quinta-feira, 3 de abril de 2025

SEXTA-FEIRA


De todos os dias da semana, a sexta-feira é o dia mais simpático. Todos a chamam pelo apelido carinhoso de —sextou!

 

Dá a falsa impressão de que se inicia um tríduo de descanso.

 

É o esquecimento da dieta, quando tudo é permitido — inclusive fazer um empréstimo bancário para, com os amigos, saborear uma picanha na brasa, com vinagrete, acompanhada de uma bem gelada.

 

O sonho de tirar o domingo para uma pescaria no Pantanal, sempre rico em peixes dos mais variados.

 

Logo chega a noite de domingo e, quem gosta, assiste aos gols do Fantástico.

 

É hora de dormir — e ninguém descansou. O tempo passou rápido, e já estamos planejando descansar na próxima semana.

 

E assim se vão as semanas, os meses, os anos.

 

Nosso calendário favorece as sextas-feiras. Durante o ano, temos várias sextas ‘fixas’ em semanas de comemorações.

 

Qualquer feriado no meio da semana é um convite a um arrastão de folgas, sempre puxando a sexta-feira pelo braço.

 

Dizem que o número de pessoas que, nas segundas-feiras se apresentam ao trabalho com atestados médicos de cinco dias — datados de quarta — é enorme.

 

Ricos e pobres, cada qual à sua maneira, celebram o sextou.

 

É uma doce ilusão que se renova toda semana.

 

E o que seria de nós, se não tivéssemos motivos para comemorar diariamente?

 

O aniversário de um familiar ou amigo, a aprovação em um concurso, a compra de um carro novo, as bodas que conquistamos com o passar dos anos...

 

Hoje é mais uma crônica que publico no blog Bar do Bugre. Um marco a ser lembrado por mim.

 

Memes divertidíssimos povoam as redes com o tema sextou, no ‘Dia Internacional da Cerveja’ ou mesmo da faxina.

 

Sexta-feira também é o dia da renovação, quando tudo parece felicidade.

 

Pena que, numa semana, só exista uma sexta —arrastando consigo o sábado e o domingo.

 

Acho que a sexta tem um charme que outros dias não têm.

 

Sextou para a minha crônica — e vou descansar do computador.

 

Gabriel Novis Neves

21-03-2025




quarta-feira, 2 de abril de 2025

PLANTÃO DE 31 DE MARÇO DE 1964


Hoje ao postar uma crônica percebi que ontem foi uma data histórica muito importante na minha vida.

 

Conclui o curso de Medicina em 15 de dezembro de 1960 na Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, com a cerimônia realizada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

 

Na época havia sido aprovado em concurso para acadêmico de Medicina da Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

Com a mudança da capital para Brasília, os antigos acadêmicos foram aproveitados como médicos concursados do Estado.

 

Permaneci no Hospital e Pronto-Socorro Municipal Souza Aguiar — o maior do Brasil e da América Latina.

 

Continuei na Equipe Cata Preta. Seu chefe era o doutor Otávio Barbosa e o vice Paulo Ferreira.

 

Nossa equipe contava com cirurgiões gerais, neurocirurgião, angiologista, ortopedista e traumatologista, otorrino, oftalmologista, radiologista, pediatra, clínicos gerais, ginecologistas, obstetras, especialistas em análises clínicas, intensivistas e anestesistas.

 

O diretor-geral do hospital era o médico Brito Cunha.

 

O horário do nosso plantão, era o seguinte: às terças-feiras, das 14h às 20 h; às quintas das 20h até às 8h da manhã seguinte; domingos alternados das 8h às 20h.

 

O dia 31 de março de 1964 caiu numa terça-feira —dia do meu plantão.

 

No vestiário, durante a troca da roupa pelo uniforme branco, pouco antes das 14 h um tumulto tomou conta do local.

 

Algo grave estava para acontecer. Os colegas que encerravam o plantão desejavam boa sorte aos que entravam.

 

Como de costume fomos até a cantina do hospital tomar o cafezinho.

 

De repente uma voz grave soou pelos alto-falantes convocando os médicos Augusto Paulino Neto e Gabriel Novis Neves a comparecerem com urgência ao gabinete do diretor Brito Cunha.

