cadeira sobrando, um copo limpo no escorredor, um resto de bolo guardado para “se alguém chegar”.

 

E alguém sempre chegava.

 

Falava-se do calor, da saúde, dos filhos, das pequenas alegrias e dos problemas grandes. Repetiam-se histórias antigas, já conhecidas, mas nunca cansativas.

 

A repetição era parte do afeto.

 

Hoje, as casas se fecharam.

 

Portões, interfones, senhas, agendas.

 

A visita virou compromisso.

 

Tem hora marcada para chegar e, quase sempre, hora certa para sair.

 

O improviso incomoda.

 

Talvez porque o tempo tenha encolhido.

 

Ou porque aprendemos a proteger demais o espaço e esquecemos de proteger os vínculos.

 

Sinto falta da visita que chegava sem avisar, não para comer nem beber, mas para estar. Para sentar um pouco, respirar junto, dividir o silêncio.

 

A visita inesperada era um gesto simples de afeto.

 

Um jeito silencioso de dizer: passei por aqui porque você me faz falta.

 

Gabriel Novis Neves

01-01-2026




sábado, 10 de janeiro de 2026

SAPATOS CONFORTÁVEIS DEMAIS

 

Há sapatos que não apertam, não machucam, não incomodam.

 

Mas também não nos levam longe.

 

O conforto excessivo, tanto nos pés quanto na vida, pode virar acomodação.

 

Na escola primária, meu pai sempre me orientava a comprar sapatos na Casa Athayde, no início da rua 13 de junho.

 

Ficava ao lado da farmácia do seo Vieira, quase em frente à Casa Granja.

 

Quem nos atendia era o seo Fávila Palma, homem paciente e experiente.

 

Meu pai pedia sempre um sapato resistente e um número maior que o meu.

 

Eu crescia rápido.

 

Aos dezoito anos, já tinha um metro e oitenta e cinco de altura e calçava quarenta e três.

 

Foi quando conheci o famoso ‘tanque colegial’, com traves metálicas laterais e reforço no calcanhar.

 

No começo, colocava algodão na ponta dos pés para preencher o espaço vazio.

 

Depois, o pé crescia, o algodão saía e o sapato apertava.

 

Usava até o couro ceder, furar, pedir socorro. Só então vinha a troca, quase sempre depois de várias visitas ao sapateiro.

 

Assim era a vida da criança em Cuiabá: simples, resistente e sem excessos

 

Hoje, ao recordar essas cenas, penso nas dificuldades que meus pais enfrentaram para educar nove filhos.

 

Os mais velhos precisaram sair da cidade para estudar no Rio de Janeiro.

 

Os mais novos já encontraram aqui a universidade, construída com o esforço coletivo — e com a participação de um dos filhos.

 

Que satisfação tiveram meus pais ao verem o dever cumprido.

 

Sapatos confortáveis demais não nos fazem avançar.

 

Logo se gastam, perdem a forma, acomodam o pé.

 

A vida segue a mesma lógica.

 

O excesso de conforto nos afasta do crescimento.

 

Aprendi que o melhor caminho é o do equilíbrio: ter conforto suficiente para caminhar, mas nunca tanto a ponto de nos impedir de seguir adiante.

 

Na vida como nos pés, tudo é ensinamento — desde que se preste atenção.

 

Gabriel Novis Neves

07-01-2025


Gabriel aos 18 anos de idade