domingo, 5 de abril de 2026

CAFÉ DA MANHÃ NA PENSÃO


Nos meus tempos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro, o dia começava cedo na pensão onde eu morava.

 

O café da manhã era simples, mas sempre bem-vindo antes das longas horas de aula.

 

A mesa reunia estudantes de diferentes cursos, ainda meio sonolentos, preparando-se para enfrentar mais um dia de estudo.

 

Entre uma xícara de café e um pedaço de pão, surgiam conversas rápidas sobre provas, professores e pequenas histórias da vida universitária.

 

Em algumas pensões onde morei, havia apenas o direito ao quarto e ao banheiro.

 

Certa vez consegui vaga na cama do meio.

 

O pior era não conhecer os vizinhos, que tinham horários diferentes.

 

Foi um dos momentos mais desconfortáveis dos meus anos no Rio.

 

Levantava cedo, tomava banho e seguia de bonde até o ponto final da linha 4, onde havia uma pequena cantina.

 

Ali encontrava colegas para o café com leite e pão com manteiga.

 

Depois, caminhávamos juntos até a faculdade.

 

Com o avanço do curso e os plantões, o café da manhã e o almoço passaram a ser feitos nos hospitais ou em cantinas próximas.

 

A rotina tornava-se mais exigente, mas também mais rica em aprendizado.

 

No quarto ano fui morar em uma pensão de migrantes judeus, refugiados da Segunda Grande Guerra Mundial.

 

A dona da casa mostrou-me um bom quarto na avenida Atlântica, número 1880.

 

Tinha direito à roupa de cama, ao banheiro e à água da geladeira.

 

No primeiro dia cheguei mais tarde, quando o casal já havia se recolhido.

 

Ao abrir a geladeira, chamou-me a atenção um pires com uma rodela de tomate e uma pequena folha de alface, cuidadosamente guardados.

 

Imediatamente me lembrei de casa, em Cuiabá.

 

Ao lado da porta da cozinha, havia um grande latão destinado às sobras das refeições.

 

Todas as manhãs, amigas de minha mãe vinham busca-las para alimentar seus porcos.

 

Pequenos gestos, em lugares tão diferentes, ensinavam a mesma lição silenciosa sobre o valor das coisas.

 

E foi assim, entre cafés modestos e lembranças distantes que aprendi que a simplicidade também educa.

 

Gabriel Novis Neves

25-03-2026





CALOR DO CORAÇÃO CARIOCA


Para quem vinha de Cuiabá, o calor não era novidade.

 

Ainda assim, o clima do Rio de Janeiro tinha suas próprias exigências.

 

Havia dias em que o sol parecia pesar sobre a cidade inteira, como um manto luminoso e insistente.

 

Caminhar entre uma aula e outra pedia paciência e disposição.

 

Muitas vezes eu chegava à sala já vencido pelo calor carioca.

 

Mas a juventude, generosa, logo restaurava as forças, e voltávamos atentos às explicações dos professores.

 

Durante os anos em que estudei no Rio, nunca tive ar-condicionado no quarto da pensão.

 

Resolvi com um pequeno ventilador e o hábito de estudar sem camisa.

 

O verão carioca, em muitos momentos, me lembrava Cuiabá.

 

A diferença estava na forma de enfrentá-lo

 

Era curioso observar o comportamento dos cariocas diante do sol intenso.

 

Em vez de fugir dele, buscavam-no.

 

Iam às praias, e permaneciam deitados por horas, entregues ao bronzeado —alguns sequer molhavam os pés.

 

Diziam, com certo humor, que a pele dourada realçava a beleza e disfarçava imperfeições.

 

No Rio não era difícil reconhecer quem vinha do interior — pela cor da pele, pelo jeito de falar.

 

Lembro-me de que quando fui à agência central do Banco do Brasil retirar a mesada enviada por meu pai.

 

O gerente, ao examinar minha identidade, perguntou seu eu viera prestar vestibular.

 

Respondi que sim.

 

Ele sorriu e disse que já imaginava, pela minha pele ainda clara, sobretudo sendo de Cuiabá.

 

Com o tempo, aprendi que o calor não é apenas uma questão de temperatura, mas também de costume.

 

Cuiabá é uma das cidades mais quentes do Brasil, e, ainda assim, quem nasce ali aprende a conviver com o sol — até a ponto de jogar futebol nas tardes ardentes.