 

Este nos recebeu com uma metralhadora no peito, uma estação de rádio clandestina no gabinete, e foi direto ao ponto:

 

—Estamos montando um hospital de campanha dentro do Palácio Guanabara onde está o governador Carlos Lacerda. Vocês foram escolhidos por méritos pessoais.

 

Preparamos uma ambulância disfarçada da Cruz Vermelha Internacional. Vocês irão deitados para evitar detenções. No Palácio serão levados diretamente para prestar atendimento médico ao governador.

 

Lacerda nos recebeu cercado por duas metralhadoras.

 

Participei de um dos momentos mais delicados da história recente do Brasil.

 

Sou talvez o único sobrevivente desse episódio que a história jamais registrou.

 

Gabriel Novis Neves

01-04-2025


Carlos Lacerda com a metralhadora sobre mesa





terça-feira, 1 de abril de 2025

O RÁDIO COMO COMPANHIA


Em Cuiabá a primeira estação de rádio foi fundada pelo professor Jercy Jacob, em uma sala de sua casa na rua do Campo.

 

A PRH3-ZYZ5 Rádio A Voz do Oeste, operava em ondas curtas, mal alcançando o Coxipó da Ponte.

 

Havia radioamadores, que se comunicavam com os fazendeiros da região, prestando socorro e orientação.

 

Esses radioamadores transmitiam pela manhã e à noite, prestando relevantes serviços à sociedade.

 

O rádio fazia companhia — era a voz amiga. E ainda é, para muitos.

 

Mesmo com a chegada da televisão, a audiência das rádios continua imensa, fazendo-se presente, sobretudo, na vida do homem do campo e dos madrugadores.

 

Foi a grande escola dos comunicadores, muitos dos quais migraram para o jornalismo impresso e televisivo.

 

A grande universidade do rádio foi a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, numa época em que ainda não se ensinava jornalismo nas faculdades brasileiras.

 

Dela surgiram jornalistas, locutores, atores.

 

A Voz do Oeste foi a nossa pioneira. Hoje, não sei quantas emissoras de rádio existem em Cuiabá.

 

Seus primeiros profissionais produziam programas caipiras, hoje sertanejos ao amanhecer, seguidos de noticiários. Mais tarde, retransmitiam A Voz do Brasil, o informativo do Governo Federal.

 

Transmitiam também partidas de futebol e anúncios comerciais.

 

Vou me esforçar para lembrar de alguns pioneiros do rádio de Cuiabá: Djalma Valadares, na locução comercial, Luís Atílio, locutor esportivo, Newton Alfredo comentarista e poeta, o próprio Jerci Jacob e sua esposa cuidavam da emissora o dia inteiro, como contrarregras e sonoplastas.

 

Hoje, as emissoras de rádio permanecem no ar vinte e quatro horas do dia, com programação diversificada e ampla audiência.

 

Com o advento da internet e dos celulares, os radioamadores despareceram. Surgiram os satélites Starlink, levando a comunicação a qualquer canto do planeta.

 

Hoje, não há lugar onde alguém não possa ser alcançado.

 

E, apesar de todo o progresso, o rádio continua sendo a voz amiga — o companheiro fiel de muitos.

 

Gabriel Novis Neves

31-03-2025






N.E. - FOTOGRAFIAS DE DOMÍNIO PÚBLICO NA INTERNET E TAMBÉM INTEGRANTES DO ACERVO PESSOAL DE FRANCISCO CHAGAS ROCHA,  PUBLICADAS NO GRUPO DE FACEBOOK CUIABÁ-MT DE ANTIGAMENTE 

segunda-feira, 31 de março de 2025

ANTIGOS CONSULTÓRIOS MÉDICOS


Geralmente o consultório ocupava as salas da frente da própria residência do médico.

 

Quando voltei à minha cidade natal para exercer a profissão, o sistema ainda era assim.

 

Como minha casa era muito pequena, aceitei o convite do meu colega de turma, Benedito Canavarros, que morava na "rua dos Porcos", e a passei a usar uma sala de sua casa como consultório.

 

A sala de espera era no corredor.

 

Passados alguns anos, ocupei dois salões da casa dos meus pais, na rua do Campo.

 

Algum tempo depois fui dividir o amplo consultório de Clóvis Pitaluga de Moura, também na rua do Campo, vizinho à casa do historiador Rubens de Mendonça.

 

Foi nesse período que consolidei minha clínica em Cuiabá, como assistente do grande mestre.

