quinta-feira, 2 de abril de 2026

TARDES DE ESTUDO


As tardes no Rio de Janeiro, muitas vezes, eram dedicadas ao estudo.

 

Depois das aulas da manhã, eu voltava ao quarto da pensão para revisar o que havia aprendido.

 

O silêncio ajudava na concentração, embora às vezes o barulho da rua chegasse pela janela. Mesmo assim eu me sentava diante dos livros abertos e procurava avançar um pouco mais no conhecimento médico.

 

Era um trabalho paciente, feito página por página.

 

Isso aconteceu nos três primeiros anos da faculdade.

 

Depois, vieram as atividades no hospital e os estudos passaram a ser feitos à noite.

 

Os seis anos de curso passaram depressa e, quando percebemos, já estávamos preparando a volta para Cuiabá.

 

Nessa fase, os plantões e os estudos à beira do leito dos pacientes preenchiam os meus horários.

 

Curioso é que, ainda assim, faltava-me tempo para avançar no conhecimento médico.

 

O curso de Medicina embora prolongado, é curto demais para deixar a matéria em dia.

 

Para vencer essas dificuldades, eu tinha sempre no quarto de pensão, guardadas em latas de bolacha, as preciosidades enviadas por minha mãe: francisquitos, biscoitos de queijo e de polvilho.

 

Eu as socializava com os colegas da pensão.

 

Naquele tempo, as encomendas chegavam pelos Correios, e não era aconselhável enviar produtos perecíveis, como pacu assado e recheado.

 

Certa ocasião, no aeroporto de Cuiabá, uma amiga de minha mãe, me entregou um embrulho com comida para ser levado, no mesmo dia, ao filho aniversariante.

 

Ele morava longe da minha pensão.

 

Cheguei com aquele pacu exalando o perfume irresistível de sua carne fresca.

 

Reuni os colegas da pensão e saboreamos juntos aquela delícia do rio Cuiabá.

 

Não me recordo do nome da amiga de minha mãe, e nunca mais a vi.

 

Os colegas que tinham namoradas em Cuiabá, além das cartinhas semanais, recebiam guloseimas sempre generosas.

 

Escondiam-nas no fundo do armário para não dividir com ninguém.

 

Depois da colação de grau, pegavam o primeiro voo e retornavam à cidade natal.

 

Casavam-se e iniciavam a carreira profissional.

 

No meio dos livros, das saudades e das pequenas delícias da terra, a juventude ia passando.

 

E a vida, sem alarde, já se preparava para florescer.

 

Gabriel Novis Neves

01-04-2026




quarta-feira, 1 de abril de 2026

O BAR DA ESQUINA


Perto da faculdade havia sempre um pequeno bar frequentado pelos estudantes.

 

Não era sofisticado, mas era ponto de encontro depois das aulas.

 

Ali conversávamos sobre tudo: Medicina, futebol, política e a saudade de casa.

 

Entre um café e outro, as preocupações com provas e trabalhos pareciam diminuir.

 

Aquele bar simples tornou-se parte da vida universitária — um espaço onde a amizade também se construía.

 

Os estudantes do interior andavam sempre em grupo: onde ia um, iam todos.

 

Já os do Rio, ao fim das aulas ou dos plantões, seguiam para as suas casas — de ônibus, lotação ou automóvel, muitas vezes já esperados.

 

Nós, em maior número, ocupávamos pensões e repúblicas nos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo, onde os aluguéis eram mais acessíveis.

 

Quando a mesada chegava, nos primeiros anos, íamos jantar no bar e restaurante Recreio — mais pela conversa do que pela comida.

 

Bebíamos chope ‘batizado’ com cachaça, e o prato da vez era o famoso ‘sonho de noiva’: arroz branco, dois ovos fritos e um pedaço de linguiça.

 

Era o mais barato do cardápio.

 

De sobremesa, um café.

 

Namorar, quase sempre, só quando não custava nada — pequenas histórias que a juventude guarda sem cerimônia.

 

Com o tempo, o Recreio mudou-se para a rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Paissandu, e perdeu o charme.

 

Outro reduto de estudantes e boêmios era o Lamas, no Largo do Machado.

 

Dizia-se que ali Noel Rosa se inspirou para compor ‘Conversa de Botequim’.

