Algumas aulas passam rapidamente pela memória dos estudantes.
Outras permanecem vivas por toda a vida.
Durante meus anos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, assisti a muitas aulas importantes, mas algumas ficaram gravadas de maneira especial.
Não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como o professor conduzia a explicação.
Havia momentos em que a sala inteira parecia compreender, de repente, a grandeza da profissão médica e a responsabilidade que ela exige.
Eu estava no quarto ano de Medicina quando as aulas teóricas e práticas de Clínica Médica eram ministradas na Santa Casa de Misericórdia.
O professor era o médico, escritor, poeta e grande memorialista da literatura brasileira: Pedro Nava.
Foi ele também quem introduziu a disciplina de Reumatologia no currículo das faculdades de Medicina.
Certa ocasião, durante uma aula teórica, apresentou um caso clínico e perguntou aos alunos qual seria a hipótese diagnóstica.
Silêncio geral.
Então passou a apontar para alguns estudantes, pedindo opiniões.
O primeiro colega respondeu que o caso era muito difícil.
Outro confessou que não tinha a menor ideia do diagnóstico.
Com paciência, o professor continuou perguntando.
Nada.
Tentou ajudar lembrando que todos nós já trabalhávamos em hospitais, sobretudo em serviços de urgência e emergência.
Disse que, com certeza, já havíamos visto aquele quadro e até participado do seu tratamento.
Mesmo assim, ninguém se arriscava.
Incansável, dirigiu a pergunta a um aluno sentado nos fundos do anfiteatro.
O colega respondeu com sinceridade: —Professor, só um médico muito experiente poderia responder.
Pedro Nava então mudou a pergunta:
— E o que você entende por médico experiente?
O estudante respondeu:
— Alguém como o senhor, que estuda e leciona essa disciplina há mais de trinta anos.
Nava sorriu e disse:
— Errado.
Pessoa experiente é como farol virado para trás: só ilumina o caminho que já passou.
A sala inteira silenciou.
O poeta queria dizer que a vida é uma escola permanente, onde sempre estamos aprendendo.
O caso apresentado naquela aula era um acidente vascular cerebral — o temível AVC — cujo diagnóstico hoje até leigos conseguem reconhecer.
Desde então aprendi uma lição simples.
Mesmo aos noventa anos, não me considero experiente.
Prefiro continuar sendo apenas um aluno da vida.
Gabriel Novis Neves
15-03-2026
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