As tardes no Rio de Janeiro, muitas vezes, eram dedicadas ao estudo.
Depois das aulas da manhã, eu voltava ao quarto da pensão para revisar o que havia aprendido.
O silêncio ajudava na concentração, embora às vezes o barulho da rua chegasse pela janela. Mesmo assim eu me sentava diante dos livros abertos e procurava avançar um pouco mais no conhecimento médico.
Era um trabalho paciente, feito página por página.
Isso aconteceu nos três primeiros anos da faculdade.
Depois, vieram as atividades no hospital e os estudos passaram a ser feitos à noite.
Os seis anos de curso passaram depressa e, quando percebemos, já estávamos preparando a volta para Cuiabá.
Nessa fase, os plantões e os estudos à beira do leito dos pacientes preenchiam os meus horários.
Curioso é que, ainda assim, faltava-me tempo para avançar no conhecimento médico.
O curso de Medicina embora prolongado, é curto demais para deixar a matéria em dia.
Para vencer essas dificuldades, eu tinha sempre no quarto de pensão, guardadas em latas de bolacha, as preciosidades enviadas por minha mãe: francisquitos, biscoitos de queijo e de polvilho.
Eu as socializava com os colegas da pensão.
Naquele tempo, as encomendas chegavam pelos Correios, e não era aconselhável enviar produtos perecíveis, como pacu assado e recheado.
Certa ocasião, no aeroporto de Cuiabá, uma amiga de minha mãe, me entregou um embrulho com comida para ser levado, no mesmo dia, ao filho aniversariante.
Ele morava longe da minha pensão.
Cheguei com aquele pacu exalando o perfume irresistível de sua carne fresca.
Reuni os colegas da pensão e saboreamos juntos aquela delícia do rio Cuiabá.
Não me recordo do nome da amiga de minha mãe, e nunca mais a vi.
Os colegas que tinham namoradas em Cuiabá, além das cartinhas semanais, recebiam guloseimas sempre generosas.
Escondiam-nas no fundo do armário para não dividir com ninguém.
Depois da colação de grau, pegavam o primeiro voo e retornavam à cidade natal.
Casavam-se e iniciavam a carreira profissional.
No meio dos livros, das saudades e das pequenas delícias da terra, a juventude ia passando.
E a vida, sem alarde, já se preparava para florescer.
Gabriel Novis Neves
01-04-2026