 

Tive vários companheiros de quarto de pensão: Carlos Eduardo Epaminondas, que não admitia morar longe de Copacabana; Celso Fernando de Barros, intelectual e grande orador; José Vidal ex-seminarista e o mais namorador; Juvenal Alves Correa, de Campo-Grande; Wanderlei de Souza, do Maranhão; Neyzinho, de Cáceres, Ney Pinheiro e Marcondes Pouso Filgueira, de Cuiabá.

 

Alguns iam à república para estudar em grupo.

 

Depois, com a chegada do meu irmão Pedro, passamos a dividir o quarto até o meu regresso.

 

Hoje, todos esses companheiros já se foram.

 

E o bar da esquina perto da faculdade, já não recebe estudantes.

 

Os tempos mudaram — e com eles, ficaram as lembranças.

 

Resta o que não fecha: a mesa vazia, ainda cheia de vozes.

 

Gabriel Novis Neves

28-03-2026







terça-feira, 31 de março de 2026

MESA POSTA COM ESTUDOS


No pequeno quarto da pensão havia uma mesa simples, onde eu passava grande parte do meu tempo.

 

Sobre ela se acumulavam livros, cadernos e anotações da faculdade.

 

Era ali que eu revisava as aulas do dia e me preparava para provas que nunca pareciam poucas.

 

Muitas noites avançavam silenciosas enquanto eu percorria páginas e mais páginas de Medicina.

 

Aquela mesa modesta acabou se tornando uma fiel companheira da minha vida de estudante.

 

Eu lia com os olhos e compreendia, enquanto alguns colegas preferiam estudar em voz baixa.

 

Havia os que varavam a noite inteira, e outros que dormiam cedo para estudar na madrugada.

 

No período do vestibular, os estudos se tornaram ainda mais intensos.

 

A formação ginasial e científica em Cuiabá deixava lacunas, sobretudo quando comparada à dos colegas do Rio, vindos de colégios como Santo Inácio ou Pedro II.

 

Muitos deles sequer precisavam de cursinho para enfrentar o disputadíssimo vestibular de Medicina.

 

Lembro-me bem da pequena mesa onde estudava, saindo apenas para o cursinho na Cinelândia.

 

O trauma do vestibular foi tão grande que, por momentos, cheguei a imaginar um acidente que me livrasse daquela pressão.

 

Eu era o primogênito e carregava, em silêncio, a obrigação de ser aprovado —ainda mais com a confiança que meus pais depositavam em mim.

 

Durante anos sonhei com o vestibular.

 

Eram pesadelos que me despertavam no meio da noite.

 

Mas a vida segue, e as preocupações apenas mudam de nome.

 

Vieram os desafios do exercício da Medicina no interior, ainda carente de recursos.

 

A ultrassonografia gestacional, hoje tão comum, só chegou duas décadas depois do meu retorno a Cuiabá.

 

Naquele tempo, atendíamos pacientes indigentes e pagantes em consultórios simples, com os meios que tínhamos.

 

Depois vieram as preocupações com os filhos, os netos e os bisnetos.

 

Agora, chegam as reflexões sobre a própria velhice e os cuidados que ela exige, mesmo quando a saúde se mantém firme.

 

Hoje, no escritório do meu apartamento, diante da mesa do computador, volto a passar grande parte do meu tempo.

 

Já não estudo para provas — estudo a memória.

 

E transformo lembranças em crônicas.

 

No fim, a mesa mudou.

 

Mas continuo o mesmo aprendiz da vida.

 

Gabriel Novis Neves

26-03-2026





segunda-feira, 30 de março de 2026

RECIBO GUARDADO NO BOLSO


Encontrei um recibo antigo no bolso do paletó. 

 

O papel estava amassado, quase ilegível. 

 

Não lembrava da compra, nem do dia exato. 

 

Ainda assim, fiquei segurando aquele pequeno registro de algo que já passou. 

 

Há documentos que comprovam despesas. 

 

Outros apenas confirmam que estivemos vivos naquele instante. 

 

Vasculhar bolsos de calças e paletós no guarda-roupas é sempre uma pequena escavação arqueológica. 

 

Aparecem listas de medicamentos, comprovantes da Mega-Sena, recibos do condomínio. 

 

Nada me recordava aqueles papéis. 

 

Como o cérebro decide o que guardar e o que apagar? 

 

Ao menos sei que, nas datas impressas ali, eu estava vivo.

 

 Também guardo bilhetes em gavetas. 

 

De alguns lembro o assunto; de outros, apenas a caligrafia. 