 

Hoje a tecnologia nos oferece conforto: ar-condicionado em escolas, lojas, igrejas, casas e apartamentos.

 

No meu, instalei aparelhos em todos os cômodos.

 

Já não tenho qualquer desejo de enfrentar o sol das praias ou piscinas.

 

O tempo muda também nossas preferências.

 

Na cobertura onde moro, retirei a piscina para ampliar o jardim.

 

No lugar da água, cultivei rosas do deserto, resistentes e silenciosas, que florescem sob o mesmo sol que um dia me acompanhou no Rio.

 

No fim, percebi que não foi o calor que mudou — fui eu.

 

Gabriel Novis Neves

27-03-2026




sexta-feira, 3 de abril de 2026

CARTAS AMOROSAS


Durante os anos em que morei no Rio, uma das minhas maiores alegrias era receber cartas de casa.

 

Quando a dona da pensão avisava que havia correspondência para mim, o dia ganhava outro significado.

 

Abrir o envelope era como diminuir a distância entre o Rio de Janeiro e Cuiabá.

 

Nas palavras da família vinham notícias, conselhos e muito carinho.

 

Aqueles papéis simples tinham o poder de renovar meu ânimo para continuar os estudos.

 

Quantos ensinamentos traziam aquelas cartas!

 

Gostaria de guardar, ao menos algumas delas nesta altura da vida.

 

Com certeza eu saberia usufruí-las melhor, tal a riqueza de experiências que continham.

 

Minha mãe escrevia muito bem e, quantas vezes, depois da leitura, eu me deitava no quarto e permanecia ainda por longo tempo com a carta sobre o peito, enquanto o pensamento percorria distâncias sem fim.

 

Aquela carta carregava o peso da ausência e, ao mesmo tempo, a doçura da presença.

 

Quanta expectativa havia no retorno do filho médico, formado, em 1960, na melhor Faculdade de Medicina do Brasil.

 

E meus pais tinham toda a razão.

 

Quanto orgulho sentiram de mim ao verem minha ascensão no consultório e nos cargos públicos que ocupei.

 

Senti-me recompensado pelos longos anos que passei distante de casa.

 

Tive ainda a felicidade de me casar com uma mulher argentina-carioca, tão do agrado deles!

 

A convivência com meus cinco irmãos mais novos começou, de fato, quando a caçula tinha apenas nove anos.

 

Tive a oportunidade de ajudar a todos, e também a meus pais.

 

Às vezes penso no que teria acontecido se eu houvesse permanecido aqui.

 

Talvez tivesse acumulado fortuna, sucedendo meu pai no comércio.

 

Desconfio disso, embora me faltasse talento para o comércio.

 

Acertei, sem arrependimento, na escolha da cidade para viver.

 

Hoje, já não escrevo cartas.

 

Escrevo lembranças transformadas em crônicas.

 

E nelas, de algum modo, continuo respondendo às cartas que o tempo guardou.

 

Gabriel Novis Neves 

01-04-2026




quinta-feira, 2 de abril de 2026

TARDES DE ESTUDO


As tardes no Rio de Janeiro, muitas vezes, eram dedicadas ao estudo.

 

Depois das aulas da manhã, eu voltava ao quarto da pensão para revisar o que havia aprendido.

 

O silêncio ajudava na concentração, embora às vezes o barulho da rua chegasse pela janela. Mesmo assim eu me sentava diante dos livros abertos e procurava avançar um pouco mais no conhecimento médico.

 

Era um trabalho paciente, feito página por página.

 

Isso aconteceu nos três primeiros anos da faculdade.

 

Depois, vieram as atividades no hospital e os estudos passaram a ser feitos à noite.

 

Os seis anos de curso passaram depressa e, quando percebemos, já estávamos preparando a volta para Cuiabá.

 

Nessa fase, os plantões e os estudos à beira do leito dos pacientes preenchiam os meus horários.

 

Curioso é que, ainda assim, faltava-me tempo para avançar no conhecimento médico.

 

O curso de Medicina embora prolongado, é curto demais para deixar a matéria em dia.

 

Para vencer essas dificuldades, eu tinha sempre no quarto de pensão, guardadas em latas de bolacha, as preciosidades enviadas por minha mãe: francisquitos, biscoitos de queijo e de polvilho.

 

Eu as socializava com os colegas da pensão.

