quinta-feira, 2 de abril de 2026

TARDES DE ESTUDO


As tardes no Rio de Janeiro, muitas vezes, eram dedicadas ao estudo.

 

Depois das aulas da manhã, eu voltava ao quarto da pensão para revisar o que havia aprendido.

 

O silêncio ajudava na concentração, embora às vezes o barulho da rua chegasse pela janela. Mesmo assim eu me sentava diante dos livros abertos e procurava avançar um pouco mais no conhecimento médico.

 

Era um trabalho paciente, feito página por página.

 

Isso aconteceu nos três primeiros anos da faculdade.

 

Depois, vieram as atividades no hospital e os estudos passaram a ser feitos à noite.

 

Os seis anos de curso passaram depressa e, quando percebemos, já estávamos preparando a volta para Cuiabá.

 

Nessa fase, os plantões e os estudos à beira do leito dos pacientes preenchiam os meus horários.

 

Curioso é que, ainda assim, faltava-me tempo para avançar no conhecimento médico.

 

O curso de Medicina embora prolongado, é curto demais para deixar a matéria em dia.

 

Para vencer essas dificuldades, eu tinha sempre no quarto de pensão, guardadas em latas de bolacha, as preciosidades enviadas por minha mãe: francisquitos, biscoitos de queijo e de polvilho.

 

Eu as socializava com os colegas da pensão.

 

Naquele tempo, as encomendas chegavam pelos Correios, e não era aconselhável enviar produtos perecíveis, como pacu assado e recheado.

 

Certa ocasião, no aeroporto de Cuiabá, uma amiga de minha mãe, me entregou um embrulho com comida para ser levado, no mesmo dia, ao filho aniversariante.

 

Ele morava longe da minha pensão.

 

Cheguei com aquele pacu exalando o perfume irresistível de sua carne fresca.

 

Reuni os colegas da pensão e saboreamos juntos aquela delícia do rio Cuiabá.

 

Não me recordo do nome da amiga de minha mãe, e nunca mais a vi.

 

Os colegas que tinham namoradas em Cuiabá, além das cartinhas semanais, recebiam guloseimas sempre generosas.

 

Escondiam-nas no fundo do armário para não dividir com ninguém.

 

Depois da colação de grau, pegavam o primeiro voo e retornavam à cidade natal.

 

Casavam-se e iniciavam a carreira profissional.

 

No meio dos livros, das saudades e das pequenas delícias da terra, a juventude ia passando.

 

E a vida, sem alarde, já se preparava para florescer.

 

Gabriel Novis Neves

01-04-2026




quarta-feira, 1 de abril de 2026

O BAR DA ESQUINA


Perto da faculdade havia sempre um pequeno bar frequentado pelos estudantes.

 

Não era sofisticado, mas era ponto de encontro depois das aulas.

 

Ali conversávamos sobre tudo: Medicina, futebol, política e a saudade de casa.

 

Entre um café e outro, as preocupações com provas e trabalhos pareciam diminuir.

 

Aquele bar simples tornou-se parte da vida universitária — um espaço onde a amizade também se construía.

 

Os estudantes do interior andavam sempre em grupo: onde ia um, iam todos.

 

Já os do Rio, ao fim das aulas ou dos plantões, seguiam para as suas casas — de ônibus, lotação ou automóvel, muitas vezes já esperados.

 

Nós, em maior número, ocupávamos pensões e repúblicas nos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo, onde os aluguéis eram mais acessíveis.

 

Quando a mesada chegava, nos primeiros anos, íamos jantar no bar e restaurante Recreio — mais pela conversa do que pela comida.

 

Bebíamos chope ‘batizado’ com cachaça, e o prato da vez era o famoso ‘sonho de noiva’: arroz branco, dois ovos fritos e um pedaço de linguiça.

 

Era o mais barato do cardápio.

 

De sobremesa, um café.

 

Namorar, quase sempre, só quando não custava nada — pequenas histórias que a juventude guarda sem cerimônia.

 

Com o tempo, o Recreio mudou-se para a rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Paissandu, e perdeu o charme.

 

Outro reduto de estudantes e boêmios era o Lamas, no Largo do Machado.

 

Dizia-se que ali Noel Rosa se inspirou para compor ‘Conversa de Botequim’.

 

Tive vários companheiros de quarto de pensão: Carlos Eduardo Epaminondas, que não admitia morar longe de Copacabana; Celso Fernando de Barros, intelectual e grande orador; José Vidal ex-seminarista e o mais namorador; Juvenal Alves Correa, de Campo-Grande; Wanderlei de Souza, do Maranhão; Neyzinho, de Cáceres, Ney Pinheiro e Marcondes Pouso Filgueira, de Cuiabá.

 

Alguns iam à república para estudar em grupo.

 

Depois, com a chegada do meu irmão Pedro, passamos a dividir o quarto até o meu regresso.

 

Hoje, todos esses companheiros já se foram.

 

E o bar da esquina perto da faculdade, já não recebe estudantes.

 

Os tempos mudaram — e com eles, ficaram as lembranças.

 

Resta o que não fecha: a mesa vazia, ainda cheia de vozes.

 

Gabriel Novis Neves

28-03-2026