 

Faltam-me os encontros, sobram os papéis. 

 

Exerci a Medicina no tempo anterior aos computadores. 

 

Cada paciente tinha seu prontuário em ficha de papel, com a história clínica cuidadosamente anotada. 

 

Ao me aposentar, trouxe milhares deles para a biblioteca. 

 

Estão guardados em armários, sem ordem rigorosa. 

 

Sei que ali repousam histórias de vida —mas já não consigo localizá-las quando preciso. 

 

Quando eu partir, deverão ser incineradas. 

 

Dias atrás encontrei uma folha antiga onde anotei coincidências ligadas ao 31 de março de 1964. 

 

O último Ministro do Exército do Presidente Jango Goulart fora o General Ladário Pereira Teles, Comandante do CPOR do Rio quando eu era aluno. 

 

Recordei-me de um episódio: chovia, havia uma poça de água enorme na saída do quartel. 

 

Desviei para não molhar os tênis. 

 

O general observava. 

 

Mandou-nos voltar e atravessar a água, chamando-nos com ironia, de ‘alunos da Ana Neri’.

 

Aprendi ali que disciplina não contorna poças. 

 

Outra coincidência: o último Ministro da Aeronáutica de Jango foi o cuiabano Brigadeiro Anísio Botelho, irmão de Anco Botelho, casado com a minha tia Alba. 

 

Parte da sua Fazenda Três Marias foi vendida ao Presidente. 

 

Por causa de uma indisposição intestinal da primeira-dama, no aeroporto de Cuiabá, construiu-se o que viria a ser o Aeroporto Internacional de Cuiabá—Várzea-Grande

— que já teve outro nome antes de se tornar Marechal Rondon. 

 

Assim são as coincidências. 

 

Às vezes começam como um simples recibo esquecido no bolso — e terminam lembrando que a vida também se escreve em papéis amassados. 

 

Gabriel Novis Neves 

31-03-2026




domingo, 29 de março de 2026

RECUSA DELIBERADA


Recusei um convite sem inventar desculpas. 

 

Apenas disse que não queria ir. 

 

No passado, teria aceitado por obrigação. 

 

Hoje aprendi a preservar minha energia. 

 

Dizer ‘não’ também é um ato de cuidado —consigo mesmo e com o tempo que ainda nos resta. 

 

Até hoje tenho dificuldade em negar pedidos. 

 

Não por covardia, mas por educação, talvez pelo excesso de consideração com o outro. 

 

Ao longo da vida, porém, também recebi muitos ‘nãos’. 

 

Alguns passaram sem marcas; outros ficaram gravados na memória. 

 

O mais duro veio do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, em resposta a um ofício do governador Fernando Correa da Costa, ambos do mesmo partido. 

 

 O Estado de Mato Grosso ainda era uno quando foi criada a Fundação de Saúde de Mato Grosso — a FUSMAT — com o objetivo de agilizar os serviços de saúde no Estado. 

 

Eu era médico concursado e estável do governo da Guanabara. 

 

Em conversas na calçada da casa de meus pais, Fernando Correa disse à minha mãe que precisaria de mim na nova fundação. 

 

Recebi o recado com emoção. 

 

Expliquei que só poderia retornar se fosse colocado oficialmente à disposição do governo mato-grossense. 

 

Depois de idas e vindas ao Palácio Guanabara, o secretário mostrou-me o despacho de Lacerda: um grande X sobre o pedido e a frase seca — 

 

 ‘Quem não quiser trabalhar, demita-se’. Assinado: Carlos Lacerda! 

 

Antes que eu tomasse qualquer decisão, o destino interferiu. 

 

Era terça-feira, plantão no Hospital Souza Aguiar, equipe Cata-Preta. 

 

Tomávamos café quando o alto falante chamou Augusto Paulino Neto e a mim ao gabinete do diretor, Brito Cunha. 

 

Recebeu-nos armado, visivelmente tenso. 

 

Era 31 de março de 1964. 

 

Fomos designados, por ‘merecimento’, para integrar o hospital de campanha montado dentro do Palácio Guanabara, destinado a proteger o próprio governador, ameaçado por tropas que pretendiam invadi-lo. 

 

O resto pertence a história do Brasil. 

 

Aprendi então que a vida às vezes decide por nós. 

 

E que certos ‘nãos’ apenas mudam o caminho nunca o destino. 