 

Fui com o Kamil para a Femina, a primeira clínica particular de obstetrícia da cidade, no bairro Bandeirantes.

 

Curioso que, na noite de sua inauguração — com apenas quatro leitos para gestantes, centro cirúrgico e de reanimação, vários consultórios médicos, ultrassonografia gestacional, citopatológico e de análises clínicas —faltou energia elétrica na hora do corte da fita simbólica. Logo ali, na casa em que as mulheres viriam a dar à luz.

 

Naquela época, as clientes liam na sala de espera revistas, como O Cruzeiro e Seleções, e o médico conhecia toda a família da paciente pelo nome.

 

Não existiam planos de saúde: os pacientes eram particulares ou indigentes.

 

Havia consultas fiadas — e os médicos, tinham cobradores.

 

Hoje, os médicos atendem em salas comerciais adaptadas, clínicas de especialidades ou hospitais.

 

Enquanto esperam, os pacientes consultam seus celulares. As consultas são pagas por PIX, quando não são aceitas por dois ou três planos de saúde.

 

O médico antigo era generalista, atendia toda a família. Esse, não existe mais.

 

As universidades formam médicos especialistas, que muitas vezes não interessam ao Brasil. E muitos municípios continuam sem médicos.

 

Gabriel Novis Neves

30-03-2025




domingo, 30 de março de 2025

JOGAR CONVERSA FORA


Fui convidado para um almoço às duas horas da tarde, num lugar bem distante de onde moro.

 

Tudo fora dos meus padrões habituais. Estou acostumado a almoçar por volta do meio-dia e logo em seguida tirar a sesta para continuar o dia fazendo o que sei: escrever.

 

Vivo num mundo sem pressa, respeitando meu relógio biológico — e ainda assim, preciso agradar a gregos e troianos.

 

Pedirei ao motorista que me leve logo após o meio-dia, para que eu possa jogar conversa fora, almoçar e, até as três da tarde no máximo, estar estregue à minha sesta, ainda que atrasada.

 

Afinal hoje é sábado, e o almoço é em comemoração ao aniversário da minha bisneta primogênita.

 

‘Jogar conversa fora’ é a versão moderna da ‘conversa fiada’ dos tempos dos meus pais, quando se passavam horas assim, sem compromisso, nas cadeiras de balanço à porta de casa.

 

Era assim que a cidade se comunicava, sem pressa: transeuntes e admiradores das cadeiras de balanço.

 

Quantas histórias e novidades conheci desses encontros.

 

O historiador Estevão de Mendonça jogava conversa fora da janela do seu casarão.

 

Lembro-me bem das vezes em que ele me chamava para uma prosa despreocupada diante do seu janelão.

 

Era uma conversa preguiçosa, sem hora para acabar.

 

Ele sabia de tudo o que havia acontecido em séculos de história — desde a dominação portuguesa até os dias de então.

 

E com que prazer jogava essa conversa fora.

 

Outro ponto preferido do nosso povo para a boa e velha conversa fiada era a porta do Bar do Bugre, de frente para as praças Alencastro e da República.

 

Curioso notar que quem vinha jogar conversa fora estava sempre desacompanhado.

 

Era uma espécie de catarse, naquele tempo em que ninguém falava de Freud ou Jung — e todos pareciam felizes, num mundo sem pressa.

 

O progresso acabou com esse saudável relacionamento humano.

 

Gabriel Novis Neves

29-03-2925




sábado, 29 de março de 2025

LIVROS ENSINAM


Com o dia todo livre, nada melhor do que recordar coisa antigas —daquelas que nem mesmo em sebos se encontram nos dias de hoje.

 

Lembro-me dos antigos vendedores de enciclopédias.

 

Eram chamados de representantes comercias e vinham de São Paulo oferecendo seus produtos de porta em porta.

 

A mães, que conseguiam fazer uma pequena economia não pensavam duas vezes para realizar o sonho de ocupar boa parte da estante da sala com livros de capa dura, repletos dos segredos do mundo.

 

A Enciclopédia Britânica, com seus 24 volumes de grande formato, vinha com um brinde irresistível: um Atlas Gigante.

 

Hoje, nem os sebos aceitam essas doações —e, se aceitam, é com certa relutância.

