Na turma de Medicina havia estudantes vindos de várias partes do Brasil.
Alguns eram cariocas, acostumados ao ritmo da cidade grande.
Outros, como eu, vinham do interior e ainda carregavam o jeito mais tranquilo de nossas cidades de origem.
Lembro de um colega que também havia deixado sua terra distante para estudar no Rio.
Entre conversas sobre a saudade da família e as dificuldades dos estudos, nasceu uma amizade baseada naquele sentimento comum: estávamos longe de casa, tentando construir o futuro.
Depois de formados, a maioria dos colegas do interior voltou à sua cidade natal.
Alguns permaneceram no Rio de Janeiro para exercer a profissão.
No meu caso, meu pai foi o principal responsável pelo retorno.
Dizia ele: ‘A fila aqui anda mais rápido’, numa metáfora com a clínica que eu ainda teria que construir.
Na cidade grande, a concorrência seria maior; numa cidade menor, as oportunidades surgiriam com mais facilidade.
Estava coberto de razão.
Ao chegar, fui convidado para ser plantonista na antiga Maternidade de Cuiabá.
Também substitui o plantonista do SAMDU e fui muito prestigiado pelos colegas mais antigos.
Em um ano e meio, já era diretor de um hospital estadual.
Dois anos depois, assumia a Secretaria de Educação do Estado.
Antes de completar sete anos em Cuiabá, fui escolhido e depois eleito Reitor Fundador da recém-criada Universidade Federal de Mato Grosso.
Durante onze anos, ao lado de um grupo de jovens professores, implantamos os câmpus de Cuiabá, Rondonópolis, Pontal do Araguaia e Barra do Garças.
Exerci ainda o cargo de secretário de Estado, em três governos diferentes, entre 1968 e 2003.
Implantei a primeira faculdade de Medicina em universidade particular, sem jamais fechar o consultório, e segui como professor da UFMT até a aposentadoria.
Hoje, aos noventa anos, escrevo crônicas diárias e acompanho, com alegria, o crescimento dos meus bisnetos.
Voltar foi mais do que uma escolha — foi o caminho que deu sentido a tudo.
Gabriel Novis Neves
18-03-2026
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