 

Gabriel Novis Neves 

30-03-2026




sábado, 28 de março de 2026

DOMINGOS ACADÊMICOS


Enquanto muitos cariocas aproveitavam o domingo para ir à praia ou caminhar pela cidade, os estudantes de Medicina quase sempre tinham outro destino.

 

O domingo, para nós, era dia de recuperar leituras atrasadas, revisar matérias difíceis e tentar organizar o conhecimento que se acumulava ao longo da semana.

 

Sentado à mesa simples do meu quarto de pensão, passava horas entre livros abertos e anotações espalhadas.

 

Lá fora, a cidade seguia alegre e barulhenta; ali dentro, reinava o compromisso com o estudo.

 

A partir do quinto ano, ao ser aprovado no concurso para acadêmico do Pronto Socorro Municipal, escolhi os domingos para os plantões.

 

Não perdia aulas e ainda aprendia no hospital, onde a Medicina se mostrava viva, concreta, exigente.

 

Nos primeiros anos, porém, o domingo tinha outro sabor.

 

Ia ‘filar boia’ na casa de parentes.

 

A macarronada com galinha era presença quase certa — simples, farta e carregada de afeto.

 

Às vezes, ainda sobrava tempo para assistir a um jogo do então charmoso campeonato estadual.

 

Na pensão, a dona da casa e sua mãe idosa, raramente ficavam.

 

Preferiam o cinema ou o teatro na Cinelândia, onde a vida cultural pulsava com intensidade.

 

Na década de cinquenta o coração do Rio batia forte no centro da cidade.

 

Até os desfiles das escolas de samba aconteciam na avenida Rio Branco.

 

Era também ali que os calouros de Medicina da Praia Vermelha faziam seu trote.

 

Desfilávamos sem camisa, com o corpo pintado, exibindo uma faixa de calçada a calçada:

 

— Aí vem a matriz!

 

Uma pequena banda tocava marchinhas, e alunos e alunas dançavam como um carnaval improvisado.

 

Curiosamente, os estudantes do interior participavam com mais entusiasmo do que os próprios cariocas.

 

Quantas madrugadas atravessei estudando, enquanto lembrava daquele desfile alegre, quase um sonho distante em meio às exigências do curso!

 

Foram seis anos intensos, sem domingos nem feriados de verdade.

 

Tudo parecia conduzir, a um único momento esperado: o baile de formatura nos salões do Hotel Glória.

 

E, quando ele chegou, compreendi que cada domingo renunciado havia valido a pena.

 

Gabriel Novis Neves

24-03-2026




sexta-feira, 27 de março de 2026

PRIMEIRA AULA CLÍNICA


Uma das aulas mais marcantes do curso de Medicina foi aquela em que tivemos o primeiro contato clínico com pacientes.

 

Até então, nossos estudos estavam concentrados em livros, desenhos anatômicos e explicações teóricas.

 

Quando entramos na enfermaria, tudo ganhou outra dimensão.

 

O corpo humano deixava de ser apenas um capítulo de livro e passava a ser uma realidade viva diante de nós.

 

Aquela aula abriu uma nova etapa no aprendizado médico.

 

O professor Cruz Lima ministrava as aulas teóricas da disciplina Semiologia na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

As atividades práticas ficavam sob a responsabilidade de seus assistentes.

 

A turma era dividida em grupos, e seguíamos para as amplas enfermarias da Santa Casa, onde aprendíamos a examinar o paciente.

 

Iniciávamos pela anamnese — a história clínica do doente em seu leito.

 

Identificação, queixa principal e o registro cuidadoso dos sintomas.

 

Cada aluno deveria portar um termómetro, aparelho de pressão e estetoscópio.

 

A partir da queixa principal e de um breve relato da história clínica, iniciávamos o exame físico.

 

Com uma anamnese bem feita e um exame detalhado, já era possível chega a uma hipótese diagnóstica.

 

Na década de cinquenta, as enfermarias da Santa Casa estavam frequentemente lotadas de pacientes com esquistossomose.

 

Isso se devia à intensa migração de nordestinos para o Rio de Janeiro em busca de trabalho.

 

Muitos permaneciam internados por longos períodos e, de tanto ouvirem as explicações dos professores, acabavam também nos ensinando sobre a própria doença.

 

Nas provas práticas, não raro, eram eles que nos orientavam nos ensinavam sobre como escrever uma boa anamnese, estabelecer o diagnóstico clínico e indicar o tratamento.