 

Naquele tempo, as encomendas chegavam pelos Correios, e não era aconselhável enviar produtos perecíveis, como pacu assado e recheado.

 

Certa ocasião, no aeroporto de Cuiabá, uma amiga de minha mãe, me entregou um embrulho com comida para ser levado, no mesmo dia, ao filho aniversariante.

 

Ele morava longe da minha pensão.

 

Cheguei com aquele pacu exalando o perfume irresistível de sua carne fresca.

 

Reuni os colegas da pensão e saboreamos juntos aquela delícia do rio Cuiabá.

 

Não me recordo do nome da amiga de minha mãe, e nunca mais a vi.

 

Os colegas que tinham namoradas em Cuiabá, além das cartinhas semanais, recebiam guloseimas sempre generosas.

 

Escondiam-nas no fundo do armário para não dividir com ninguém.

 

Depois da colação de grau, pegavam o primeiro voo e retornavam à cidade natal.

 

Casavam-se e iniciavam a carreira profissional.

 

No meio dos livros, das saudades e das pequenas delícias da terra, a juventude ia passando.

 

E a vida, sem alarde, já se preparava para florescer.

 

Gabriel Novis Neves

01-04-2026




quarta-feira, 1 de abril de 2026

O BAR DA ESQUINA


Perto da faculdade havia sempre um pequeno bar frequentado pelos estudantes.

 

Não era sofisticado, mas era ponto de encontro depois das aulas.

 

Ali conversávamos sobre tudo: Medicina, futebol, política e a saudade de casa.

 

Entre um café e outro, as preocupações com provas e trabalhos pareciam diminuir.

 

Aquele bar simples tornou-se parte da vida universitária — um espaço onde a amizade também se construía.

 

Os estudantes do interior andavam sempre em grupo: onde ia um, iam todos.

 

Já os do Rio, ao fim das aulas ou dos plantões, seguiam para as suas casas — de ônibus, lotação ou automóvel, muitas vezes já esperados.

 

Nós, em maior número, ocupávamos pensões e repúblicas nos bairros da Glória, Catete, Flamengo e Botafogo, onde os aluguéis eram mais acessíveis.

 

Quando a mesada chegava, nos primeiros anos, íamos jantar no bar e restaurante Recreio — mais pela conversa do que pela comida.

 

Bebíamos chope ‘batizado’ com cachaça, e o prato da vez era o famoso ‘sonho de noiva’: arroz branco, dois ovos fritos e um pedaço de linguiça.

 

Era o mais barato do cardápio.

 

De sobremesa, um café.

 

Namorar, quase sempre, só quando não custava nada — pequenas histórias que a juventude guarda sem cerimônia.

 

Com o tempo, o Recreio mudou-se para a rua Marquês de Abrantes, quase esquina com a Paissandu, e perdeu o charme.

 

Outro reduto de estudantes e boêmios era o Lamas, no Largo do Machado.

 

Dizia-se que ali Noel Rosa se inspirou para compor ‘Conversa de Botequim’.

 

Tive vários companheiros de quarto de pensão: Carlos Eduardo Epaminondas, que não admitia morar longe de Copacabana; Celso Fernando de Barros, intelectual e grande orador; José Vidal ex-seminarista e o mais namorador; Juvenal Alves Correa, de Campo-Grande; Wanderlei de Souza, do Maranhão; Neyzinho, de Cáceres, Ney Pinheiro e Marcondes Pouso Filgueira, de Cuiabá.

 

Alguns iam à república para estudar em grupo.

 

Depois, com a chegada do meu irmão Pedro, passamos a dividir o quarto até o meu regresso.

 

Hoje, todos esses companheiros já se foram.

 

E o bar da esquina perto da faculdade, já não recebe estudantes.

 

Os tempos mudaram — e com eles, ficaram as lembranças.

 

Resta o que não fecha: a mesa vazia, ainda cheia de vozes.

 

Gabriel Novis Neves

28-03-2026







terça-feira, 31 de março de 2026

MESA POSTA COM ESTUDOS


No pequeno quarto da pensão havia uma mesa simples, onde eu passava grande parte do meu tempo.

 

Sobre ela se acumulavam livros, cadernos e anotações da faculdade.

 

Era ali que eu revisava as aulas do dia e me preparava para provas que nunca pareciam poucas.

