domingo, 5 de abril de 2026

CAFÉ DA MANHÃ NA PENSÃO


Nos meus tempos de estudante de Medicina no Rio de Janeiro, o dia começava cedo na pensão onde eu morava.

 

O café da manhã era simples, mas sempre bem-vindo antes das longas horas de aula.

 

A mesa reunia estudantes de diferentes cursos, ainda meio sonolentos, preparando-se para enfrentar mais um dia de estudo.

 

Entre uma xícara de café e um pedaço de pão, surgiam conversas rápidas sobre provas, professores e pequenas histórias da vida universitária.

 

Em algumas pensões onde morei, havia apenas o direito ao quarto e ao banheiro.

 

Certa vez consegui vaga na cama do meio.

 

O pior era não conhecer os vizinhos, que tinham horários diferentes.

 

Foi um dos momentos mais desconfortáveis dos meus anos no Rio.

 

Levantava cedo, tomava banho e seguia de bonde até o ponto final da linha 4, onde havia uma pequena cantina.

 

Ali encontrava colegas para o café com leite e pão com manteiga.

 

Depois, caminhávamos juntos até a faculdade.

 

Com o avanço do curso e os plantões, o café da manhã e o almoço passaram a ser feitos nos hospitais ou em cantinas próximas.

 

A rotina tornava-se mais exigente, mas também mais rica em aprendizado.

 

No quarto ano fui morar em uma pensão de migrantes judeus, refugiados da Segunda Grande Guerra Mundial.

 

A dona da casa mostrou-me um bom quarto na avenida Atlântica, número 1880.

 

Tinha direito à roupa de cama, ao banheiro e à água da geladeira.

 

No primeiro dia cheguei mais tarde, quando o casal já havia se recolhido.

 

Ao abrir a geladeira, chamou-me a atenção um pires com uma rodela de tomate e uma pequena folha de alface, cuidadosamente guardados.

 

Imediatamente me lembrei de casa, em Cuiabá.

 

Ao lado da porta da cozinha, havia um grande latão destinado às sobras das refeições.

 

Todas as manhãs, amigas de minha mãe vinham busca-las para alimentar seus porcos.

 

Pequenos gestos, em lugares tão diferentes, ensinavam a mesma lição silenciosa sobre o valor das coisas.

 

E foi assim, entre cafés modestos e lembranças distantes que aprendi que a simplicidade também educa.

 

Gabriel Novis Neves

25-03-2026





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