 

Em Cuiabá, durante sessenta anos de exercício profissional, não atendi um único caso de esquistossomose.

 

Mas foi ali que aprendi a escrever uma boa anamnese.

 

Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.

 

O paciente, que mesmo na doença se dispõe a ensinar, nos mostra que a Medicina começa, antes de tudo, no respeito e na humanidade.

 

E foi ali que entendi: o verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2025




quinta-feira, 26 de março de 2026

CHEIRO DE HOSPITAL


O primeiro contato prolongado com um hospital marca qualquer estudante de Medicina.

 

Ainda jovem, vindo de Cuiabá, estranhei aquele cheiro característico que parecia impregnar todos os corredores.

 

Era uma mistura de éter, desinfetante e ansiedade humana.

 

Caminhava atento, observando médicos apressados, enfermeiras vigilantes e pacientes à espera de notícias.

 

Aos poucos, compreendi que aquele ambiente faria parte constante da minha vida profissional.

 

O hospital não era apenas um prédio repleto de salas e enfermarias — era o lugar onde a fragilidade e a esperança conviviam lado a lado.

 

Na primeira semana de aula, ainda com a cabeça raspada — trote oficial da Medicina da Praia Vermelha — o presidente do Centro Acadêmico pediu licença ao professor que ministrava a aula teórica de Histologia para fazer um convite aos calouros.

 

— Hoje, às 19 horas, no auditório do Hospital e Pronto Socorro Miguel Couto, o professor Nova Monteiro iniciará um curso de Traumatologia.

 

Perguntei aos colegas se aquilo era trote.

 

Disseram que não, que era melhor comparecer.

 

Foi a primeira vez que entrei em um Hospital no Rio de Janeiro.

 

Meu primo, já aluno do quinto ano, viu-me no auditório e se aproximou:

 

— Estou de plantão.

 

Quando terminar a aula, venha comigo.

 

Vou fazer uma apendicectomia e quero que você assista.

 

Pela primeira vez senti o cheiro de um Centro Cirúrgico.

 

Uma enfermeira ajudou-me a vestir o uniforme: a calça, o jaleco, as sapatilhas, o gorro e a máscara, recomendando cuidado para não esbarrar na equipe cirúrgica.

 

O ambiente me envolveu de forma inesperada.

 

Comecei a passar mal.

 

O pior é que, naquele instante, eu não confiava plenamente na perícia do meu primo como cirurgião.

 

Quando ele fez a incisão e o sangue apareceu, tive uma lipotimia.

 

Fui retirado do centro cirúrgico, cabeça baixa, água e silêncio.

 

Minha estreia no hospital não poderia ter sido pior.

 

E, no entanto, foi ali que comecei a me tornar médico.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2026




quarta-feira, 25 de março de 2026

DIÁLOGOS DOS CORREDORES E ARREDORES


Nem todas as lições da faculdade de Medicina aconteciam dentro da sala de aula.

 

Muitas vezes aprendíamos mais nas conversas rápidas dos corredores do que em longas exposições teóricas.

 

Ali trocávamos dúvidas, comentávamos casos clínicos e, até compartilhávamos preocupações pessoais.

 

Aqueles encontros improvisados, entre uma aula e outra, ajudavam a criar um espírito de companheirismo entre os estudantes.

 

Percebi cedo que a Medicina também se constrói na troca de experiências.

 

Quantas lições aprendi no bonde que nos levava à faculdade, nas refeições do restaurante universitário e no ambiente simples da pensão!

 

O companheirismo se formava entre os colegas do interior, que usavam o bonde, os suburbanos que vinham de ônibus e voltavam no mesmo dia, e até entre os cariocas, que, mais reservados, nem sempre se misturavam para estudar.

 

Nos plantões, porém, estávamos todos juntos, trocando ideias e aprendendo uns com os outros.

 

Aprendi muito fora das salas de aula, especialmente com colegas mais adiantados, que se tornavam excelentes professores nos centros cirúrgicos e nas enfermarias.

 

Quando cheguei ao sexto ano, também passei a ajudar os mais jovens.

 

O receio do estudante diante de uma assistência domiciliar, sobretudo em áreas mais difíceis, era grande e, em parte, alimentado pelas histórias dos veteranos.