 

Muitas noites avançavam silenciosas enquanto eu percorria páginas e mais páginas de Medicina.

 

Aquela mesa modesta acabou se tornando uma fiel companheira da minha vida de estudante.

 

Eu lia com os olhos e compreendia, enquanto alguns colegas preferiam estudar em voz baixa.

 

Havia os que varavam a noite inteira, e outros que dormiam cedo para estudar na madrugada.

 

No período do vestibular, os estudos se tornaram ainda mais intensos.

 

A formação ginasial e científica em Cuiabá deixava lacunas, sobretudo quando comparada à dos colegas do Rio, vindos de colégios como Santo Inácio ou Pedro II.

 

Muitos deles sequer precisavam de cursinho para enfrentar o disputadíssimo vestibular de Medicina.

 

Lembro-me bem da pequena mesa onde estudava, saindo apenas para o cursinho na Cinelândia.

 

O trauma do vestibular foi tão grande que, por momentos, cheguei a imaginar um acidente que me livrasse daquela pressão.

 

Eu era o primogênito e carregava, em silêncio, a obrigação de ser aprovado —ainda mais com a confiança que meus pais depositavam em mim.

 

Durante anos sonhei com o vestibular.

 

Eram pesadelos que me despertavam no meio da noite.

 

Mas a vida segue, e as preocupações apenas mudam de nome.

 

Vieram os desafios do exercício da Medicina no interior, ainda carente de recursos.

 

A ultrassonografia gestacional, hoje tão comum, só chegou duas décadas depois do meu retorno a Cuiabá.

 

Naquele tempo, atendíamos pacientes indigentes e pagantes em consultórios simples, com os meios que tínhamos.

 

Depois vieram as preocupações com os filhos, os netos e os bisnetos.

 

Agora, chegam as reflexões sobre a própria velhice e os cuidados que ela exige, mesmo quando a saúde se mantém firme.

 

Hoje, no escritório do meu apartamento, diante da mesa do computador, volto a passar grande parte do meu tempo.

 

Já não estudo para provas — estudo a memória.

 

E transformo lembranças em crônicas.

 

No fim, a mesa mudou.

 

Mas continuo o mesmo aprendiz da vida.

 

Gabriel Novis Neves

26-03-2026





segunda-feira, 30 de março de 2026

RECIBO GUARDADO NO BOLSO


Encontrei um recibo antigo no bolso do paletó. 

 

O papel estava amassado, quase ilegível. 

 

Não lembrava da compra, nem do dia exato. 

 

Ainda assim, fiquei segurando aquele pequeno registro de algo que já passou. 

 

Há documentos que comprovam despesas. 

 

Outros apenas confirmam que estivemos vivos naquele instante. 

 

Vasculhar bolsos de calças e paletós no guarda-roupas é sempre uma pequena escavação arqueológica. 

 

Aparecem listas de medicamentos, comprovantes da Mega-Sena, recibos do condomínio. 

 

Nada me recordava aqueles papéis. 

 

Como o cérebro decide o que guardar e o que apagar? 

 

Ao menos sei que, nas datas impressas ali, eu estava vivo.

 

 Também guardo bilhetes em gavetas. 

 

De alguns lembro o assunto; de outros, apenas a caligrafia. 

 

Faltam-me os encontros, sobram os papéis. 

 

Exerci a Medicina no tempo anterior aos computadores. 

 

Cada paciente tinha seu prontuário em ficha de papel, com a história clínica cuidadosamente anotada. 

 

Ao me aposentar, trouxe milhares deles para a biblioteca. 

 

Estão guardados em armários, sem ordem rigorosa. 

 

Sei que ali repousam histórias de vida —mas já não consigo localizá-las quando preciso. 

 

Quando eu partir, deverão ser incineradas. 

 

Dias atrás encontrei uma folha antiga onde anotei coincidências ligadas ao 31 de março de 1964. 

 

O último Ministro do Exército do Presidente Jango Goulart fora o General Ladário Pereira Teles, Comandante do CPOR do Rio quando eu era aluno. 

 

Recordei-me de um episódio: chovia, havia uma poça de água enorme na saída do quartel. 

 

Desviei para não molhar os tênis. 

 

O general observava. 

 

Mandou-nos voltar e atravessar a água, chamando-nos com ironia, de ‘alunos da Ana Neri’.

 

Aprendi ali que disciplina não contorna poças. 