 

Não posso deixar de lembrar de outros clássicos que formavam as bibliotecas da minha infância:

 

—As 13 obras de Monteiro Lobato

 

—Os 18 volumes do Tesouro da Juventude.

 

—Os 19 volumes da Enciclopédia Barsa.

 

—Os 32 volumes da História da Humanidade.

 

—Os 44 fascículos de Gênios da Pintura, da Editora Abril.

 

Ao entrar em qualquer sebo, lá estão elas, nas prateleiras mais altas, quase exigindo uma escada Magirus para serem alcançadas — coleções esquecidas, quietas, esperando por olhares curiosos.

 

É com saudade que me lembro daquela época, agora que a informação é digital, multimídia: texto, imagem, som —tudo atualizado em tempo real e disponível online.

 

Mudou para melhor, é verdade.

 

Mas havia uma alegria especial em receber os fascículos semanalmente.

 

Através deles, conhecia muitos mundos.

 

Hoje, conecto-me ao planeta inteiro pelo celular, sem ocupar um único centímetro da estante.

 

Antigamente, era bem mais difícil adquirir conhecimento em todas as áreas do saber.

 

Hoje, desde cedo, as crianças têm acesso a uma abundância de informações —e talvez por isso não existam mais ‘crianças burras’.

 

Fiz o último ano do segundo grau no Rio de Janeiro, no Colégio Anglo Americano, na Praia de Botafogo.

 

A maioria dos alunos era carioca, e muitos estudavam lá desde o ensino fundamental. O colégio pertencia a um professor português.

 

Lá todos falavam fluentemente espanhol, francês e inglês — e estavam preparados para enfrentar os vestibulares mais exigentes do país.

 

Dois colegas da minha turma passaram no vestibular mais difícil do Brasil: o do ITA — Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em São José dos Campos.

 

Diante das dificuldades que enfrentei naquele ano, só pensava nas enciclopédias que minha mãe, com tanto esforço, comprou para me ajudar.

 

Elas não diziam tudo. Mas me diziam o suficiente para continuar sonhando.

 

Gabriel Novis Neves

23-03-2025




sexta-feira, 28 de março de 2025

OITO ANOS


Recebi pelo grupo da família o convite da minha bisneta Maria Isabella para o almoço em comemoração aos seus oito anos.

 

Será no próximo dia 29 de março, último sábado do mês.

 

Ela receberá seus convidados para o almoço, a partir do meio-dia na casa dos avós.

 

Importante não esquecer a roupa de banho, para aproveitar a tarde com ela na piscina.

 

Nem imagino como será divertido esse encontro, com todos na água morna, música ambiente, mesinhas com toalhas de tecido, refrigerantes e um almoço caprichado, seguido de doces na sobremesa.

 

Sem falar na decoração cuidadosa e na animação infantil, que certamente fará a alegria da criançada.

 

Será uma grande festa — cheia de comida, alegria e afeto — inaugurando o ciclo de aniversários na casa nova dos avós.

 

A inauguração oficial aconteceu no Natal e na virada do ano, em uma celebração festiva com familiares e amigos. 

 

Agora tem início a um novo ciclo: os aniversários dos netos.

 

Foi assim também em minha casa com a Regina.

 

Até a recepção do casamento da minha filha aconteceu em nossa casa da Major Gama, na entrada do morro do Tambor, no Porto.

 

Há trinta anos moro na rua do Caixão — hoje Estevão de Mendonça, no bairro Goiabeiras, depois Popular e, atualmente, Duque de Caxias.

 

Aqui realizamos muitas festas de aniversário e outras comemorações.

 

A última foi quando completei 80 anos, um gesto de carinho dos meus filhos.

 

Agora as reuniões se resumem aos almoços de sábado, rodeado por filhos, netos e bisnetos.

 

Não crio pets, que certariam ficariam nervosos com tanta gente, e as rosas do meu jardim não falam.

 

Fico pensando que, daqui a dez anos, talvez eu possa assistir ao casamento da minha bisneta.

 

Seria um prêmio imenso estar presente a essa celebração.

 

Se depender de mim, chego lá.

 

Sinto-me tão bem de saúde que ouso fazer planos arrojados como este.

 

Mas, no dia 29, a festa é toda da Maria Isabella, nossa bisneta primogênita, querida pelas suas primas e amada por todos.

 

Gabriel Novis Neves

29-03-2025