 

Lembro-me de um episódio marcante, no quinto ano, quando a sirene do hospital me chamou para atender uma emergência no Supremo Tribunal Federal.

 

O chamado era para o gabinete do presidente.

 

Encontrei-o deitado em um sofá, ainda de toga.

 

De olhos fechados, percebeu a minha presença.

 

Ali, recebi uma verdadeira aula sobre a síndrome de Ménière.

 

Ao final, orientou com precisão a medicação: glicose hipertônica, vinte mililitros na veia, prontamente preparada e aplicada pelo enfermeiro da ambulância.

 

Foi uma lição inesperada, daquelas que não se esquecem.

 

A Medicina, afinal, se aprende em todos os lugares — e nem sempre com quem imaginamos.

 

Porque, às vezes, a melhor aula acontece no corredor... ou fora dele.

 

Gabriel Novis Neves

22-03-2026




terça-feira, 24 de março de 2026

OS LIVROS MAIS PESADOS


Entre os muitos objetos que acompanharam meus anos de faculdade no Rio, nenhum era tão marcante quanto os grandes livros de Medicina.

 

Eram volumes enormes, pesados, muitas vezes importados, que carregávamos de um lado para outro como verdadeiros tesouros.

 

Lembro-me de abrir aquelas páginas repletas de ilustrações anatômicas e textos densos, tentando decifrar os segredos do corpo humano.

 

Cada capítulo exigia paciência, disciplina e uma certa reverência.

 

Mais do que livros, eram companheiros silenciosos de uma juventude entregue ao estudo.

 

O livro de Anatomia, além de pesado, vinha em dois volumes enormes e era escrito em castelhano.

 

De tanto manuseá-lo suas páginas ficavam ensebadas, marcadas pelo uso constante.

 

Guardei todos os livros que utilizei na faculdade; hoje repousam na biblioteca da minha casa como testemunhas de um tempo que não volta.

 

Tenho um filho e uma neta médicos, de outras gerações.

 

Estudaram pela internet, imprimindo apenas o que lhes interessava.

 

Parece que essa nova forma de relação com o conhecimento científico tem dado certo.

 

Baixam os livras indicados em PDF, nos seus computadores ou celulares.

 

Selecionam os capítulos, imprimem o necessário, estudam com foco e objetividade.

 

Assim se preparam para provas e concursos, com êxito.

 

Minha neta, ginecologista e obstetra, carrega no celular volumes inteiros da sua especialidade.

 

Na sala de espera, suas pacientes também chegam informadas, muitas vezes munidas de aplicativos e dúvidas bem formuladas.

 

E o que dizer das consultas à distância?

 

Eu mesmo já me consultei por vídeo, com médicos em São Paulo e nos Estados Unidos.

 

Fico a pensar: como estará a Semiologia nos dias atuais?

 

O exame físico terá perdido espaço diante das telas?

 

Não tenho dúvidas de que os médicos de hoje dispõem de mais conhecimento científico que os de antigamente.

 

As especialidades e subespecialidades fragmentaram o saber de tal forma que já não existem mais, como antes, o clínico ou o cirurgião geral que acompanhavam toda uma família.

 

Esse médico eu conheci apenas na infância.

 

Naquele tempo, havia menos de dez faculdades de Medicina no Brasil.

 

Hoje, são centenas.

 

Em Mato Grosso, multiplicam-se pelas cidades.

 

E, ainda assim, faltam médicos.

 

No fim das contas, talvez o livro mais pesado não fosse o de Anatomia.

 

Era o peso da responsabilidade que começava a ser aprendido em cada página virada.

 

Gabriel Novis Neves

18-03-2026




segunda-feira, 23 de março de 2026

LIVROS EMPRESTADOS


Entre estudantes de Medicina era comum emprestar livros uns aos outros.

 

Nem todos tinham condições de comprar todos os volumes necessários.

 

Muitas vezes um colega avisava que havia conseguido um livro importante, e logo vários se organizavam para consultá-lo.

 

Eu mesmo recorri a muitos livros emprestados durante os anos de faculdade. 

 

Aquela troca silenciosa de materiais mostrava como o espírito de cooperação ajudava a enfrentar as dificuldades do curso.

 

Na entrada lateral do prédio da Faculdade de Medicina, em frente ao restaurante universitário, havia um enorme salão.

 

O porteiro vestia terno e gravata e ostentava uma cabeleira branca, sempre bem tratada.