 

Outra coincidência: o último Ministro da Aeronáutica de Jango foi o cuiabano Brigadeiro Anísio Botelho, irmão de Anco Botelho, casado com a minha tia Alba. 

 

Parte da sua Fazenda Três Marias foi vendida ao Presidente. 

 

Por causa de uma indisposição intestinal da primeira-dama, no aeroporto de Cuiabá, construiu-se o que viria a ser o Aeroporto Internacional de Cuiabá—Várzea-Grande

— que já teve outro nome antes de se tornar Marechal Rondon. 

 

Assim são as coincidências. 

 

Às vezes começam como um simples recibo esquecido no bolso — e terminam lembrando que a vida também se escreve em papéis amassados. 

 

Gabriel Novis Neves 

31-03-2026




domingo, 29 de março de 2026

RECUSA DELIBERADA


Recusei um convite sem inventar desculpas. 

 

Apenas disse que não queria ir. 

 

No passado, teria aceitado por obrigação. 

 

Hoje aprendi a preservar minha energia. 

 

Dizer ‘não’ também é um ato de cuidado —consigo mesmo e com o tempo que ainda nos resta. 

 

Até hoje tenho dificuldade em negar pedidos. 

 

Não por covardia, mas por educação, talvez pelo excesso de consideração com o outro. 

 

Ao longo da vida, porém, também recebi muitos ‘nãos’. 

 

Alguns passaram sem marcas; outros ficaram gravados na memória. 

 

O mais duro veio do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, em resposta a um ofício do governador Fernando Correa da Costa, ambos do mesmo partido. 

 

 O Estado de Mato Grosso ainda era uno quando foi criada a Fundação de Saúde de Mato Grosso — a FUSMAT — com o objetivo de agilizar os serviços de saúde no Estado. 

 

Eu era médico concursado e estável do governo da Guanabara. 

 

Em conversas na calçada da casa de meus pais, Fernando Correa disse à minha mãe que precisaria de mim na nova fundação. 

 

Recebi o recado com emoção. 

 

Expliquei que só poderia retornar se fosse colocado oficialmente à disposição do governo mato-grossense. 

 

Depois de idas e vindas ao Palácio Guanabara, o secretário mostrou-me o despacho de Lacerda: um grande X sobre o pedido e a frase seca — 

 

 ‘Quem não quiser trabalhar, demita-se’. Assinado: Carlos Lacerda! 

 

Antes que eu tomasse qualquer decisão, o destino interferiu. 

 

Era terça-feira, plantão no Hospital Souza Aguiar, equipe Cata-Preta. 

 

Tomávamos café quando o alto falante chamou Augusto Paulino Neto e a mim ao gabinete do diretor, Brito Cunha. 

 

Recebeu-nos armado, visivelmente tenso. 

 

Era 31 de março de 1964. 

 

Fomos designados, por ‘merecimento’, para integrar o hospital de campanha montado dentro do Palácio Guanabara, destinado a proteger o próprio governador, ameaçado por tropas que pretendiam invadi-lo. 

 

O resto pertence a história do Brasil. 

 

Aprendi então que a vida às vezes decide por nós. 

 

E que certos ‘nãos’ apenas mudam o caminho nunca o destino. 

 

Gabriel Novis Neves 

30-03-2026




sábado, 28 de março de 2026

DOMINGOS ACADÊMICOS


Enquanto muitos cariocas aproveitavam o domingo para ir à praia ou caminhar pela cidade, os estudantes de Medicina quase sempre tinham outro destino.

 

O domingo, para nós, era dia de recuperar leituras atrasadas, revisar matérias difíceis e tentar organizar o conhecimento que se acumulava ao longo da semana.

 

Sentado à mesa simples do meu quarto de pensão, passava horas entre livros abertos e anotações espalhadas.

 

Lá fora, a cidade seguia alegre e barulhenta; ali dentro, reinava o compromisso com o estudo.

 

A partir do quinto ano, ao ser aprovado no concurso para acadêmico do Pronto Socorro Municipal, escolhi os domingos para os plantões.

 

Não perdia aulas e ainda aprendia no hospital, onde a Medicina se mostrava viva, concreta, exigente.

 

Nos primeiros anos, porém, o domingo tinha outro sabor.

 

Ia ‘filar boia’ na casa de parentes.

 

A macarronada com galinha era presença quase certa — simples, farta e carregada de afeto.