 

Quem não o conhecia imaginava tratar-se do próprio diretor da faculdade.

 

À esquerda do salão funcionava uma banca de engraxates e, logo adiante, um armário envidraçado onde Luís, o livreiro, expunha livros de Medicina que vendia aos estudantes.

 

Naquela época, Luís confiava plenamente nos alunos e facilitava o pagamento em várias prestações, sem juros nem correção monetária.

 

Tudo era combinado de palavra, sem recibo ou qualquer documento escrito.

 

O grande salão também servia como ponto de convivência.

 

Antes do início das aulas, os estudantes se espalhavam pelos bancos de concreto conversando e trocando impressões sobre as disciplinas.

 

Vez por outra, um professor se aproximava e participava da conversa.

 

Luís, o livreiro, era tão querido pelos estudantes que acabou se tornando merecedor de homenagens.

 

Quando algum pagamento atrasava, ele compreendia.

 

Sabia que muitos de nossos pais, lá no interior do Brasil, enfrentavam dificuldades financeiras e apenas aguardava com paciência.

 

O espírito de solidariedade entre os alunos também era marcante.

 

Recordo que um colega amazonense comprou de um bedel do laboratório de Anatomia um saco de ossos humanos e um cérebro conservado no formol, para estudar Anatomia Descritiva e Neuroanatomia.

 

Ele escondia o material no armário do quarto da pensão, longe dos olhos da dona da casa.

 

À noite reunia um pequeno grupo de colegas e, com a porta trancada, estudávamos aquelas peças anatômicas com grande interesse.

 

Essa solidariedade entre estudantes nos acompanhou durante os seis anos do curso.

 

Depois da colação de grau a turma se dispersou pelo vasto território brasileiro.

 

Mas algumas lembranças permanecem vivas — como aqueles livros emprestados que ajudaram a formar médicos e amizades.

 

Gabriel Novis Neves

16-03-2026




domingo, 22 de março de 2026

VÉSPERAS DAS PROVAS


Na véspera das provas da faculdade de Medicina o silêncio parecia ganhar outro peso.

 

Não era um silêncio comum, mas aquele carregado de expectativa, ansiedade e responsabilidade.

 

Cada estudante se recolhia ao seu quarto como quem entra em um pequeno mundo próprio, cercado de livros abertos, cadernos marcados e pensamentos inquietos.

 

Era o momento em que tudo o que havíamos aprendido precisava se organizar dentro de nós.

 

Eu passava horas relendo páginas, tentando fixar conceitos e alinhar ideias.

 

Às vezes, o cansaço ameaçava vencer, mas a consciência do compromisso falava mais alto.

 

Sabíamos que aquelas provas não eram apenas avaliações — eram etapas decisivas na construção do futuro médico que sonhávamos ser.

 

Na pensão, os veteranos aconselhavam: era preciso varar noites estudando para evitar a temida segunda época.

 

Pior ainda seria a reprovação, que poderia levar ao jubilamento.

 

Entre conselhos e exageros, ensinavam até a recorrer a medicamentos vendidos na farmácia da esquina para afastar o sono.

 

Muitos colegas se deixaram levar por esse caminho.

 

Eu também experimentei essa dependência passageira, da qual só consegui me libertar ao final do curso —uma pequena vitória silenciosa, entre tantas batalhas pessoais.

 

A rotina era exigente.

 

Aulas pela manhã e à tarde, e, com o avanço do curso, os plantões noturnos se somavam à jornada.

 

Restava pouco tempo para estudar.

 

Nem domingos ou feriados eram suficientes.

 

A solução era reduzir o sono, reunir-se em grupos nas antigas repúblicas estudantis e seguir adiante.

 

Uma garrafa térmica de café preto sem açúcar, tornava-se companheira inseparável.

 

No meu grupo, nem namorada havia — era um pacto silencioso de dedicação integral.

 

Sabíamos que estávamos construindo algo maior do que o presente.

 

No meu caso a responsabilidade tinha ainda outro peso.

 

Como primogênito de uma família numerosa, precisava avançar rápido, abrir caminho para os que vinham depois.

 

Esse pensamento me acompanhava em cada noite mal dormida.

 

Tornei-me médico no tempo previsto.

 

Naquele momento, dois de meus irmãos já estudavam no Rio, pois Cuiabá ainda não possuía Universidade Federal.

 

Tudo havia valido a pena.

 

Gabriel Novis Neves

19-03-2026