 

Às vezes, ainda sobrava tempo para assistir a um jogo do então charmoso campeonato estadual.

 

Na pensão, a dona da casa e sua mãe idosa, raramente ficavam.

 

Preferiam o cinema ou o teatro na Cinelândia, onde a vida cultural pulsava com intensidade.

 

Na década de cinquenta o coração do Rio batia forte no centro da cidade.

 

Até os desfiles das escolas de samba aconteciam na avenida Rio Branco.

 

Era também ali que os calouros de Medicina da Praia Vermelha faziam seu trote.

 

Desfilávamos sem camisa, com o corpo pintado, exibindo uma faixa de calçada a calçada:

 

— Aí vem a matriz!

 

Uma pequena banda tocava marchinhas, e alunos e alunas dançavam como um carnaval improvisado.

 

Curiosamente, os estudantes do interior participavam com mais entusiasmo do que os próprios cariocas.

 

Quantas madrugadas atravessei estudando, enquanto lembrava daquele desfile alegre, quase um sonho distante em meio às exigências do curso!

 

Foram seis anos intensos, sem domingos nem feriados de verdade.

 

Tudo parecia conduzir, a um único momento esperado: o baile de formatura nos salões do Hotel Glória.

 

E, quando ele chegou, compreendi que cada domingo renunciado havia valido a pena.

 

Gabriel Novis Neves

24-03-2026




sexta-feira, 27 de março de 2026

PRIMEIRA AULA CLÍNICA


Uma das aulas mais marcantes do curso de Medicina foi aquela em que tivemos o primeiro contato clínico com pacientes.

 

Até então, nossos estudos estavam concentrados em livros, desenhos anatômicos e explicações teóricas.

 

Quando entramos na enfermaria, tudo ganhou outra dimensão.

 

O corpo humano deixava de ser apenas um capítulo de livro e passava a ser uma realidade viva diante de nós.

 

Aquela aula abriu uma nova etapa no aprendizado médico.

 

O professor Cruz Lima ministrava as aulas teóricas da disciplina Semiologia na Santa Casa de Misericórdia, no Rio de Janeiro.

 

As atividades práticas ficavam sob a responsabilidade de seus assistentes.

 

A turma era dividida em grupos, e seguíamos para as amplas enfermarias da Santa Casa, onde aprendíamos a examinar o paciente.

 

Iniciávamos pela anamnese — a história clínica do doente em seu leito.

 

Identificação, queixa principal e o registro cuidadoso dos sintomas.

 

Cada aluno deveria portar um termómetro, aparelho de pressão e estetoscópio.

 

A partir da queixa principal e de um breve relato da história clínica, iniciávamos o exame físico.

 

Com uma anamnese bem feita e um exame detalhado, já era possível chega a uma hipótese diagnóstica.

 

Na década de cinquenta, as enfermarias da Santa Casa estavam frequentemente lotadas de pacientes com esquistossomose.

 

Isso se devia à intensa migração de nordestinos para o Rio de Janeiro em busca de trabalho.

 

Muitos permaneciam internados por longos períodos e, de tanto ouvirem as explicações dos professores, acabavam também nos ensinando sobre a própria doença.

 

Nas provas práticas, não raro, eram eles que nos orientavam nos ensinavam sobre como escrever uma boa anamnese, estabelecer o diagnóstico clínico e indicar o tratamento.

 

Em Cuiabá, durante sessenta anos de exercício profissional, não atendi um único caso de esquistossomose.

 

Mas foi ali que aprendi a escrever uma boa anamnese.

 

Estudar diretamente no corpo humano, frágil e vulnerável no leito de um hospital, é algo quase sagrado.

 

O paciente, que mesmo na doença se dispõe a ensinar, nos mostra que a Medicina começa, antes de tudo, no respeito e na humanidade.

 

E foi ali que entendi: o verdadeiro mestre, muitas vezes estava deitado no leito.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2025




quinta-feira, 26 de março de 2026

CHEIRO DE HOSPITAL


O primeiro contato prolongado com um hospital marca qualquer estudante de Medicina.

 

Ainda jovem, vindo de Cuiabá, estranhei aquele cheiro característico que parecia impregnar todos os corredores.

 

Era uma mistura de éter, desinfetante e ansiedade humana.

 

Caminhava atento, observando médicos apressados, enfermeiras vigilantes e pacientes à espera de notícias.

 

Aos poucos, compreendi que aquele ambiente faria parte constante da minha vida profissional.

 

O hospital não era apenas um prédio repleto de salas e enfermarias — era o lugar onde a fragilidade e a esperança conviviam lado a lado.

 

Na primeira semana de aula, ainda com a cabeça raspada — trote oficial da Medicina da Praia Vermelha — o presidente do Centro Acadêmico pediu licença ao professor que ministrava a aula teórica de Histologia para fazer um convite aos calouros.

 

— Hoje, às 19 horas, no auditório do Hospital e Pronto Socorro Miguel Couto, o professor Nova Monteiro iniciará um curso de Traumatologia.

 

Perguntei aos colegas se aquilo era trote.

 

Disseram que não, que era melhor comparecer.

 

Foi a primeira vez que entrei em um Hospital no Rio de Janeiro.

 

Meu primo, já aluno do quinto ano, viu-me no auditório e se aproximou:

 

— Estou de plantão.

 

Quando terminar a aula, venha comigo.

 

Vou fazer uma apendicectomia e quero que você assista.

 

Pela primeira vez senti o cheiro de um Centro Cirúrgico.

 

Uma enfermeira ajudou-me a vestir o uniforme: a calça, o jaleco, as sapatilhas, o gorro e a máscara, recomendando cuidado para não esbarrar na equipe cirúrgica.

 

O ambiente me envolveu de forma inesperada.

 

Comecei a passar mal.

 

O pior é que, naquele instante, eu não confiava plenamente na perícia do meu primo como cirurgião.

 

Quando ele fez a incisão e o sangue apareceu, tive uma lipotimia.

 

Fui retirado do centro cirúrgico, cabeça baixa, água e silêncio.

 

Minha estreia no hospital não poderia ter sido pior.

 

E, no entanto, foi ali que comecei a me tornar médico.

 

Gabriel Novis Neves

17-03-2026




quarta-feira, 25 de março de 2026

DIÁLOGOS DOS CORREDORES E ARREDORES


Nem todas as lições da faculdade de Medicina aconteciam dentro da sala de aula.

 

Muitas vezes aprendíamos mais nas conversas rápidas dos corredores do que em longas exposições teóricas.

 

Ali trocávamos dúvidas, comentávamos casos clínicos e, até compartilhávamos preocupações pessoais.

 

Aqueles encontros improvisados, entre uma aula e outra, ajudavam a criar um espírito de companheirismo entre os estudantes.

 

Percebi cedo que a Medicina também se constrói na troca de experiências.

 

Quantas lições aprendi no bonde que nos levava à faculdade, nas refeições do restaurante universitário e no ambiente simples da pensão!

 

O companheirismo se formava entre os colegas do interior, que usavam o bonde, os suburbanos que vinham de ônibus e voltavam no mesmo dia, e até entre os cariocas, que, mais reservados, nem sempre se misturavam para estudar.

 

Nos plantões, porém, estávamos todos juntos, trocando ideias e aprendendo uns com os outros.

 

Aprendi muito fora das salas de aula, especialmente com colegas mais adiantados, que se tornavam excelentes professores nos centros cirúrgicos e nas enfermarias.

 

Quando cheguei ao sexto ano, também passei a ajudar os mais jovens.

 

O receio do estudante diante de uma assistência domiciliar, sobretudo em áreas mais difíceis, era grande e, em parte, alimentado pelas histórias dos veteranos.

 

Lembro-me de um episódio marcante, no quinto ano, quando a sirene do hospital me chamou para atender uma emergência no Supremo Tribunal Federal.

 

O chamado era para o gabinete do presidente.

 

Encontrei-o deitado em um sofá, ainda de toga.

 

De olhos fechados, percebeu a minha presença.

 

Ali, recebi uma verdadeira aula sobre a síndrome de Ménière.

 

Ao final, orientou com precisão a medicação: glicose hipertônica, vinte mililitros na veia, prontamente preparada e aplicada pelo enfermeiro da ambulância.

 

Foi uma lição inesperada, daquelas que não se esquecem.

 

A Medicina, afinal, se aprende em todos os lugares — e nem sempre com quem imaginamos.

 

Porque, às vezes, a melhor aula acontece no corredor... ou fora dele.

 

Gabriel Novis Neves

22-03-2026